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Mostrando postagens de Fevereiro, 2013

Hoje Ela É Uma Estrela

(POST PUBLICADO EM MARÇO DE 2010)

E lá se vão elas: minha mãe, sua mãe, cercadas de flores, olhinhos cerrados, para o lado de lá. Deixam histórias de mulheres que não precisamos ser. Elas que viveram num tempo sem terapia, sem divórcio fácil, sem a ditadura dos egos e das vontades, sem a fralda descartável, sem o descartável, quando suportava-se melhor a dor, o outro, a falta, e esperava-se um homem voltar da guerra ou mesmo da noite, sem alvoroço. Lá se vão elas deitadas sobre a condescendência e a tolerância que não temos mais. E lá se vai nossa oportunidade de dobrar os joelhos com reverência. Nós as modernas, as autossuficientes, as "uber" profissionais, as rebeladas, as emancipadas, as tais.  Tudo muda. As mulheres mudam. Vamos passando umas às outras a mala refeita. Volto à mala que minha mãe me deu. Nela sempre encontro respostas quando a psicologia, a religião e a filosofia juntas não dão conta. Acho um pensamento de minha mãe e volto para frente. As frases não carrega…

Mais Safo em Vídeo

Presente do Helio Ishii e da Marilene Grama. Clique na foto.




























E dia 08 de março, Safo vira livro. Aguardem.

Não Amola Lao

O tempo é uma coisa criada, apontou Lao Tse. Dizer não tenho tempo é dizer não quero. Um tapa na minha cara. Eu crio tempo para coisas estúpidas. Entre um corredor e outro do supermercado, me arrasto feito um caramujo manco comparando etiquetas minúsculas de preço, analisando demoradamente os sachês de tempero, dispersa entre latas de molho de tomate, e, invariavelmente, compro algo que não preciso. Desconectada de mim, perco o carrinho com as compras e quando, a custo, alcanço o estacionamento, não sei mais onde estacionei o carro. Então vago novamente feito barata alienada atrás da vaga enquanto meu tempo vasa para o ralo. Escolhi ser a mulher do supermercado que não sou e transito pelo estabelecimento sangrando o tempo essencial para a outra que quero ser. Economizei umas cinco moedas e perdi o paraíso. Em casa, crio o tempo de organizar gavetas. Há algo de admirável numa gaveta organizada, quase artístico. Das gavetas, pulo para os CDs, que coloco em ordem alfabética. Dos CDs, sa…

Querido Abandonador

Passei muitos anos revivendo o abandono. Depois de vinte ou trinta vezes que um abandonador entra na sua sala, te trata com intimidade, te abraça e beija, te leva pra cama e te abandona, fica claro: você gosta dele. Não é obra do azar, não é macumba, não é praga de vizinha, nem complô do universo: você gosta dele. O canalha, infantil, galinha, egoísta? Impossível viver sem ele, enquanto ele dura.  Senhor mamão com açúcar e porrada. Chega com seu cilindro de oxigênio e convida para mais um mergulho no paradoxo amor e dor. Obrigatório para os viciados no abandono. Um mergulho fundo demais, que gasta tempo demais da vida e cansa. Com o tempo, abandonados contumazes aprendem o ritual do abandono: é sempre no fundo mais fundo da fossa das ilhas Marianas, onde a escuridão é mais escura e o frio mais frio, que o abandonador arranca a cara da vez e se revela. E, previsivelmente, desaparece com sua lanterna, seu oxigênio, seu abraço escorregadio, suas palavras vagas que talvez fossem amor. O …