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20.8.16

Querida Deus

Querida Deus,
eu sempre achei que você era menina, talvez por conta do desenho de algumas asas de borboleta que vejo por ai. Ou meio menina, talvez. Então escrevo-lhe, de menina pra menina, para solicitar uma resposta. Tinha treze anos quando fui introduzida no baile dos hormônios. Um mal estar no ônibus na volta da escola, uma calcinha tingida de vermelho, tudo bem: fiquei orgulhosa. Achei bonita esta ideia de marcar minha entrada na maturidade com uma cor tão forte. Meu pai correu até uma farmácia e buscou um absorvente. A notícia correu entre meus irmãos. E eu saí do banheiro maior do que havia entrado. Não imaginava que tinha sido transferida do meu plácido lago hormonal para longos anos de boia-cross. Comecei a não entender muito bem a parte da cólica, a dor de todos os meses, achei aquela irritação e aquele peso antes do sangramento, desnecessários. Meus coleguinhas machos saltitando sorridentes pela estrada e eu amuadinha num canto, chorando por qualquer tatu-bola esmagado, querendo meu escuro. Pensei que você queria me fazer mais forte, afinal, algum dia talvez,  eu iria carregar um filhote pesado na barriga e colocá-lo para fora por aquele minúsculo buraquinho por onde eu fazia xixi. E então teria que criar a criatura, tão inacabada, tão dependente, tão necessitada da minha imensa paciência, compaixão e resiliência. Sim, querida Deus, era só um treinamento aquela montanha russa hormonal dos infernos. Mais de vinte anos treinando todos os meses até nascer um filhote. Acho que podia ter sido menos, mas valeu, afinal não me apavorei nem mesmo quando coloquei três seres humanos no mundo ao mesmo tempo. Até conseguia encarar as corredeiras mensais enquanto cuidava deles sem enfiar os dentes em nenhum... mesmo naqueles momentos de reversão hormonal súbita que você criou.  Sentia os caninos crescendo dentro da boca e corria para a terapia, para a meditação, para a yoga, e sobrevivíamos mais 28 dias. Comecei então a virar uma senhora. Não achei ruim. Tinha conquistado dentro uma paz, uma maturidade, um amor próprio de quem encarou o rio. Somadas as experiências, eu era uma mulher que eu amava. Fui dormir mais uma noite comum. Achando que tinha compreendido o sentido da prova de atletismo que você criou para suas amigas meninas. E acordei no breu atacada por uma onda inexplicável de calor. Não estava mais na corredeira, tinha descido numa terra estranha onde de hora em hora é preciso arrancar inutilmente todas as roupas, até no meio da madrugada, para aliviar uma não solicitada caldeira interna.  E o alívio não vem. Ao lado, na cama, meu marido ressonava madrugada adentro. Então, querida Deusa, decidi escrever-lhe e atrever-me a perguntar-lhe: no céu das meninas as nuvens serão de algodão egípcio?
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13.8.16

De novo, a cegueira

Chamo-me mariposa hipnotizada pela luz alheia. Basta Deus acender uma lâmpada e lá estou: obcecada pelo objeto.  Rodando, rodando. Dando cabeçadas no vidro quente. A luz do outro toca minhas asas foscas e as percebo coloridas. Não entendo que levo comigo as cores e desenhos das minhas asas. Acredito que eles são fruto da súbita luz acesa, e me apavoro. Quando se apagará? A luz que se acendeu do nada? A luz fugidia? A luz torturante contra a qual me debato no terror da cegueira? Voo, atarantada e em círculos, mais uma vez. Só a exaustão me leva para longe da lâmpada, ao chão, onde choro debaixo de supostas asas cinza. Mas já não é pela luz apagada. Choro minha chama que não vejo. 
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Para Nany di Lima, que me acende.
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6.8.16

Estranha Paz

Ah, esta paz de me sentir só que dá até medo. Estou sentada no restaurante, indecentemente só. Não pertenço a nenhum quadro. Nenhuma moldura me contém. Não sou sua mãe, sua esposa, sua amante, sua amiga. Sou folha seca na ventania lindamente desgovernada. Que medo de enlouquecer e sair vagando pela rua. Largar o carro. Ir andando até uma rodoviária. Comprar uma passagem para o nada. Virar pessoa desaparecida, forasteira, perder as referências, escafeder, sumir do mapa. Todos viajaram. Faz uns dias que estou só. Devolvida à minha pureza sem demandas. Sem idade, sem rugas, sem pressa, sem expectativas. Este prazer na solidão que me assusta. Só eu no restaurante atrás de uma caneca de chope. Um cara no piano tocando jazz. E não falta nada. Meu Deus, preciso confessar e é terrível: não falta absolutamente nada. 
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16.7.16

