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O Gosto Doce de Uma Qualquer Esperança

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Cansada de minha densidade habitual busco conforto na existência nefasta de um pernilongo. Não vou falar da crise brasileira, da apatia geral, do avanço da violência... Chega, meu Deus, cadê o pernilongo? Ali está, suicida, criatura inútil, pousado no teto branco. Desconheço a finalidade deste sanguessuga voador na ópera da existência. Está lá inerte, a mercê da minha raquete torra moscas. Cadê minha raquete torra moscas? Ali está ela, plenamente carregada, ferramenta banal da minha porção cruel e assassina que se regozija na eletrocução de tênues vampiros voadores. Empunho o instrumento letal e volto o olhar de novo para o teto onde o bicho misteriosamente não mais existe. Pernilongos são assim: fantasmagóricos, adeptos do desaparecer. Pior: eles leem a nossa mente. Basta que você se levante atrás de um recurso para exterminá-los e eles, que estiveram repousados naquele mesmo lugar por toda uma eternidade, somem feito um gás. Agora me resta a quase sempre infrutífera tarefa de buscá…

Somos Nós

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Somos nós. No pior sentido de nós.

Nós agarrados ao colar de diamantes enquanto o Titanic afunda.

Nós pedindo que nos enganem com promessas doces e inviáveis.

Nós aceitando estojo de maquiagem pra disfarçar a ferida que precisa ser operada.

Nós agarrados a corporativismos anacrônicos de todas as espécies.

Somos nós um pouco sindicalistas, um pouco pecuaristas, um pouco evangélicos.

Jogando o jogo do “farinha pouca, meu pirão primeiro”.

Nós e esta burrice repetitiva de acreditar que estamos do lado do herói da vez.

Somos nós jogando o jogo do me engana que eu gosto.
Abraçando a incoerência escarrada do eu sou legal mas meti a mão na grana pública, eu sou legal mas prego surra em criança homossexual, eu sou legal mas fecho os olhos para a bandidagem do meu amigo.

Somos nós e esta condescendência no estupro.
Esta condescendência com o estuprador seja ele de esquerda, direita, centro, da beiradinha ou da sala da minha casa.

Somos nós e esta falta de fé na dignidade de fato, no respeito de…

Caríssima Escassez

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Miséria mais cara é a miséria dentro. Carrego uma. É raro, mas ainda me pego pensando se as ideias não acabam. Se não devia economizá-las, estocá-las, guardá-las para amanhã. Já superei, é verdade, o tempo de achar que a coisa criada é minha. Já entendi que todas as frases belas que me acometem passaram antes pela cabeça de um poeta egípcio há milhares e milhares de anos e por milhões de outros poetas desde então. Já sei que aquele poema redondo brotado do nada veio de alguma sementeira que não me pertence, instalada além desta minha vidinha. Cada vez menos tenho apego às obras que saltam pra fora dos meus poros. E quanto mais as deixo passar sem segurar, mais elas chegam. Não quero tê-las, vendê-las... Meu primeiro impulso é sempre jogá-las janela afora onde tiver qualquer montinho de terra fértil. Só depois junto algumas num livro por conta de um certo fetichismo que tenho por livros de papel. Mas carrego ainda uma brasa acesa de escassez. A danada resiste à generosidade implacável…

Aonde você vai?

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Aonde você vai quando eu te liberto Não é aonde você vai, mas onde eu fico Não é a sua praia, mas o meu deserto
Aonde você vai, seja com quem for Não é sobre o seu prazer, seu eterno Mas sobre a minha dor
Aonde você vai não é um endereço É o abraço que me faltou O abraço que não me dou pois não mereço
Aonde você vai é a pergunta ôca Que nenhuma resposta satisfaz E devora a paz quando sai da minha boca. *
Para Ma e Ju.
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Revoluçõezinhas

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Na era do excesso de comunicação vejo as grandes revoluções perdidas para manipuladores. Me socorro nas pequenas revoluções diárias: compartilhar conhecimento nas redes sociais, catar lixo no chão, cumprimentar com meu melhor sorriso o velho solitário que caminha pelo parque todas as manhãs, cuidar do outro, estar presente. Minhas micro-revoluções estão a salvo porque são anônimas, invisíveis. Ninguém quer comprá-las ou vendê-las ou colar lantejoulas nelas. Ainda são desinteressantes para o sistema. Não têm bandeira, nem porta voz, nem expectativa de mudar o mundo.  Se bastam na reinvenção pessoal diária, na sensação de integridade, na paz de cada abraço amoroso. No tempo da comunicação fria, vejo valores mortos em hipertextos e falatórios virtuais e me abrigo nos pequenos oásis plantados na realidade cotidiana: a risada inesperada do alto executivo, a história sábia contada pela atendente da padaria, os minutos forjados no caos da agenda para encontrar o amigo. Bolhas de sabão magné…

Tempo de Lagarta

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Há respostas que só virão no seu tempo. Nem terapias, nem bolas de cristal, nem chás alucinógenos serão capazes de fazê-las nascer a fórceps. Teremos que suportar as indefinições ardendo enfiadas embaixo das costelas, agarrados a palavras soltas da frase que não se forma nunca. Perguntando mil vezes ao oráculo, esmurrando inutilmente as esfinges para que nos decifrem. Há entendimentos que, apesar de prontos no fundo da mala do universo, não serão entregues porque precisamos deles, porque os queremos. Chegaremos a tocá-los com a ponta dos dedos, como um sopro de premonição, um vislumbre do porvir, mas a compreensão escapará escorregadia e nos devolverá ao nevoeiro.  Por que há respostas que só nos arrebatam quando abdicamos da busca, quando queimamos os mapas e sentamos no silêncio. Quando nos entregamos à escrita do tempo e seus mistérios. Quando nos abandonamos na correnteza. Então, elas nos encontram.  Brotam do nada sobre a mesinha de centro da sala. E o absurdo total que nos cons…

O Outro Planeta

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O velhinho cata os lixos do parque, Silenciosamente. Cata os lixos da alma do mundo, Sem alarde.
Abre buracos na terra e enterra sementes, Anonimamente. Explica que é para os netinhos, Gigantesco.
Eu, catadora de lixos no caminho, Encontro o velhinho. E conversamos flutuando em extase No plano sem linhas Da compaixão, do respeito, do cuidado. Onde a separação inexiste. Onde o lixo que tiramos da pele do planeta Deixa respirar nossa própria pele. Nosso planeta, meu e dele, onde há paz.
Há tantos planetas coexistindo no aqui agora, A física me diz. Por que escolher o planeta dor e não o dele? *
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