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29.11.16

Um Novo Dia

Na virada de meio século, a alma me convida a ser humilde e me apresenta outro quarto para limpar. Entulhado de vaidades, reis tirânicos, súditos hipócritas acovardados. Todos sou eu. Na virada dos cinquenta é bom já ter aprendido a decifrar a linguagem da alma. Ela fala enquanto lambe as feridas e as cicatriza. Na imaturidade, eu amaldiçoava o outro, aos cinquenta aprendi, me procuro nele. A alma fala comigo através das escolhas que faço. As mais injustificáveis são as mais cheias de significado. Lá onde não faz sentido estar, lá está todo o sentido. Na virada de um século, quando acho que vou ganhar diploma de gente, a alma me abre outro quartinho cheio de entulhos. Alma obstinada, não quer deixar nada pendurado para uma encarnação futura. Não me poupa. Não me autoriza a descansar sobre o travesseiro morno de uma alienação. Nem mesmo aos cinquenta. Encho o balde de água, me armo com caixas de papelão vazias, sacos pretos de lixo, diante da porta aberta do quartinho. Lá dentro o ego há de resistir, agarrado aos seus brinquedos. Esperneando. Como sempre. Avanço, amorosa, porta adentro. Não quero arrancar mais dele as muletas. Não quero impor a ele a violência do meu profundo, como sempre fiz. Devagar... a alma me sopra... amorosamente, diz. Deslizo os dedos sobre a capa tosca de poder que enfeita o meu ego e desamarro a fita que a prende ao seu pescoço. O pano roto e imundo cai feito chumbo e desveste a pele fina, insuficiente, que dói ao primeiro beijo de um raio de sol. Ainda não é felicidade, mas será. Depois virão outros tesouros do ego que, à luz do sol, se mostrarão como ingênuos pedaços de vidro colorido. Juntaremos todo o desnecessário e deixaremos ir com o rio. E então uma felicidade tímida se apresentará. Sem pretensões infladas, mas pacífica e inteira. Enquanto um horizonte púrpura me avisará do parto divino de um novo dia.
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20.11.16

Para o meu fantasma

Adeus e obrigada. Foi bom girar nos seus braços nesta valsa inesperada. Obrigada pela Duquesa, pela Gata Borralheira, pelo pai e pelas crianças minhas que você nem sabe que me deu. Obrigada pelo espelho onde pude pentear a minha vaidade, pelo lugar de destaque na sua corte que pude chamar de pouco. Foi doloroso ver meu tirano no seu, mas foi como um parto. Dor valiosa de onde nasci novamente. Obrigada por tudo que você nem sabe que foi. Por ter ido tão fundo em mim sem nunca ter deixado a superfície das suas vontades. Por ter me notado. Por ter chamado meu nome. Por ter evitado o meu mergulho e me devolvido a mim. Coloco este agradecimento e este adeus numa garrafa e lanço no rio de nome universo. Incógnita, me despeço. Remeto este adeus agradecido à sua alma que há de me escutar numa dimensão distante. Adeus e obrigada pelas provocações de menino, por acordar o meu menino, por dançar comigo esta dança breve, desatenta, mas necessária. Verdadeiramente, obrigada, segue seu caminho. Abro o porta-joias onde guardei um fio branco do cabelo da sua alma e devolvo a você. Pode ir inteiro. Pode ir pra sempre. Está tudo compreendido pela sabedoria do amor que não precisa de tradução. Pega estes olhos de mar e lança rumo a outras praias. Recebi a mensagem para sustentá-la e não para resolvê-la. Vai, você é livre. Também estou inteira nesta dor. Não há dívida, só uma pequena pontada entre os seios que vou chamar de saudade. Mira o longe e caminha para o nunca mais. Ajeita, num cantinho da mala, legado de mim, apenas duas palavras: adeus, obrigada.
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14.11.16

O amado e odiado outro

Teu nome é porta. Mas te chamam outro. Se sabemos olhar-te bem lá no fundo, te chamaremos porta. Tu nos trazes em gesto e verbo as dores que escondemos. Vemos no teu corpo, nossas feridas. No teu mal, o nosso mal. E isto te faz divino e mestre dos que te sabem ler. Quando pisas, maltratas ou ignoras, és professor dos que buscam a mensagem e demônio dos que escolhem não se ver. Tela de projetar mágoas. És o que fere, o que não alimenta, o impossível, o maléfico. Instalas-te feito bode nas salas dos alienados de si destruindo tudo. E viras assunto eterno com os amigos das vítimas. Ocupas delas toda a cama, todo carro, toda mesa, toda história, todo coração. E te chamam outro. Mas eu te chamo porta. E mais te amo e te odeio quanto mais cartas me trazes do universo. És tão monstro quanto o tamanho que me é dado crescer depois de ti. És o inferno e eu te chamo mestre. Se me maltratas, ensina-me a cuidar-me. Se me abandonas, faz me enxergar meu colo. Chamam-te parente, amigo, namorado, amante, chefe. Chamam-te de nomes horrendos. Mas já desvesti todas as tuas máscaras e aprendi que teu nome é escola.  
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9.11.16