Cansada da Sua Peixeira

Zé Dái - Acho.
Olha aqui: o ser humano não é este episódio. Ele tem uma história, entende? Então, antes de partir pra cima dele com sua peixeira, dê dois passinhos para trás e olhe o todo, a linha do tempo do cara ou da moça que você conhece. Não desqualifique o indivíduo por uma cagada episódica: guarda a sua peixeira. É só sua frustração, sua agressividade querendo chutar um cachorro. Você também é um cagão episódico, todos nós somos. Existem, é claro, os cagões reincidentes, os muito cagões, os viciados em cagadas. Estão na sua vida? Então livre-se deles. Não os mantenha nos arredores pelo prazer que você tem de usar sua peixeira. São escolhas suas. Já os cagões esporádicos, como eu, por exemplo, que esqueço coisas, que perco coisas, que erro de novo o mesmo caminho, que não dou conta umas vezes, são recortes naturais da paisagem. Nem sempre é cartão postal. Se afaste e olhe o todo destas criaturas e nada de bulir na peixeira. Faça uma estatística da nefastabilidade desta pessoa na sua vida e tenha a decência de despachá-la se entender que ela mais destrói que contribui. Agora, se entender que ela mais contribui que destrói, guarda a nefasta peixeira, compra um saco de dar porrada e instala no seu quarto, adquire um detector de autocagadas e põe no pulso e programa pra dar um choque a cada cagada sua. Vai te deixar mais humilde e mais tolerante e poupar o universo da sua agressividade que, pode acreditar, não motiva, não estimula, não transforma e não melhora o outro nem o mundo. 
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6.7.16

O fim da geração jeitinho

By Sell Dingo
É difícil criticar um quadro estando dentro dele. Mas, vamos lá: eu pertenço à geração jeitinho. A uma das muitas gerações jeitinho. Fui paulatinamente estragada por um excesso aprendido de condescendência. Tenho amigos médicos, dentistas, motoristas de ônibus, publicitários, atores... nascidos e criados na cultura do jeitinho. Crescidos na catequese implacável do jeito correto de fazer as coisas, mas ouvindo, lá no fundo, o canto da sereia do jeitinho. Em caso de deslize extremo, complexo, ele estaria lá, sempre à mão e eu sempre soube: o jeitinho. Pra tudo existe um: eu me tranquilizava. O “não” é um troço elástico, manipulável. Depende de quem eu sou, quem eu conheço, da minha patente, de quanto eu tenho, do meu cargo. Sou da geração que endossa privilégios, focada em me tornar um dos privilegiados e não em acabar com eles. Tentando um emprego público para me acomodar, não para servir ao público. Olhando o serviço público com a lente distorcida do privilégio. O salário caiu na conta? O público que se exploda. E, no fundo, acho esses japoneses uns chatos... Com este excesso de correção... Esses certinhos. Eu tenho jogo de cintura, malemolência, gingado, sei driblar no bom e no mau sentido, passar pela lateral. É difícil criticar um quadro estando dentro dele. Mas, quero tentar: eu apodreci um pouco na condescendência e me tornei conivente de uns contraventores grandes. Eles dão jeitinho roubando bilhões, matando gente. Eles acham normal e dizem: somos iguais, só as proporções são diferentes, somos da geração jeitinho amigo, já era! Mas, parece que vêm uns caras novos com ideias novas por ai. Dizendo que o crime não compensa, mesmo se você for juiz ou presidente da república. Dizendo que honestidade, e não o jeitinho, é o melhor negócio pra todo mundo e faz um país crescer, atrair investimentos, gerar riqueza. Parece que estão começando algo grande. Nós, da geração jeitinho, olhamos desconfiados pra eles. Somos treinados desde pequenos para desconfiar. Perdemos um tempo precioso nisto. E somos muitos. Mas estamos de passagem. Dizem que eles irão, aos poucos, nos substituindo. E eu olho pros meus filhos pequenos com uma ponta de esperança e fico feliz demais de acabar. 
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Queridos seguidores, estou demorando mais a postar porque está faltando eu pra tantas demandas, entre elas, divulgar os livros. A cada quinze ou vinte dias estarei aqui. Obrigada por estarem comigo.
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8.6.16

Acabou a brincadeira, Jair

Colocando batom para o Purim - Haaretz
DECLAROU O DEPUTADO JAIR BOLSONARO A UM PROGRAMA DE TV: "Ter filho gay é falta de porrada." 

