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Mostrando postagens de Janeiro, 2016

Desfibrilador Portátil

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Sentada numa agência dos Correios com uma senha na mão só me resta, na demora da espera, olhar o rosto daquela senhora que aguarda de pé apoiada no balcão. A cara feia da senhora apoiada no balcão. Nela vejo todo o horror de uma vida chata e desgastante. A expressão do desgosto mora ali, naquele rosto. E não foi sempre assim. Ela já foi criança, já foi adolescente. Naquele tempo, mesmo distraída, apoiada num balcão, trazia uma expressão mais leve. Giro meus olhos 180 graus dentro do globo ocular para mim mesma. E me percebo também possuidora de uma expressão dura, tensa. É o meu natural de hoje. Pobre dos desconhecidos na sala dos Correios que cruzarem o olhar acidentalmente com a minha cara.  Perdida em pensamentos quase sempre opressivos, abandonei meu rosto neste esgar infeliz. O outro me olha e confirma sua decepção com o mundo. Minha cara feia alimenta a dele, alimenta a cara do funcionário dos Correios que me atende, alimenta o transeunte que cruza comigo na rua numa corrente v…

Ilha Brasil

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Estou em Brasília. Cidade plana, cidade exata, cidade sonho de pessoas que queriam fazer história. Cidade linda. Cidade limpa. Outro planeta. Brasília não é Brasil. Raros mendigos incomodam a paisagem perfeita, fotográfica. Não há cães abandonados, não há lixo esparramado. Nem sei onde andam as lixeiras de Brasília. O arquiteto pensou em tudo. Show imagético de ordem e progresso fincado no peito do país. Brasília é o Brasil que queríamos, que sonhávamos, que tentamos. Cidade contraditória, recebe em seu corpo escultural parasitas políticos de todos os cantos do país. Tipos não educados, criados para sugar. Eternos coronéis ou desfavorecidos que enfim conseguiram entrar na festa do dinheiro público. Gente pobre de espírito que se enfia num terno caro e se acha digna por conta da etiqueta do vestuário, da tabuleta na porta, da marca na bunda do carro. Jecas Tatus cívicos deslizando pelo cenário futurista. Comprando o luxo e a megalomania que o cenário inspira sem enxergar a modernidade…