Fenix

Mulheres são mergulhadoras, vão ao fundo e voltam. Se despedaçam, se desintegram, feito androide do Exterminador do Futuro e se remontam, não da mesma forma, não igual. Mulheres fazem questão de ir ao fundo absoluto, tocam os pés na areia do fundo, deitam-se no fundo e lá permanecem sob toneladas de mar enquanto sangram. Estão acostumadas a sangrar, não é um drama. Mulheres, em geral, parecem muito mais destroçadas quando deixam os acidentes amorosos. Se recolhem na caverna escura enquanto eles se lançam no próximo jogo. Saem de lá poucas vezes para encontrar uma amiga na padaria onde choram às claras, pra todo mundo ver. Faz parte do renascimento delas: morrer mil vezes em praça pública. E, de repente, mulheres se erguem no breu abismal do oceano, quando nem se esperava mais, porque a costura da nova aprendizagem ficou pronta. E começam a subir lentas, respeitando o frescor das cicatrizes. E surgem na superfície. Inteiras. Maiores. Esta, a fragilidade enganosa do feminino: virar pó, virar barro e se reesculpir, infinitamente. Esta, a fortaleza que o feminino me deu.
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"Aprendi com as primaveras a me deixar cortar e voltar sempre inteira."
Cecília Meireles.
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1.11.16

Dois tiros

O tiro acertou-lhe em cheio o coração, disseram. E ela caiu de costas no chão: apaixonada. Respirou fundo e, com dificuldade, se levantou. O sangue escorrendo sobre o seio esquerdo e o mamilo eriçado. Tentou caminhar com as pernas trêmulas para longe do homem. Quem sabe se, numa felicidade imprevista, tivesse o coração equivocadamente nascido do outro lado? Ele apontou de novo e atirou. Uma única palavra de carinho, banal, despretensiosa, cruzou o espaço como um bólido e se arrebentou contra a omoplata dela acertando o músculo cardíaco por trás. Caiu de novo, hemorrágica. O homem virou-se de costas, distraído pelo destino e sumiu. Ela foi entregando o corpo dentro do lago quente, vermelho, outra Ofélia. Disseram que seu sangue tornou rubra toda a paisagem feito por de sol. E que seu coração cicatrizou acolhendo as duas balas como mensageiras. E ainda pulsa. Descompassado mas inteiro. Disseram e eu acredito.
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Para a amiga que faz, do amor, escola. 
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24.10.16

Malditos intelectuais donos de boteco

Intelectual não devia ser dono de boteco. Gente pós-graduada em filosofia, psicanálise... Gente que conversa fazendo citação. Deviam proibir. Que vá dar aula. Você sentou-se num daqueles cantos inexpugnáveis do arranjo infinito de mesas emendadas pelos amigos e, para evitar tumulto, segurou ao décimo chope aquela vontade de esvaziar a bexiga. Está no limite. Depois de uns quinze “com licença” e de se esgueirar entre encostos de cadeiras e a parede espremendo ainda mais o líquido incômodo em seu abdome, você consegue enfim se lançar desesperadamente rumo à porta do banheiro. Chegando lá, dois hieróglifos de uma ancestral civilização que ocupou a península escandinava no século II antes de Cristo pretendem traduzir de forma inteligente e sofisticada as palavras “feminino” e “masculino”. Podem ser também dois quadros abstratos de um artista minimalista, um deles com um traço reto e outro com uma forma arredondada, baseados claramente em algum estudo antropológico das tendências artísticas de machos e fêmeas da espécie humana publicado numa revista científica de nome impronunciável... Tragédia! Horror!! Você está literalmente segurando com o dedo um furo na barragem de Itaipu. Você está suando frio. Você está no limiar da sua capacidade de raciocínio e provavelmente bêbada, afinal de contas, está num boteco e não na Universidade de Paris. Paralisada diante de duas portas trancadas pela sua própria ignorância.  Esta era eu numa destas sextas feiras à noite em que buscamos afogar terminantemente nossa capacidade de pensar em alguma substância alcoólica. Imbuída de uma enorme fé na capacidade de compreensão e perdão dos demais embriagados do local, meti a mão em qualquer porta e entrei. Um homem me olhou com cara de piedade, sorriu amarelo e mastigou enquanto saia: sou engenheiro. Viva a cartolinha e a luva! Viva o Elvis e a Marilyn! Abaixo os intelectuais donos de boteco!
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30.9.16