Acabou a brincadeira Jair, pode tirar este preconceito espalhafatoso da cintura, seja homem!
Ontem, um menino                          de oito anos morreu de                     apanhar.
Acabou a brincadeira, Jair. Chega destas declarações chamativas e nefastas pra alimentar seu marketing do mal.
Ontem, um menino de oito anos foi espancado até a morte porque gostava de lavar vasilha, gostava de dança do ventre, gostava de cabelo comprido.
Acabou a brincadeira, Jair. Deus não gosta desse seu sorrisinho pervertido, cínico, desse seu regador de regar ódio.
Ontem um menino que tirava 80 na escola, foi quebrado pelos murros secos da estupidez de um homem.
Acabou a brincadeira, Jair. Tira já estes babadinhos de moral e família, a gente sabe que é a sua perversão travestida.
Ontem um menino delicado descansou das violências humanas. E eu quero acreditar que, na hora derradeira, ele nem estava lá. Estava viajando nos braços de uma legião de anjos.
Acabou Jair. Nunca mais eu quero ver essa expressão de vilão de filme B americano na sua cara. Tá dando pinta de monstro. Chega Jair.
Ontem, Deus disse chega! Tá bom menino. Já entregou a mensagem, agora volta pro pai que te ama.
Tira a roupa, Jair, vira as costas que papai vai te ensinar uma coisa.


Hoje diremos aos meninos que querem usar vestido, que pintam a boca de rosa, que brincam com bonecas... Está tudo bem meu filho. Vem pro meu colo. Está tudo certo.
                                                                                               Para o Alex.



30.5.16

Os Estupros

Sapho - Charles August Mengin
Há muitas formas de tornar-te mansa e tornar-te distraída das tuas valiosas entranhas. Há muitas formas invisíveis de ocupar-te com as vontades do outro e alienar-te do prazer que deverias estar buscando agora, já, neste momento. Uma delas é fazer-te objeto e não sujeito. Cedo, outra mulher te repassa o fardo: tua existência só valerá quando servires a outro. Chamam isto de formas doces como casamento e maternidade. E tu, por mais que estudes e pelejes e trabalhes e cintiles, ficas crente de que serás menor sem um casamento e um filho. Deves, então, desde cedo, ocupar-te da obrigação de ser desejável e aprazível para cumprir tua meta. Este, seu mantra perpétuo, perversamente colado ao teu feminino: ser desejada, dar prazer. E vais gastar grande parte da tua vida nisto: alisando cabelos, arrancando pelos, esticando peles, passando fome, passando cremes, apertando cintas, correndo distâncias mortas, entrando nas facas. Olhando para fora numa luta infinita para tornar-te o desejo do outro. Luta que fatalmente irás perder mais cedo ou mais tarde. Não autorizada a envelhecer. Não autorizada a engordar. Não autorizada a existir de cara limpa. Ameaçada pela fêmea mais jovem e mais desejável que é só mais uma correndo na esteira que não leva a lugar nenhum. Prisioneira de um corpo que deve ser controlado, formatado e usado como isca e que tu, muitas vezes odeia e raras acaricia. Culpada por seres e por não seres objeto do desejo. Culpada por mostrares demais os peitos ou por nunca usares vestido. Culpada por não teres casado, não teres parido, metas que te convenceram serem naturais e indiscutíveis. Ah, minha doce e muito querida menina: há muitas formas de tornar-te mansa e distraída do teu real querer. Uma delas é invalidar tua solidão. Fazer dela uma pena da qual precisas ser salva por um amor, por um filho. E então te esforças e és boa garota e és premiada com o amor e o filho, mas despencas do falso céu quando entendes: amores se vão, filhos se vão, o corpo desejável se vai. Segues sozinha. E eu te peço, pelas deusas, não te distraias tanto. Senão acabas te embrenhando nalguma vereda onde toda uma sociedade se achará no direito de violentar-te mais uma vez. E te dirão que não aconteceria se não andasses distraída. E será e não será verdade.
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17.5.16

