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Mostrando postagens de Maio, 2015

Ela é o cão

Diana é o cão. Está se lixando para a superioridade humana. Faz o que lhe dá na telha. Imune a adestramentos. Comandos de voz? Palhaçada. Diana é quase um Bull Terrier não fossem os genes daquela mãe vira-lata. Tem algum traço muito mas muito sutil de Border Collie. Nada ligado à capacidade de ir pastorear uma ovelha para seu dono. Aliás, as vontades do seu dono não estão entre as prioridades dela. Baixinha, atarracada, invocada, Diana é um torpedo constantemente apontado para a rua. Mal o portão oferece uma primeira fresta e o míssil preto e branco cruza por ela em velocidade estonteante, inibindo toda e qualquer capacidade de reação do bípede evoluído que atende pelo nome de Homo Sapiens. Já era. O bípede implume está agora obrigado a desistir de adentrar seu domicílio para se lançar ao encalço de Diana. Usar sua pouca agilidade animal e exibir-se para os vizinhos atrás do bólido de pernas curtas mas força muscular ímpar, capaz de protagonizar dribles e escapadas sobrenaturais. Após…

Ela não está

Hoje não tem mãe, não tem esposa, não me esperem pra jantar. Hoje declinei do cargo e vou tomar uma cerveja sozinha num botequim onde uma esposa e mãe não pisariam. Lembrar-me do quanto sempre adorei estar só. E eu sei que não convém: esposa e mãe precisam estar sempre a postos, com o auditório aberto, disponível ao público. Ainda que irritada e melancólica, ainda que transbordando excessos, sempre de prontidão, até no sono. Mas hoje, honestamente, procurei em mim de cima abaixo e não encontrei a que casou nem a que teve filhos. Então, para evitar embaraços maiores, não vou jantar em casa. Eu sei que vai ser chato pra vocês o lugar da mãe vago na mesa. Como é que, de repente, esta figura tão incensada pela mídia, tão cantada em verso e prosa, tão estigmatizada como santa, tão confiável, tão protagonista de cantiga de ninar, fura com todo mundo? Eu sei que, na minha posição, não cabem mais estas demonstrações de egoísmo. Eu sei que existe uma cláusula no meu contrato que diz: sem volt…

Morra de fome

Enquete do dia: o que sua vítima comeu hoje? A minha traçou um bom prato de tragédia alheia. Pegou a desgraça de um parente e passou o dia ruminando. Desgraça de parente é um pouco nossa: sempre sobra um espaço na longa régua da cruz pra gente enfiar as costas. Minha vítima já foi bem mais gulosa. Não dividia a cruz com ninguém. Tinha orgulho de arrastá-la sozinha, calvário acima, caindo várias vezes de joelhos no chão até ver o sangue escorrendo pelas pernas. Jesus? Um tímido perto da sua performance. Minha vítima comia pratadas e pratadas de sofrimento, arrotando gemidos com cara circunspecta e caçando, com o rabo do olho, algum espelho. Obesa de porradas. Salivando diante dos carrascos. Devoradora de desmerecimentos. Insaciável. Emagreceu com a idade. Hoje só come quando me distraio. Sei que não está morta nem se mudou para outro corpo. Vejo seu vulto molambento zanzando pela periferia de mim, a cata de algum comentário cruel que tenham me atirado. Ou sentada no espelho, hipnotiza…