Amar não basta

Amar não basta. Gravo a mensagem no whatsapp e envio para a amiga. É uma faca no estômago, eu sei. Tantas pessoas se separam se amando. Eu mesma já fui embora arrastando o coração pelos cabelos umas duas vezes. Doloroso demais. Cruel demais. Mas acontece de as possibilidades se esgotarem, de fato. Acontece de precisarmos estar sós naquele trecho da estrada. Acontecem estradas diferentes com interseções que nunca mais se repetem.  Acontece de a dor ficar insuportável. E então a morte se impõe, mas nem sempre a aceitamos de pronto. Acontece de, primeiro, tentarmos blefar o adeus. Vivenciar o fim com a certeza de que o navio não deixou o porto. Ir sem ir. Começa o vai e vem sofrido: separa e uiva de dor, volta e uiva de prazer. Nada como voltar do fim: uma bomba de serotonina. Mas a volta não é inteira, não é a que planejávamos, e logo a falta se apresenta, e a dor retoma o palco e ensaia um novo adeus. Amar não basta, amiga. É preciso amar-se junto. Senão o outro vira eterna ameaça de abandono. Não pode ir até a esquina comprar biscoito que o coração da gente descompassa. Este é o amor pesado, carregado de dívidas impossíveis de pagar. E te digo na gravação do whatsapp, com a dureza de quem te ama: abraça a morte e deixa ela te levar rodando pelo salão. Solta o farrapo de afeto e se agarra à morte. E dança a última dança com a grandeza de quem honrou o amor possível, mesmo o que não teve. 
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10.9.16

A Duquesa é o Máximo

Sapo Fluorescente e Raro
A princesinha é um porre. Ela quer ser convidada para o baile no palácio. Vive com o foco no palácio porque onde ela está, e pode até ser numa faculdade em Harvard, é o borralho. Ela vive aprisionada numa torre esperando o príncipe encantado. Conhece todos os tijolos da torre da neurose, não faz uma corda com os lençóis da cama e pula fora. Fica na janela de pedra fria olhando o horizonte para ver se ele aparece, o príncipe. E, de vez em quando, ele vem. Só que, muitas vezes, está fazendo outra coisa mais interessante do que se pendurar nos cabelos dela: ele não é coadjuvante do seu teatro, tem o próprio espetáculo. Ai o bicho pega e a torre se enche de abandono. A princesinha porre é dedicada à sua fantasia: passa a vida beijando o sapo pra ele, em algum momento vira príncipe. Nem enxerga o pobre sapo. Podia até ser um batráquio raro, com uma língua muito maior e mais esperta que a do príncipe. Não, não e não: quer o conto de fadas a qualquer custo. Tolera, em sua espera inútil, o sapo amaldiçoado. A princesinha é um saco. Ela fica magoadinha porque o rei a convidou sim para o baile, mas não a tirou pra dançar. Detalhe: o rei tinha acabado de voltar da guerra e se livrar de uma armadura de 40 quilos, ele estava com dor no joanete, de saco cheio e se lixando para o baile e para princesinhas. Ele só queria ter dormido cedo naquela noite.  E isto, para princesinhas, se chama: rejeição. Pronto, ela ficou deprimida, ela não vai dançar com mais ninguém, nem com o marquês que, dizem, é um senhor pé de valsa. Só a sombra do rei a faz princesinha. Ela é um saco. Mas, de repente, lá no fundo do enorme salão surge, valsando nos braços do marquês, decote generoso, sorriso espalhado na boca vermelha, a duquesa.  Já casou, já pariu, já quebrou a cara, e amadureceu, e se tornou senhora do seu desejo, do seu castelo, da sua grana. E abriu mão das ilusões de menina: está no mundo para desfrutá-lo. O rei não quer dançar? Paciência: ela quer dançar. Ficou magoadinha? Nada. Não quer um rei com cara de guerra e dor no joanete resmungando baile afora. Ela deixa o rei respirar. Ela deixa o rei ficar sozinho na sua própria torre quando ele quer. Ela não é um porre. A duquesa é o máximo.
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Para Ivana Mihanovich, bruxa do tarot.
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29.8.16

