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Devir

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A deusa arrancou-me o cabresto da cara, sem piedade. Eu, que ainda me agarrava a uns farrapos de certeza. Entrou imperiosa na minha tarde monótona e cortou as amarras dos meus arreios. E atirou minha auto piedade para o invisível. Acabou, ela disse. Nada mais de comprar expectativa pra alimentar queixa. Levanta e calça no pé as encruzilhadas,  a vida agora é devir. É acordar e entrar no rio, e sair sempre em outro lugar. Sem esperança de porto, sem medo de barranco. Acordar rio. Acabou, ela disse, o susto, as assombrações sob a cama, o mal à espreita, a dor de estimação. Agora, minha filha, a vida é devir. Acabou a morte, não tem mais perde e ganha. Tudo está perdido porque nada é seu. A deusa deu as costas, sem alarde, e mergulhou no meu peito. Acabou o drama, reforçou na profundidade da ausência: levanta e se veste de labirinto, e dança: a vida agora é devir. * * *

Precisamos falar sobre isto

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Parto, neste momento, da vontade de não viver. Sísifo, condenado, quer desistir de empurrar a maldita pedra até o topo da montanha de onde ela sempre rola.  A paisagem lá fora já está pálida e fria. Não me comove mais. Viver é enorme e pesado e morrer é simples. Sento-me na borda do abismo onde o vento, no vazio, me estende os braços e nele vejo um colo para descansar. Este é o momento precioso entre o ser e o não ser. Eu nada sei disso. Estou engolida pela descrença, crivada de pensamentos ruins que preciso calar. Este é o momento precioso entre o morrer e o acordar. Eu nada sei disso. Apenas aguardo o impulso final. Sou a mais translúcida das borboletas voando mar adentro. Só vejo paz em dissolver-me no todo. Então, percebo no horizonte, no encontro entre os topos dos prédios e o céu, uma fissura. Sutil, como se fosse um minúsculo defeito na paisagem. Sim, a abóbada celeste está rachando ali. Tento voltar para o meu abismo. Não posso. Há uma fissura no céu, um defeito na perfeição do

Vai ter golpe

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Pobre democraciazinha minha, sempre balançando, sempre por um fiozinho, Sempre flertando com um tiraninho, um mitinho, um salvadorzinho, Sempre assustada, pendurada no abismo, acostumada com papais abusivos e mamães cúmplices. Pobre democraciazinha inventada, imitação barata, sempre com inveja de alguma gente distante bacana evoluída. Democraciazinha desinteressante para tantos, dispensável, incompreendida, culpada. Democraciazinha fajuta, esfarrapada, que lá se vai desmanchando, fustigada por um imenso silêncio. * * *

Das mães que perderam os filhos

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Das mães que perderam os filhos, às vezes, doem os ossos. Só a elas é reservado o direito de soltar um súbito soluço fundo e desandar em choro perene de dia inteiro. Só a elas é permitido ter olhos de maré cheia e de ressaca. Apenas de mães que perderam os filhos é esperado um suspiro de rasgar almas entre os corredores de um supermercado. E, delas, não se espera que sempre boiem. Pois a elas é outorgado, por lei federal, afundar de repente no caminho da escola do filho que ficou, engolidas pelo chão. Das mães que perderam os filhos se espera que explodam cotidianamente pois caminham sobre minas escondidas em fotos, cheiros, endereços, bilhetes antigos, frases inocentes e lembranças das redes sociais.  Então, não se assuste, não se precipite, só aguarde que elas encontrem seus pedaços e ressurjam na superfície do dia. Demoram, porque não se acostumam em ser inteiras sem um pedaço. Mas não espere, das mães que perderam os filhos, que não voltem, que morram junto. Por que mães que perder

Próxima Acrobacia

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Há esse tipo de mulher encarregada de atravessar a noite escura de ventania levando na mão uma vela pálida e trêmula. Acredite, elas existem. Guardiãs das incertezas. Condenadas a não ignorar que incertezas são os paralelepípedos da rua. Suas costas têm um formato de vírgula, forjado pelo hábito de andar curvada sobre a chama e sua mão esquerda tem formato de escudo. Tentando impedir com o corpo qualquer sopro que possa tocar mortalmente aquele lume. Ameaçadas pela imprevisibilidade dos ventos, pela hipótese de que a mão espalmada esfrie.  Vigiando o bater de asas de uma borboleta do outro lado do mundo. Acredite, elas existem. Um tipo de mulher que finge dançar quando a chapa esquenta sob os pés para não assustar aquele que olha o abismo. E ri o riso que já não tem e anda sobre o deserto com sua forquilha inventando água... porque é preciso.  Acredite, elas existem, tenho irmãs assim. Que balançam berços onde dorme a menor das esperanças. E embalam estas esperanças com amor infinito,

Simples

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Não combinamos que seria fácil. Porque fácil não era palavra importante. Tínhamos planos maiores. Combinamos de retornar-te ao simples que é muito além do fácil. O simples, lembra? Aquele avesso precioso do complexo? O complexo aceito, abraçado, digerido. Você estudou o jogo por muito tempo e elegeu nele suas escolas da vez. Olhamos juntas para a tela tridimensional chamada vida. Você projetou nos meus olhos o seu roteiro, fizemos ajustes, você partiu. Sem precisar do fácil que seria lembrar-se de quem você é. E brotou na tela tridimensional vinda do nada. Como se existisse nada. Segui o nosso roteiro e você, esquecida do antes, me odiou várias vezes. Enveredou numa sequência de complexos buscando um suposto fácil que te salvaria. Uma coisa que sabemos: não existe. Então, te vejo esmurrando as paredes do labirinto. Exausta de tentar saídas. E a saída não está no labirinto, não está na dificuldade que te distrai. Está no simples de que não existe o labirinto de fato. Ele é feito de átom

Espera

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Há uma escada escondida num canto da sala. Desça até o último porão. Haverá um  longo corredor de luzes fracas, algumas queimadas. Siga até o fim onde uma porta espera semiaberta. Atravesse para o quarto onde ela tece. A senhora de dedos enrugados e tortos e cabelos brancos em desalinho. Tece e desfaz seu tricô: um mesmo sapatinho de menina. Tece e puxa o fio quando está quase pronto. Digam a ela que acabou. Que pode enfim deitar-se no chão e esfriar. Que pode seguir para o descanso na luz. Que pode correr para o infinito, para os olhos da filha. * * *