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Mostrando postagens de Março, 2016

Celina e Malala

Estou lendo com minha filha de onze anos a história de Malala: menina paquistanesa que levou um tiro na cabeça por insistir que as mulheres tivessem o direito de ir à escola. No começo do livro ela está com a mesma idade de Celina. Vejo o rosto de minha filha endurecer enquanto os olhos deslizam pelas páginas. O lobo mau deixou de ser uma figura pictórica na imaginação: o nome dele é ser humano. Crueldades acontecem no mundo real. Somos nós que as promovemos. Pior, não nos achamos maus como o lobo, atiramos na cabeça de uma criança em nome de Deus. Respiro aliviada de que Celina não tenha nascido no vale do Swat sob a dominação do Talibã. É educada para ser livre, exigir respeito, ser tratada de forma igualitária. Nada no ser mulher a inferioriza ou autoriza contra si qualquer violência. Pode andar vestida como quiser. Pode brincar com meninos. Pode ler. Pode dizer não. Mas agora sabe que há outras Celinas no mundo escravizadas e violentadas pela estupidez dos homens. Meninas que têm…

Honestamente, amigos

Eu aprendi esfolando os joelhos nas calçadas que para crescer é preciso olhar firmemente para o escuro. No começo o que vemos são nossos próprios fantasmas, com o tempo a vista se acostuma e podemos enxergar a nossa verdadeira alma. Ela não é branca, impoluta, ela não é correta, ela não é boa: porque ela abraçou cada cena da nossa história, até aquela onde furtamos um livro numa livraria chique. Não é poesia: eu já roubei um livro quando jovem. Não tinha grana para comprar e era um livro, o que torna o roubo meio romântico, mas não acho que deveria ter feito. Posso suportar o fato de que errei e não autorizo ninguém a me agredir por isso. Então, quero falar brevemente sobre nosso momento político, porque sempre fui um ser político e participei ativamente deste jogo, inclusive como publicitária. Sim, existia um jogo de poder e o jogamos: uns em nome da ganância, uns em nome de um ideal, uns em nome de uma extrema vaidade. E se erramos, e se provarem que erramos, devemos pagar. Julgar …

INSUPORTÁVEL

Tenho procurado suportar pessoas no Facebook. Preciso delas para não perder a noção do mundo. Outro dia, sem querer, uma postagem minha ficou pública. Era sobre política. Não deu cinco minutos e alguém estava me desancando pelo que escrevi. Levei um choque. De onde saiu aquela criatura? Através de que fresta desguardada ela havia se metido no meu reino maravilhoso e perfeito das certezas do Facebook? Como aquele idiota, sem classe, sem nível, sem noção havia conseguido a chave do meu bunker? Onde vivo cercada de amigos que, vá lá, estão mais à esquerda, mais à direita, mas caminham dentro dos limites suportáveis da minha visão de mundo. De onde brotou aquela excrescência xiita? Aquilo não podia haver na realidade. A simples existência daquele idiota colocou um tremor desestabilizante no meu espaço virtual. Fiquei perplexa como se estivesse caminhando pela Paulista e tomasse um murro por estar usando uma camiseta de arco-íris. Rapidamente mudei o status da postagem para amigos. Amigos…