Acabou o Raso

Esculturas de Jason deCaires Taylor
Desculpe-me, não sei se é a idade, mas sou daquelas pessoas que se afogam no raso. Não me chame para o raso. Até as pequenas coisas, como aquela flor mixuruca que brotou ali entre os blocos de cimento no meio fio, carregam um abismo de significado e beleza. Se você estiver afim de ver. Se você não estiver com pressa, como sempre. Verdade, para se aventurar em novas camadas você precisa de tempo, de silêncio, de foco, de menos. Senão, amigo, viramos surfistas da superficialidade. Falando de grandes transformações que precisam do mergulho com os tornozelos molhados pela água da margem. Gritando para os coitados, que se afogam neste tempo de grandes dores, confortáveis e cheios de conteúdo, lá na margem. E isto não serve mais. Então, tenho que informar-lhe: a casa caiu, o bicho pegou, não me chame para o raso. Faz meio século que me sentei na cadeira desta escola chamada mundo, não posso mais dar desculpas para ficar com você na superfície. Fingindo que te escuto. Fingindo que te digo. Fingindo que te respeito. Blefando. Afogo-me na hipocrisia dos valores de fachada, da ética de fachada, do amor de fachada. Afogo-me como um peixe que morre asfixiado numa foto de um pescador sorridente no Facebook. Arrancado do profundo para alimentar o ego e não o estômago. Desculpe-me, não vou alimentar seu ego. Não vou me afogar nos rasos que te poupam da beleza de suas fossas abissais. Não me chame para o raso. Não posso mais. Caminha inteiro para dentro do lago ou calça seu medo e deixa as minhas águas.
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20.8.16

Querida Deus

Querida Deus,
eu sempre achei que você era menina, talvez por conta do desenho de algumas asas de borboleta que vejo por ai. Ou meio menina, talvez. Então escrevo-lhe, de menina pra menina, para solicitar uma resposta. Tinha treze anos quando fui introduzida no baile dos hormônios. Um mal estar no ônibus na volta da escola, uma calcinha tingida de vermelho, tudo bem: fiquei orgulhosa. Achei bonita esta ideia de marcar minha entrada na maturidade com uma cor tão forte. Meu pai correu até uma farmácia e buscou um absorvente. A notícia correu entre meus irmãos. E eu saí do banheiro maior do que havia entrado. Não imaginava que tinha sido transferida do meu plácido lago hormonal para longos anos de boia-cross. Comecei a não entender muito bem a parte da cólica, a dor de todos os meses, achei aquela irritação e aquele peso antes do sangramento, desnecessários. Meus coleguinhas machos saltitando sorridentes pela estrada e eu amuadinha num canto, chorando por qualquer tatu-bola esmagado, querendo meu escuro. Pensei que você queria me fazer mais forte, afinal, algum dia talvez,  eu iria carregar um filhote pesado na barriga e colocá-lo para fora por aquele minúsculo buraquinho por onde eu fazia xixi. E então teria que criar a criatura, tão inacabada, tão dependente, tão necessitada da minha imensa paciência, compaixão e resiliência. Sim, querida Deus, era só um treinamento aquela montanha russa hormonal dos infernos. Mais de vinte anos treinando todos os meses até nascer um filhote. Acho que podia ter sido menos, mas valeu, afinal não me apavorei nem mesmo quando coloquei três seres humanos no mundo ao mesmo tempo. Até conseguia encarar as corredeiras mensais enquanto cuidava deles sem enfiar os dentes em nenhum... mesmo naqueles momentos de reversão hormonal súbita que você criou.  Sentia os caninos crescendo dentro da boca e corria para a terapia, para a meditação, para a yoga, e sobrevivíamos mais 28 dias. Comecei então a virar uma senhora. Não achei ruim. Tinha conquistado dentro uma paz, uma maturidade, um amor próprio de quem encarou o rio. Somadas as experiências, eu era uma mulher que eu amava. Fui dormir mais uma noite comum. Achando que tinha compreendido o sentido da prova de atletismo que você criou para suas amigas meninas. E acordei no breu atacada por uma onda inexplicável de calor. Não estava mais na corredeira, tinha descido numa terra estranha onde de hora em hora é preciso arrancar inutilmente todas as roupas, até no meio da madrugada, para aliviar uma não solicitada caldeira interna.  E o alívio não vem. Ao lado, na cama, meu marido ressonava madrugada adentro. Então, querida Deusa, decidi escrever-lhe e atrever-me a perguntar-lhe: no céu das meninas as nuvens serão de algodão egípcio?
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13.8.16

De novo, a cegueira

Chamo-me mariposa hipnotizada pela luz alheia. Basta Deus acender uma lâmpada e lá estou: obcecada pelo objeto.  Rodando, rodando. Dando cabeçadas no vidro quente. A luz do outro toca minhas asas foscas e as percebo coloridas. Não entendo que levo comigo as cores e desenhos das minhas asas. Acredito que eles são fruto da súbita luz acesa, e me apavoro. Quando se apagará? A luz que se acendeu do nada? A luz fugidia? A luz torturante contra a qual me debato no terror da cegueira? Voo, atarantada e em círculos, mais uma vez. Só a exaustão me leva para longe da lâmpada, ao chão, onde choro debaixo de supostas asas cinza. Mas já não é pela luz apagada. Choro minha chama que não vejo. 
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Para Nany di Lima, que me acende.
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6.8.16