Sem pular da ponte

K. Polak
Hoje deixei o Facebook e fui até a cozinha conversar com Nádia sobre política. Minha parceira total no dia a dia, que acho estranho chamar de empregada, substantivo genérico que não define de fato a especialidade e o valor do que ela faz. Nádia que passa a maior parte da vida ao meu lado, misturada de forma tão silenciosa à intimidade da minha família. Nádia que é profissional dedicada e admirável e gosta do que faz. Nádia que vai nos receber em breve num churrasco em sua casa. Nádia que mora longe. E vem de uma realidade ainda distante demais. Hoje deixei as disputas conceituais do Facebook, tão penosas nos tempos de penumbra moral que vivemos, e, enquanto nossos trabalhos esperavam, conversamos.  Ela me contou das precariedades do SUS, do qual ela e os seus dependem, eu disse que o novo Ministro da Saúde falou em cortes, ela não entendeu “cortar o quê”. Falou que o Lula foi muito bom para o nordeste e mudou a vida de muita gente que ela conhece lá, mas a roubalheira na Petrobras ajudou a empurrar o país para o buraco, e ela não perdoa. Falamos de religião, e ela contou que a mãe deu cem reais em troca de uma benção do pastor. Recebeu uma bronca: Deus está em todo lugar e não pede dinheiro, mãe. Nádia é evangélica. Acha justo contribuir com a manutenção do templo que frequenta porque o amor de Deus a impulsiona, é uma troca, mas concorda que o mal se aproveita da fé para enriquecer, muitas vezes. Sobre o impeachment, o marido disse a ela que trocamos seis por meia dúzia, ao que retrucou: então vamos tirar estes de lá também. Concordei com o que ela disse. Me fez perguntas sobre Dilma, Temer, quis entender a bagunça. Tentei dar a minha versão sem catequizá-la, é difícil, mas me esforcei. E quando falei que precisava ir trabalhar, Nádia abriu um sorrisão e disse que era bom conversar comigo. Preciso criar um tempo para fazer mais isto. Agora está lá equilibrando dezenas de pratinhos que fazem funcionar a minha casa, enquanto posso escrever um pouco antes de pegar os meus próprios pratinhos. Penso que hoje não consigo ver luz nas instituições brasileiras, mas Nádia ganhou mais um brilho.  É um fato: iremos deixar no mundo crianças melhores do que nós. E, logo, vou tomar cerveja e comer churrasco  na casa dela enquanto nossos filhos brincam, e conversaremos mais sobre tudo, e será bom. Porque no quintal da Nádia, da Cida, da Tânia, da Cidália, da Vera, da Rosângela, da Inês, da Nega, da Alvina, da Neuzeni, da Bia, nos sentimos em casa. Esta, a ponte que confio para o futuro. Cada vez mais curta entre nossas casas. E não foi inventada pela hipocrisia repetitiva e estéril destes homens. 
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9.5.16

Quem nunca?

Do nada, ela foi embora. A vizinhança, os amigos, ficaram chocados. Largou tudo: filhos, marido, cachorros, gatos, uma casa grande, uma vida boa. Levou umas roupinhas surradas, o notebook, uns livros, dois pares de sapato.  Na rodoviária, escolheu aleatoriamente um guichê e comprou passagem para o nada. Destino? Esquecer-se de si mesma. Dissolver-se entre rostos desconhecidos. Foi pegando um ônibus depois do outro até se afundar irrecuperavelmente no interior de si mesma: outro planeta, onde tornou-se alienígena. Uma senhora estranha sem passado, sem ninguém, sem projeto de vida. Alugou um quarto simples, numa pousada simples, sem TV ou internet. Então, sentou-se na cama e sentiu o abraço aveludado do vazio. Podia ser tudo já. Podia amar quantos quisesse. Podia dançar nua a noite na beira do rio. Podia gastar o dia inteiro escrevendo um haikai no chão de terra pra ninguém ler. Podia tomar um porre homérico e beijar a boca de outra mulher e nunca mais revê-la.  Podia gritar e gritar e gritar até ficar rouca, um grito visceral, sem palavras,  de bicho. E depois de tudo, podia dormir exausta na confortável ausência de rótulos, expectativas, julgamentos. Não precisava mais pentear os cabelos nem esperar nada. Nem a morte. Estava livre. Suspirou profundo e registrou em cada célula o poder  gigantesco daquele sentimento. E guardada em si a possibilidade da fuga, voltou para casa. Todos a receberam mortificados de perplexidade, mas não ousaram dizer nada a ela. Também estavam transformados pelo impossível escape.   Fingiram uns para os outros que nada havia acontecido. Ela estava de volta e era bom. Nunca mais partiu. Mas, às vezes, lançava através da janela um olhar saudoso de infinito. 
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30.4.16

