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Acabou o Raso

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Esculturas de Jason deCaires Taylor Desculpe-me, não sei se é a idade, mas sou daquelas pessoas que se afogam no raso. Não me chame para o raso. Até as pequenas coisas, como aquela flor mixuruca que brotou ali entre os blocos de cimento no meio fio, carregam um abismo de significado e beleza. Se você estiver afim de ver. Se você não estiver com pressa, como sempre. Verdade, para se aventurar em novas camadas você precisa de tempo, de silêncio, de foco, de menos. Senão, amigo, viramos surfistas da superficialidade. Falando de grandes transformações que precisam do mergulho com os tornozelos molhados pela água da margem. Gritando para os coitados, que se afogam neste tempo de grandes dores, confortáveis e cheios de conteúdo, lá na margem. E isto não serve mais. Então, tenho que informar-lhe: a casa caiu, o bicho pegou, não me chame para o raso. Faz meio século que me sentei na cadeira desta escola chamada mundo, não posso mais dar desculpas para ficar com você na superfície. Fingind...

Querida Deus

Querida Deus, eu sempre achei que você era menina, talvez por conta do desenho de algumas asas de borboleta que vejo por ai. Ou meio menina, talvez. Então escrevo-lhe, de menina pra menina, para solicitar uma resposta. Tinha treze anos quando fui introduzida no baile dos hormônios. Um mal estar no ônibus na volta da escola, uma calcinha tingida de vermelho, tudo bem: fiquei orgulhosa. Achei bonita esta ideia de marcar minha entrada na maturidade com uma cor tão forte. Meu pai correu até uma farmácia e buscou um absorvente. A notícia correu entre meus irmãos. E eu saí do banheiro maior do que havia entrado. Não imaginava que tinha sido transferida do meu plácido lago hormonal para longos anos de boia-cross. Comecei a não entender muito bem a parte da cólica, a dor de todos os meses, achei aquela irritação e aquele peso antes do sangramento, desnecessários. Meus coleguinhas machos saltitando sorridentes pela estrada e eu amuadinha num canto, chorando por qualquer tatu-bola esmagado, q...

De novo, a cegueira

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Chamo-me mariposa hipnotizada pela luz alheia. Basta Deus acender uma lâmpada e lá estou: obcecada pelo objeto.  Rodando, rodando. Dando cabeçadas no vidro quente. A luz do outro toca minhas asas foscas e as percebo coloridas. Não entendo que levo comigo as cores e desenhos das minhas asas. Acredito que eles são fruto da súbita luz acesa, e me apavoro. Quando se apagará? A luz que se acendeu do nada? A luz fugidia? A luz torturante contra a qual me debato no terror da cegueira? Voo, atarantada e em círculos, mais uma vez. Só a exaustão me leva para longe da lâmpada, ao chão, onde choro debaixo de supostas asas cinza. Mas já não é pela luz apagada. Choro minha chama que não vejo.  * Para Nany di Lima, que me acende. * *

Estranha Paz

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Ah, esta paz de me sentir só que dá até medo. Estou sentada no restaurante, indecentemente só. Não pertenço a nenhum quadro. Nenhuma moldura me contém. Não sou sua mãe, sua esposa, sua amante, sua amiga. Sou folha seca na ventania lindamente desgovernada. Que medo de enlouquecer e sair vagando pela rua. Largar o carro. Ir andando até uma rodoviária. Comprar uma passagem para o nada. Virar pessoa desaparecida, forasteira, perder as referências, escafeder, sumir do mapa. Todos viajaram. Faz uns dias que estou só. Devolvida à minha pureza sem demandas. Sem idade, sem rugas, sem pressa, sem expectativas. Este prazer na solidão que me assusta. Só eu no restaurante atrás de uma caneca de chope. Um cara no piano tocando jazz. E não falta nada. Meu Deus, preciso confessar e é terrível: não falta absolutamente nada.  * * *

Cansada da Sua Peixeira

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Zé Dái - Acho. Olha aqui: o ser humano não é este episódio. Ele tem uma história, entende? Então, antes de partir pra cima dele com sua peixeira, dê dois passinhos para trás e olhe o todo, a linha do tempo do cara ou da moça que você conhece. Não desqualifique o indivíduo por uma cagada episódica: guarda a sua peixeira. É só sua frustração, sua agressividade querendo chutar um cachorro. Você também é um cagão episódico, todos nós somos. Existem, é claro, os cagões reincidentes, os muito cagões, os viciados em cagadas. Estão na sua vida? Então livre-se deles. Não os mantenha nos arredores pelo prazer que você tem de usar sua peixeira. São escolhas suas. Já os cagões esporádicos, como eu, por exemplo, que esqueço coisas, que perco coisas, que erro de novo o mesmo caminho, que não dou conta umas vezes, são recortes naturais da paisagem. Nem sempre é cartão postal. Se afaste e olhe o todo destas criaturas e nada de bulir na peixeira. Faça uma estatística da nefastabilidade desta pesso...

O fim da geração jeitinho

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By Sell Dingo É difícil criticar um quadro estando dentro dele. Mas, vamos lá: eu pertenço à geração jeitinho. A uma das muitas gerações jeitinho. Fui paulatinamente estragada por um excesso aprendido de condescendência. Tenho amigos médicos, dentistas, motoristas de ônibus, publicitários, atores... nascidos e criados na cultura do jeitinho. Crescidos na catequese implacável do jeito correto de fazer as coisas, mas ouvindo, lá no fundo, o canto da sereia do jeitinho. Em caso de deslize extremo, complexo, ele estaria lá, sempre à mão e eu sempre soube: o jeitinho. Pra tudo existe um: eu me tranquilizava. O “não” é um troço elástico, manipulável. Depende de quem eu sou, quem eu conheço, da minha patente, de quanto eu tenho, do meu cargo. Sou da geração que endossa privilégios, focada em me tornar um dos privilegiados e não em acabar com eles. Tentando um emprego público para me acomodar, não para servir ao público. Olhando o serviço público com a lente distorcida do privilégio. O ...

Acabou a brincadeira, Jair

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Colocando batom para o Purim - Haaretz DECLAROU O DEPUTADO JAIR BOLSONARO A UM PROGRAMA DE TV:  "Ter filho gay é falta de porrada."  Acabou a brincadeira Jair, pode tirar este preconceito espalhafatoso da cintura, seja homem! Ontem, um menino                          de oito anos morreu de                     apanhar. Acabou a brincadeira, Jair. Chega destas declarações chamativas e nefastas pra alimentar seu marketing do mal. Ontem, um menino de oito anos foi espancado até a morte porque gostava de lavar vasilha, gostava de dança do ventre, gostava de cabelo comprido. Acabou a brincadeira, Jair. Deus não gosta desse seu sorrisinho pervertido, cínico, desse seu regador de regar ódio. Ontem um menino que tirava 80 na escola, foi quebrado pelos murros secos da estupidez de um homem. Acabou a brincadeira, Jair. Tira já estes babadinhos de moral...