Estranha Paz

Ah, esta paz de me sentir só que dá até medo. Estou sentada no restaurante, indecentemente só. Não pertenço a nenhum quadro. Nenhuma moldura me contém. Não sou sua mãe, sua esposa, sua amante, sua amiga. Sou folha seca na ventania lindamente desgovernada. Que medo de enlouquecer e sair vagando pela rua. Largar o carro. Ir andando até uma rodoviária. Comprar uma passagem para o nada. Virar pessoa desaparecida, forasteira, perder as referências, escafeder, sumir do mapa. Todos viajaram. Faz uns dias que estou só. Devolvida à minha pureza sem demandas. Sem idade, sem rugas, sem pressa, sem expectativas. Este prazer na solidão que me assusta. Só eu no restaurante atrás de uma caneca de chope. Um cara no piano tocando jazz. E não falta nada. Meu Deus, preciso confessar e é terrível: não falta absolutamente nada. 
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16.7.16

Cansada da Sua Peixeira

Zé Dái - Acho.
Olha aqui: o ser humano não é este episódio. Ele tem uma história, entende? Então, antes de partir pra cima dele com sua peixeira, dê dois passinhos para trás e olhe o todo, a linha do tempo do cara ou da moça que você conhece. Não desqualifique o indivíduo por uma cagada episódica: guarda a sua peixeira. É só sua frustração, sua agressividade querendo chutar um cachorro. Você também é um cagão episódico, todos nós somos. Existem, é claro, os cagões reincidentes, os muito cagões, os viciados em cagadas. Estão na sua vida? Então livre-se deles. Não os mantenha nos arredores pelo prazer que você tem de usar sua peixeira. São escolhas suas. Já os cagões esporádicos, como eu, por exemplo, que esqueço coisas, que perco coisas, que erro de novo o mesmo caminho, que não dou conta umas vezes, são recortes naturais da paisagem. Nem sempre é cartão postal. Se afaste e olhe o todo destas criaturas e nada de bulir na peixeira. Faça uma estatística da nefastabilidade desta pessoa na sua vida e tenha a decência de despachá-la se entender que ela mais destrói que contribui. Agora, se entender que ela mais contribui que destrói, guarda a nefasta peixeira, compra um saco de dar porrada e instala no seu quarto, adquire um detector de autocagadas e põe no pulso e programa pra dar um choque a cada cagada sua. Vai te deixar mais humilde e mais tolerante e poupar o universo da sua agressividade que, pode acreditar, não motiva, não estimula, não transforma e não melhora o outro nem o mundo. 
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6.7.16

O fim da geração jeitinho

By Sell Dingo
É difícil criticar um quadro estando dentro dele. Mas, vamos lá: eu pertenço à geração jeitinho. A uma das muitas gerações jeitinho. Fui paulatinamente estragada por um excesso aprendido de condescendência. Tenho amigos médicos, dentistas, motoristas de ônibus, publicitários, atores... nascidos e criados na cultura do jeitinho. Crescidos na catequese implacável do jeito correto de fazer as coisas, mas ouvindo, lá no fundo, o canto da sereia do jeitinho. Em caso de deslize extremo, complexo, ele estaria lá, sempre à mão e eu sempre soube: o jeitinho. Pra tudo existe um: eu me tranquilizava. O “não” é um troço elástico, manipulável. Depende de quem eu sou, quem eu conheço, da minha patente, de quanto eu tenho, do meu cargo. Sou da geração que endossa privilégios, focada em me tornar um dos privilegiados e não em acabar com eles. Tentando um emprego público para me acomodar, não para servir ao público. Olhando o serviço público com a lente distorcida do privilégio. O salário caiu na conta? O público que se exploda. E, no fundo, acho esses japoneses uns chatos... Com este excesso de correção... Esses certinhos. Eu tenho jogo de cintura, malemolência, gingado, sei driblar no bom e no mau sentido, passar pela lateral. É difícil criticar um quadro estando dentro dele. Mas, quero tentar: eu apodreci um pouco na condescendência e me tornei conivente de uns contraventores grandes. Eles dão jeitinho roubando bilhões, matando gente. Eles acham normal e dizem: somos iguais, só as proporções são diferentes, somos da geração jeitinho amigo, já era! Mas, parece que vêm uns caras novos com ideias novas por ai. Dizendo que o crime não compensa, mesmo se você for juiz ou presidente da república. Dizendo que honestidade, e não o jeitinho, é o melhor negócio pra todo mundo e faz um país crescer, atrair investimentos, gerar riqueza. Parece que estão começando algo grande. Nós, da geração jeitinho, olhamos desconfiados pra eles. Somos treinados desde pequenos para desconfiar. Perdemos um tempo precioso nisto. E somos muitos. Mas estamos de passagem. Dizem que eles irão, aos poucos, nos substituindo. E eu olho pros meus filhos pequenos com uma ponta de esperança e fico feliz demais de acabar. 
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Queridos seguidores, estou demorando mais a postar porque está faltando eu pra tantas demandas, entre elas, divulgar os livros. A cada quinze ou vinte dias estarei aqui. Obrigada por estarem comigo.
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8.6.16

Acabou a brincadeira, Jair

Colocando batom para o Purim - Haaretz
DECLAROU O DEPUTADO JAIR BOLSONARO A UM PROGRAMA DE TV: "Ter filho gay é falta de porrada." 

