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Povinho de Piada

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Quando eu era criança, meu pai contava uma piada sobre o nosso país: São Pedro questionava Deus que havia sobrecarregado os Estados Unidos e o Japão com furacões, terremotos e tsunamis enquanto preservava um país gigante como o Brasil das catástrofes naturais. E ainda nos abarrotava de recursos minerais, vegetais, hídricos e lindas paisagens... Deus não era justo. Ao que o todo poderoso retrucava: você vai ver o povinho que vou colocar lá. 
E eu ria.
Demorou uns 40 anos pra que esta piada doesse em mim.  Em 2017, dói em mim a miserável apatia de quem se acostumou a ser povinho de piada. Esta submissão histórica que calçamos nos pés feito botas de cimento logo cedo, antes de sair de casa. Este aceite da mediocridade que une pobres e elite num só mantra: povinho. 
Uns cheios de grana, diplomas, cargos, poder e outros repisando diariamente a falta de tudo, marcados na testa feito gado com a mesma palavra que arde: povinho.
Foragidos em qualquer canto do planeta sempre delimitados pela or…

Chovem Canivetes

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Chovem canivetes lá fora. Extremistas de toda cor marcham nas ruas pavimentadas pelo medo. Frustrados cospem sua agressividade na cara dos desatentos. E não são mais estranhos, são familiares e ex-amigos. Os líderes estão extintos e os superficiais assumiram o comando dos países, das empresas. O vale tudo saltou das trevas e entendemos que ele esteve o tempo todo lá, se poupando para uma nova oportunidade.  Os bons emudeceram exaustos. Se deixaram levar como cadáveres num rio. O mundo se contorce em convulsão comigo dentro. Talvez a contração de um parto que virá. Quem sabe um espelho vital para a mudança verdadeira. Ou apenas o fim, o apocalipse, o dilúvio definitivo. Chovem canivetes lá fora e preciso sair.

Família

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Deus me livre do seu radicalismo surdo, irmão
Do seu radicalismo aleijado que só tem boca

Deus me livre da sua incapacidade de entender que toda verdade contem erros
E abraçar os erros e fazer deles a ponte do futuro com o diferente

Deus me livre do seu conforto de empapelar a casa com suas crenças
E atirar nas diferenças que se aproximam do muro

Deus me livre do seu território estéril que queima os pés dos estrangeiros
Deus me livre do seu certo rígido, perfeito, intocável
Deus me livre da sua felicidade onipotente, seu castelo ilusório

E Deus me ajude porque você não é mais
o inimigo... você é meu irmão.

Pasta Rascunhos

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Acordada

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De repente, a princesa acorda
Sem beijo nem nada
Sozinha

Desautorizando os feitiços
As torres, as muralhas

Só porque há sol lá fora

Só porque vale a pena acordar.

Evoluindo pra cachorro

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Estou estudando para virar cachorro. Ontem mesmo deitei-me no chão, sob o sol morno de outono, ao lado do Argos, da Pagu, do Shaboo e da Diana. E ficamos lá, doidamente em paz, eu e minha matilha. Vira-latas muito diferentes entre si e um ser humano com pouco pelo que eles receberam sem nenhum preconceito. De repente chegou alguém que a gente amava e saltamos do nosso conforto para expressar, sem sombra de dúvidas, o nosso amor incontível. Sim, estou estudando pra ser cachorro, e quando te reencontrar, ainda que você não tenha ligado ou respondido aquele email,  ainda que você não me ame tanto quanto eu te amo, ou demonstre tanto quanto eu, vou te receber com amor generoso e sem economia. Porque cachorros fazem assim. E estão sempre iluminados e reabastecidos de amor... como eu alcançarei um dia ser.  * * *

Brasil meu

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Brasil, meu Brasil amado... País entristecido, vivendo o tempo da casca. Embaixo, a ferida lenta cicatriza. Em cima, a casca velha dos velhos de espírito ainda apegada à pele.  Nada a esperar da casca, a não ser que ela, finalmente, caia. Esperneia, fadada a morrer.  Carrega em si a estrutura dispensável do remendo e a memória de tantas porradas. Não é solução, é processo inevitável de superação dos traumas. Brasil, meu Brasil amado... Repugna-me olhar a casca dos nossos descaminhos, das topadas que demos, dos guias canibais a quem entregamos nossos filhos, mas sei que é processo. Ela cairá. E, se ficar uma cicatriz, vamos carregá-la como um monumento à nossa grandeza interior. Por que não somos feridas eternas. Somos brasileiros.