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Hoje Ela É Uma Estrela


(POST PUBLICADO EM MARÇO DE 2010)

E lá se vão elas: minha mãe, sua mãe, cercadas de flores, olhinhos cerrados, para o lado de lá. Deixam histórias de mulheres que não precisamos ser. Elas que viveram num tempo sem terapia, sem divórcio fácil, sem a ditadura dos egos e das vontades, sem a fralda descartável, sem o descartável, quando suportava-se melhor a dor, o outro, a falta, e esperava-se um homem voltar da guerra ou mesmo da noite, sem alvoroço. Lá se vão elas deitadas sobre a condescendência e a tolerância que não temos mais. E lá se vai nossa oportunidade de dobrar os joelhos com reverência. Nós as modernas, as autossuficientes, as "uber" profissionais, as rebeladas, as emancipadas, as tais. 
Tudo muda. As mulheres mudam. Vamos passando umas às outras a mala refeita. Volto à mala que minha mãe me deu. Nela sempre encontro respostas quando a psicologia, a religião e a filosofia juntas não dão conta. Acho um pensamento de minha mãe e volto para frente. As frases não carregam a vaidade do impacto. É sabedoria de beira de fogão, despretensiosa. Com um leve soprar de brasa, arrancam esta senhora do cotidiano sem lustro, quase simplório, onde parecia viver e revelam um sutil verniz mitológico. Mãe bruxa, grande mãe, mãe redonda, absoluta, gaia. 
A mãe da amiga se foi e abriu minhas costelas a fórceps de onde saltou uma coisa viva e desesperada que se chama saudade doída de minha mãe. Corro para as rugas de dona Célia. Quero enchê-las de amor e gratidão, apesar de tudo que não fomos uma para a outra e não seremos. Caio de joelhos. Hoje sou mãe. Ela é quase uma estrela.
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Comentários

  1. Uma estrela que vai iluminar ainda mais o seu caminho. Beijos, querida!

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  2. Tão lindo! Meu beijo e carinho...

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  3. E eu que achei que estava forte já... Desabei.
    Mesmo a gente se preparando, nunca estamos de verdade prontos para obedecer o ciclo da vida e aceitar. Mas vai ficar a saudade, a gostosa e maravilhosa lembrança.

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