Acabou a brincadeira Jair, pode tirar este preconceito espalhafatoso da cintura, seja homem!
Ontem, um menino                          de oito anos morreu de                     apanhar.
Acabou a brincadeira, Jair. Chega destas declarações chamativas e nefastas pra alimentar seu marketing do mal.
Ontem, um menino de oito anos foi espancado até a morte porque gostava de lavar vasilha, gostava de dança do ventre, gostava de cabelo comprido.
Acabou a brincadeira, Jair. Deus não gosta desse seu sorrisinho pervertido, cínico, desse seu regador de regar ódio.
Ontem um menino que tirava 80 na escola, foi quebrado pelos murros secos da estupidez de um homem.
Acabou a brincadeira, Jair. Tira já estes babadinhos de moral e família, a gente sabe que é a sua perversão travestida.
Ontem um menino delicado descansou das violências humanas. E eu quero acreditar que, na hora derradeira, ele nem estava lá. Estava viajando nos braços de uma legião de anjos.
Acabou Jair. Nunca mais eu quero ver essa expressão de vilão de filme B americano na sua cara. Tá dando pinta de monstro. Chega Jair.
Ontem, Deus disse chega! Tá bom menino. Já entregou a mensagem, agora volta pro pai que te ama.
Tira a roupa, Jair, vira as costas que papai vai te ensinar uma coisa.


Hoje diremos aos meninos que querem usar vestido, que pintam a boca de rosa, que brincam com bonecas... Está tudo bem meu filho. Vem pro meu colo. Está tudo certo.
                                                                                               Para o Alex.



30.5.16

Os Estupros

Sapho - Charles August Mengin
Há muitas formas de tornar-te mansa e tornar-te distraída das tuas valiosas entranhas. Há muitas formas invisíveis de ocupar-te com as vontades do outro e alienar-te do prazer que deverias estar buscando agora, já, neste momento. Uma delas é fazer-te objeto e não sujeito. Cedo, outra mulher te repassa o fardo: tua existência só valerá quando servires a outro. Chamam isto de formas doces como casamento e maternidade. E tu, por mais que estudes e pelejes e trabalhes e cintiles, ficas crente de que serás menor sem um casamento e um filho. Deves, então, desde cedo, ocupar-te da obrigação de ser desejável e aprazível para cumprir tua meta. Este, seu mantra perpétuo, perversamente colado ao teu feminino: ser desejada, dar prazer. E vais gastar grande parte da tua vida nisto: alisando cabelos, arrancando pelos, esticando peles, passando fome, passando cremes, apertando cintas, correndo distâncias mortas, entrando nas facas. Olhando para fora numa luta infinita para tornar-te o desejo do outro. Luta que fatalmente irás perder mais cedo ou mais tarde. Não autorizada a envelhecer. Não autorizada a engordar. Não autorizada a existir de cara limpa. Ameaçada pela fêmea mais jovem e mais desejável que é só mais uma correndo na esteira que não leva a lugar nenhum. Prisioneira de um corpo que deve ser controlado, formatado e usado como isca e que tu, muitas vezes odeia e raras acaricia. Culpada por seres e por não seres objeto do desejo. Culpada por mostrares demais os peitos ou por nunca usares vestido. Culpada por não teres casado, não teres parido, metas que te convenceram serem naturais e indiscutíveis. Ah, minha doce e muito querida menina: há muitas formas de tornar-te mansa e distraída do teu real querer. Uma delas é invalidar tua solidão. Fazer dela uma pena da qual precisas ser salva por um amor, por um filho. E então te esforças e és boa garota e és premiada com o amor e o filho, mas despencas do falso céu quando entendes: amores se vão, filhos se vão, o corpo desejável se vai. Segues sozinha. E eu te peço, pelas deusas, não te distraias tanto. Senão acabas te embrenhando nalguma vereda onde toda uma sociedade se achará no direito de violentar-te mais uma vez. E te dirão que não aconteceria se não andasses distraída. E será e não será verdade.
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17.5.16

