Ela não está

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Hoje não tem mãe, não tem esposa, não me esperem pra jantar. Hoje declinei do cargo e vou tomar uma cerveja sozinha num botequim onde uma esposa e mãe não pisariam. Lembrar-me do quanto sempre adorei estar só. E eu sei que não convém: esposa e mãe precisam estar sempre a postos, com o auditório aberto, disponível ao público. Ainda que irritada e melancólica, ainda que transbordando excessos, sempre de prontidão, até no sono. Mas hoje, honestamente, procurei em mim de cima abaixo e não encontrei a que casou nem a que teve filhos. Então, para evitar embaraços maiores, não vou jantar em casa. Eu sei que vai ser chato pra vocês o lugar da mãe vago na mesa. Como é que, de repente, esta figura tão incensada pela mídia, tão cantada em verso e prosa, tão estigmatizada como santa, tão confiável, tão protagonista de cantiga de ninar, fura com todo mundo? Eu sei que, na minha posição, não cabem mais estas demonstrações de egoísmo. Eu sei que existe uma cláusula no meu contrato que diz: sem volta. Eu sei que a sanidade de três futuros adultos depende da minha. Mas, não está mais no meu domínio, não é maldade, ou vingança, ou capricho, é a simples constatação que me inunda: neste momento indecente, estou inteiramente realizada, absolutamente só nesta mesa de ferro descascada, diante de uma tulipa suada de cerveja, rabiscando nestes impróprios guardanapos de terceira, trocando risadas com velhos alcoolizados, sentindo-me o mais danado dos cachorros de rua, sem dono, sem casa, sem futuro, liberada até de ser mulher, de ser gente, de pensar... e feliz. Meu Deus, como estou feliz. Então, hoje condeno vocês a jantarem um prato de decepção sem esta mulher imprópria, esta fugitiva temporária, esta delinquente de meia idade que foi comungar com bêbados anônimos alheia aos pilares da família. De madrugada talvez o latido dos cachorros, o som do acionamento da tranca eletrônica do portão, barulhos na cozinha, uma porta batida com força demais, denunciem minha volta trôpega, anestesiada, ainda não reimpossada no cargo. Não se levantem. Não me olhem nos olhos ainda. Esperem se esgotar meu necessário acesso de loucura e se operar ao reverso a metamorfose que ser abate sobre as mães esposas esgotadas deste mundo. 
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Para Vivica, minha irmãe.
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Comentários

  1. Into the wild!
    O maior risco que corremos na vida é não partir. E se um dos maiores prazeres for poder voltar então o que estamos esperando? Abaixo aos cargos! Viva os corações! HGuerra

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  2. Guerra faltou você no botequim. Rsrsrs.

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  3. Nanna, sua escrita soa para mim como sua voz, amiga, generosamente estofada de afeto transbordante, que pega o leitor pela mão e percorre, carinhosamente, os abissais precipícios e as invisíveis superfícies de nossas almas inesgotáveis! Saudade de você! Bj Davi

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  4. Amado Davi, Nanna fica mais feliz quando tem você por perto.

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