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Gritando na Porta

Quem não consegue ficar só não deixa o outro em paz: esmurra a porta fechada, coloca calço pra ela não fechar, e, se fecha, grita do lado de fora... Pessoas em quem a solidão dói estorvam a solidão necessária do outro, usam o outro como distração eterna da própria dor. Travestem esta dor de amor e justificam no amor travestido toda forma de invasão e agressividade. Ainda carrego momentos de solidão dolorosa e ainda me pego gritando distraída de mim diante de portas fechadas. Injetando mais uma dose de cocaína na veia para alienar-me. O outro que chamo de amado é, em verdade, minha droga. Hoje joguei o pó fora, quebrei a agulha e estou só com minha angústia. Libertei o outro do meu desamor. Mandei a mente calar a boca, desligar o projetor onde o filme do outro se repetia em looping doentio. Atrás da tela, na dor da abstinência da droga, ele: meu eu feio, humilhado, abandonado, maltratado, cuspido. Ser impróprio que aprendi a odiar. O mar da angústia sobe até minha garganta num enjoo. N…

Porta Aberta

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A segurança está no aberto, a porta aberta para que o amor saia se quiser e o diferente entre se for hora. Está em ouvir o que eu não quero.  Quando estou aberta ao que não encaixa, os desencaixes não me desestruturam. Este o poder natural do ser, não ameaçável. Poder com “p” minúsculo, médio, maiúsculo, tanto faz. Poder deixar a areia firme da praia e brincar nas ondas do imponderável. O redondo não ameaça a existência do pontiagudo. Sua crença não ameaça a minha. A paz está no livre e não no cadeado, naquilo que vem até você e não no que você prende. Tudo é fluxo, nada de fato é seu. Talvez só o momento seja seu. Este que você não vive, obcecado pelos pensamentos de ter ou de perder. Espaços coletivos, onde todos têm a chave, são cuidados por todos. Programas abertos na internet são cuidados por todos. O cadeado simboliza a exclusão e atrai o ladrão. O cadeado evolui para o cão bravo que evolui para o muro alto que evolui para o vigia da rua que evolui para o alarme que evolui para…

Ilusão

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Isso que você chama de realidade, fato, verdade, isso a que você se apega, este piso, estas paredes, este corpo, este medo... isto eu chamarei de ilusão. Já o velho Platão nos deu a chave. Isso tudo é criação sua. Principalmente o medo que você coloca em todas as coisas como um perfume. Porque você, alienado da vida na Matrix, vive criando gaiolas na mente para morar dentro. Pensa o limite e ele se materializa. Pensa o final infeliz e vive para evitá-lo e vive infeliz. Esta infelicidade não é maldade do universo, é criação sua. E gente infeliz, meu Deus, não faz gente feliz. Então me escuta. Isso que você chama de limite, esta cinta apertada cortando a carne, esta dor na qual você se apega e chama de realidade... isto eu chamarei de ilusão. Pode gritar, espernear, apontar culpados na multidão. O universo não tem nada a ver com isso. São escolhas suas. Você aperta este cinto todas as manhãs e busca o furo intolerável. E escolhe ser arauto da dor. E escolhe espalhar a dor porque ela, p…

O Sonho

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No sonho estou sentada com minha bolsa no colo diante de um muro sem porta. Esperando uma compreensão que me liberte. Uma gestalt que se feche e me permita deixar esta cadeira dolorosa e seguir. Pessoas são escolas, o coração me diz. Aguardo o ensinamento que me traz esta pessoa calada do lado de lá da parede sem porta. Vez em quando jogo flores por sobre o muro na esperança de provocar uma resposta que alimente meu sim ou meu não. Nada. Minha lição é o silêncio irrespirável. A solidão crua sem paliativos. Me procuro dentro da bolsa, nos guardados que levei de cada partida quando finalmente pude deixar a espera diante de outros muros. Um “não” roto e encardido que recebi um dia no meio de uma pista de dança de um homem que eu amava, duas asas de papel machê que usei quando voei para longe do chão do abandono, agulha e linhas coloridas de costurar a alma despedaçada, a velha chave do sótão onde posso me arrastar no chão feito lagarta e me contorcer em paz até virar nova borboleta. Olh…

Não Magoado

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O não magoado é o novo sim.
Tenho tentado dizer um não medicinal, um não maduro...
Não consigo.

Sai só um não magoado que não se sustenta.
Um não raivoso com faca na mão.
Não rejeitado, doido pra ser sim.

Quero dizer um não pesado de autoestima mas sem ódio, não definitivo.
Manifestação natural do fim de um embate interno.
Não flor que finalmente desabrocha.

Mas o que consigo é o não decorado,
Calçado de racionalidades mas emocionalmente frouxo.
Não volátil. Graveto no caminho da tromba dágua.

Quem não suporta o não do universo não aprende a dizê-lo.
Quero pousar o não amorosamente entre os meus seios.
Sem rasgar a pele e sem ferir o coração.

* Para Chica e Nany. Escudeiras. * *

Alada

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Eu espero o voo... o próximo voo Nasci com asas invisíveis
E o solo, no início, me incomodou

Na crescida aprendi o ninho
Onde cultivo amores-imperfeitos
Mas o chão não é minha casa

Moro onde os pés não têm apoio
Onde as mãos alcançam o nada
Moro no vento, naquele azul mais profundo, na solidão do vácuo

Nasci com asas invisíveis
E esta estranheza nas costas já me pesou muito
E já morei em gaiolas tentando ser gente,  ser o outro de alguém

Hoje estou casada com o céu
E espero o voo... o próximo voo
Até um dia ir alto demais

E morrer nos braços do infinito.

* * *

Tributo ao Amor Impossível

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Em que local mágico ficam guardados os amores impossíveis? No bolso da camisa azul do homem poderoso e sem tempo? Na caixa marchetada sobre o guarda-roupa da velhinha que amargou? Na bolsinha de fuxicos daquela menina que chora no ponto de ônibus? Atrás dos olhos castanhos de medo da mulher que não se lançou no abismo? Em cartas amareladas escondidas no fundo de gavetas em cidades diferentes? Onde o monumento dos amores que seguiram se amando distantes apartados por um oceano de “nãos”? Onde o jardim dos amores que brotam em pedras secas e vivem eternamente animados por raros raios de sol? Onde o pedestal do amor que chegou na hora errada: tarde ou cedo demais? Amor dos que disseram adeus e se foram sangrando eternidade adentro? Dos que não deram conta? Em que altar consagraremos os amores doídos que viveram no silêncio? Onde posso registrar meu tributo afetuoso ao seu amor sensível, amável mas impossível? * * Para um homem e uma mulher amados. *