Sem pular da ponte

K. Polak
Hoje deixei o Facebook e fui até a cozinha conversar com Nádia sobre política. Minha parceira total no dia a dia, que acho estranho chamar de empregada, substantivo genérico que não define de fato a especialidade e o valor do que ela faz. Nádia que passa a maior parte da vida ao meu lado, misturada de forma tão silenciosa à intimidade da minha família. Nádia que é profissional dedicada e admirável e gosta do que faz. Nádia que vai nos receber em breve num churrasco em sua casa. Nádia que mora longe. E vem de uma realidade ainda distante demais. Hoje deixei as disputas conceituais do Facebook, tão penosas nos tempos de penumbra moral que vivemos, e, enquanto nossos trabalhos esperavam, conversamos.  Ela me contou das precariedades do SUS, do qual ela e os seus dependem, eu disse que o novo Ministro da Saúde falou em cortes, ela não entendeu “cortar o quê”. Falou que o Lula foi muito bom para o nordeste e mudou a vida de muita gente que ela conhece lá, mas a roubalheira na Petrobras ajudou a empurrar o país para o buraco, e ela não perdoa. Falamos de religião, e ela contou que a mãe deu cem reais em troca de uma benção do pastor. Recebeu uma bronca: Deus está em todo lugar e não pede dinheiro, mãe. Nádia é evangélica. Acha justo contribuir com a manutenção do templo que frequenta porque o amor de Deus a impulsiona, é uma troca, mas concorda que o mal se aproveita da fé para enriquecer, muitas vezes. Sobre o impeachment, o marido disse a ela que trocamos seis por meia dúzia, ao que retrucou: então vamos tirar estes de lá também. Concordei com o que ela disse. Me fez perguntas sobre Dilma, Temer, quis entender a bagunça. Tentei dar a minha versão sem catequizá-la, é difícil, mas me esforcei. E quando falei que precisava ir trabalhar, Nádia abriu um sorrisão e disse que era bom conversar comigo. Preciso criar um tempo para fazer mais isto. Agora está lá equilibrando dezenas de pratinhos que fazem funcionar a minha casa, enquanto posso escrever um pouco antes de pegar os meus próprios pratinhos. Penso que hoje não consigo ver luz nas instituições brasileiras, mas Nádia ganhou mais um brilho.  É um fato: iremos deixar no mundo crianças melhores do que nós. E, logo, vou tomar cerveja e comer churrasco  na casa dela enquanto nossos filhos brincam, e conversaremos mais sobre tudo, e será bom. Porque no quintal da Nádia, da Cida, da Tânia, da Cidália, da Vera, da Rosângela, da Inês, da Nega, da Alvina, da Neuzeni, da Bia, nos sentimos em casa. Esta, a ponte que confio para o futuro. Cada vez mais curta entre nossas casas. E não foi inventada pela hipocrisia repetitiva e estéril destes homens. 
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9.5.16

Quem nunca?

Do nada, ela foi embora. A vizinhança, os amigos, ficaram chocados. Largou tudo: filhos, marido, cachorros, gatos, uma casa grande, uma vida boa. Levou umas roupinhas surradas, o notebook, uns livros, dois pares de sapato.  Na rodoviária, escolheu aleatoriamente um guichê e comprou passagem para o nada. Destino? Esquecer-se de si mesma. Dissolver-se entre rostos desconhecidos. Foi pegando um ônibus depois do outro até se afundar irrecuperavelmente no interior de si mesma: outro planeta, onde tornou-se alienígena. Uma senhora estranha sem passado, sem ninguém, sem projeto de vida. Alugou um quarto simples, numa pousada simples, sem TV ou internet. Então, sentou-se na cama e sentiu o abraço aveludado do vazio. Podia ser tudo já. Podia amar quantos quisesse. Podia dançar nua a noite na beira do rio. Podia gastar o dia inteiro escrevendo um haikai no chão de terra pra ninguém ler. Podia tomar um porre homérico e beijar a boca de outra mulher e nunca mais revê-la.  Podia gritar e gritar e gritar até ficar rouca, um grito visceral, sem palavras,  de bicho. E depois de tudo, podia dormir exausta na confortável ausência de rótulos, expectativas, julgamentos. Não precisava mais pentear os cabelos nem esperar nada. Nem a morte. Estava livre. Suspirou profundo e registrou em cada célula o poder  gigantesco daquele sentimento. E guardada em si a possibilidade da fuga, voltou para casa. Todos a receberam mortificados de perplexidade, mas não ousaram dizer nada a ela. Também estavam transformados pelo impossível escape.   Fingiram uns para os outros que nada havia acontecido. Ela estava de volta e era bom. Nunca mais partiu. Mas, às vezes, lançava através da janela um olhar saudoso de infinito. 
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30.4.16

Escuta, Zé Ninguém

Escuta, Zé Ninguém, vamos deixar combinado: não te diremos nunca a verdade. Vamos te enganar todos os dias da sua vida, para o seu bem. Por que você, Zé Ninguém, não sabe mesmo lidar com a verdade. Faltam na sua mala as ferramentas básicas para lapidar a verdade e transformá-la em diamante. Então, a verdade pra você, Zé Ninguém, é só uma pedra no sapato. E nós aprendemos a lidar contigo. Regra primeira e intocável: minta. Diga ao Zé Ninguém o que ele quer ouvir. Diga que existe o mal e o bem e ele está do lado certo. Diga o confortável. Nuances incomodam. Exigem pensar. Dê ao Zé Ninguém uma bola e dois times, diga que basta ganhar e deixem-no extravasar suas muitas frustrações neste jogo. Ele berra, chuta o torcedor adversário, cospe, picha a ciclovia... Enquanto isso, se distrai e nós andamos. Segunda regra: não seja autêntico. Invista numa bela fachada e finja por algum tempo em frente às câmeras, no palanque, diga o que ele quer ouvir, nunca o que ele precisa. Não é assim, Zé Ninguém? Você então vai pra casa, saciado emocionalmente. A casa pendurada num morro que irá desabar mais cedo ou mais tarde. Mas você só quer a saciedade daquele dia. Falar de abnegação, de concessão, do inevitável sacrifício que o momento exige, que a transformação profunda e real exige? Nós não seremos estúpidos de fazê-lo. Melhor seguir te comprando com espelhinhos e outros cacos brilhantes onde você se olha tanto e não se vê. Por que você prefere o engano da saída fácil, o Salvador da vez e, principalmente, que eu não te diga a verdade. E aprendi. Aprendemos. Sussurramos aos nossos pares no escuro: precisamos enganar o Zé Ninguém, para seu próprio bem, para conduzi-lo ao curral mais limpo, mais moderno, mais rentável. O curral dos bons. E não gostamos realmente de você, Zé Ninguém. Como gostar de um hipócrita que negocia conosco tantos e seguidos simulacros?  Um analfabeto político, raso, movido por filosofias pueris, totalmente alheio às engrenagens perversas que realmente movem sua vida? Você, Zé, é só nosso alienado útil. Menos que um bicho de estimação, porque, pode acreditar, nós amamos nosso cachorro. E sabe por que estamos escrevendo isto aqui, Zé Ninguém? Porque você não vai ler. Estamos tão à vontade montados nas suas costas que nos damos ao luxo de nos expor publicamente. Sabe aquelas frases longas que você escreve em cartazes que ergue nas ruas? Você se esquecerá delas quando te dermos mais uma ampola de anestesia. Então toma, Zé Ninguém. Não é a verdade incômoda, é mais uma dose potente de morfina. Injeta direto no pescoço, numa veia bem grossa.  Te daremos mais uns anos de conforto no caos, de paz na gaveta da Matrix. E perdoa a distração de termos deixado cair a cortina por uns tempos te jogando a maldita realidade na cara . Vamos te compensar, fica tranquilo, e vamos até trocar a cortina por outra mais bonita. 
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Inspirado no livro “Escuta, Zé Ninguém” de Wilhelm Reich.
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23.4.16

Inquebrável

Minha autoestima é conquistada, pelejada, esculpida em alabastro, anos a fio. Minha autoestima não é fake, não é meu orgulho travestido, não é make-up do meu ego. Bate. Provoca. Minha autoestima não vai se retirar. Mesmo quando corre na espinha o calafrio imemorial do abandono, não solto mais minha mão. Não entro no jogo do desamor. Retorno a mim, ao meu farol intenso, onde trabalhei duro limpando engrenagens, lâmpadas, recuperando peças quebradas. Não me perco mais nas suas tempestades. Vejo seu Netuno colérico, surtado, surdo, esparramado sobre o palco. Cachorro ferido, impossível de ser tocado pelo amor. Repudiando com dentadas todo gesto de carinho. Retiro-me desta plateia. Saio sem alarde pelos fundos. Deixo seu espetáculo para aqueles que gozam nas suas porradas. E há muitos. Você sabe. Vivem à sua volta lambendo seu chicote e alimentando seu Deus criança que tudo quer e tudo pode.  Desfilam de torso nu para exibir os vergões avermelhados como prova de que desfrutam um lugar ao seu lado. Tatuagens de uma resiliência estéril que não revida e alimenta o cordão do medo. Você mostra os dentes, eu baixo a cabeça e me calo. Não é receio ou reverência, estou apenas olhando para o meu coração, me conectando a ele. E deixo sua sala rumo ao meu jardim. Gesto singelo duramente conquistado. Lá uma mulher me espera firme, serena, sob um feixe de sol morno, com um abraço longo e medicinal. O caminho que me leva até ela, a obra mais cara da minha vida. E volto para você mais tarde, braços abertos, empoderada pelo amor, gigante, inquebrável.
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