Escuta, Zé Ninguém

Escuta, Zé Ninguém, vamos deixar combinado: não te diremos nunca a verdade. Vamos te enganar todos os dias da sua vida, para o seu bem. Por que você, Zé Ninguém, não sabe mesmo lidar com a verdade. Faltam na sua mala as ferramentas básicas para lapidar a verdade e transformá-la em diamante. Então, a verdade pra você, Zé Ninguém, é só uma pedra no sapato. E nós aprendemos a lidar contigo. Regra primeira e intocável: minta. Diga ao Zé Ninguém o que ele quer ouvir. Diga que existe o mal e o bem e ele está do lado certo. Diga o confortável. Nuances incomodam. Exigem pensar. Dê ao Zé Ninguém uma bola e dois times, diga que basta ganhar e deixem-no extravasar suas muitas frustrações neste jogo. Ele berra, chuta o torcedor adversário, cospe, picha a ciclovia... Enquanto isso, se distrai e nós andamos. Segunda regra: não seja autêntico. Invista numa bela fachada e finja por algum tempo em frente às câmeras, no palanque, diga o que ele quer ouvir, nunca o que ele precisa. Não é assim, Zé Ninguém? Você então vai pra casa, saciado emocionalmente. A casa pendurada num morro que irá desabar mais cedo ou mais tarde. Mas você só quer a saciedade daquele dia. Falar de abnegação, de concessão, do inevitável sacrifício que o momento exige, que a transformação profunda e real exige? Nós não seremos estúpidos de fazê-lo. Melhor seguir te comprando com espelhinhos e outros cacos brilhantes onde você se olha tanto e não se vê. Por que você prefere o engano da saída fácil, o Salvador da vez e, principalmente, que eu não te diga a verdade. E aprendi. Aprendemos. Sussurramos aos nossos pares no escuro: precisamos enganar o Zé Ninguém, para seu próprio bem, para conduzi-lo ao curral mais limpo, mais moderno, mais rentável. O curral dos bons. E não gostamos realmente de você, Zé Ninguém. Como gostar de um hipócrita que negocia conosco tantos e seguidos simulacros?  Um analfabeto político, raso, movido por filosofias pueris, totalmente alheio às engrenagens perversas que realmente movem sua vida? Você, Zé, é só nosso alienado útil. Menos que um bicho de estimação, porque, pode acreditar, nós amamos nosso cachorro. E sabe por que estamos escrevendo isto aqui, Zé Ninguém? Porque você não vai ler. Estamos tão à vontade montados nas suas costas que nos damos ao luxo de nos expor publicamente. Sabe aquelas frases longas que você escreve em cartazes que ergue nas ruas? Você se esquecerá delas quando te dermos mais uma ampola de anestesia. Então toma, Zé Ninguém. Não é a verdade incômoda, é mais uma dose potente de morfina. Injeta direto no pescoço, numa veia bem grossa.  Te daremos mais uns anos de conforto no caos, de paz na gaveta da Matrix. E perdoa a distração de termos deixado cair a cortina por uns tempos te jogando a maldita realidade na cara . Vamos te compensar, fica tranquilo, e vamos até trocar a cortina por outra mais bonita. 
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Inspirado no livro “Escuta, Zé Ninguém” de Wilhelm Reich.
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23.4.16

Inquebrável

Minha autoestima é conquistada, pelejada, esculpida em alabastro, anos a fio. Minha autoestima não é fake, não é meu orgulho travestido, não é make-up do meu ego. Bate. Provoca. Minha autoestima não vai se retirar. Mesmo quando corre na espinha o calafrio imemorial do abandono, não solto mais minha mão. Não entro no jogo do desamor. Retorno a mim, ao meu farol intenso, onde trabalhei duro limpando engrenagens, lâmpadas, recuperando peças quebradas. Não me perco mais nas suas tempestades. Vejo seu Netuno colérico, surtado, surdo, esparramado sobre o palco. Cachorro ferido, impossível de ser tocado pelo amor. Repudiando com dentadas todo gesto de carinho. Retiro-me desta plateia. Saio sem alarde pelos fundos. Deixo seu espetáculo para aqueles que gozam nas suas porradas. E há muitos. Você sabe. Vivem à sua volta lambendo seu chicote e alimentando seu Deus criança que tudo quer e tudo pode.  Desfilam de torso nu para exibir os vergões avermelhados como prova de que desfrutam um lugar ao seu lado. Tatuagens de uma resiliência estéril que não revida e alimenta o cordão do medo. Você mostra os dentes, eu baixo a cabeça e me calo. Não é receio ou reverência, estou apenas olhando para o meu coração, me conectando a ele. E deixo sua sala rumo ao meu jardim. Gesto singelo duramente conquistado. Lá uma mulher me espera firme, serena, sob um feixe de sol morno, com um abraço longo e medicinal. O caminho que me leva até ela, a obra mais cara da minha vida. E volto para você mais tarde, braços abertos, empoderada pelo amor, gigante, inquebrável.
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19.4.16

Eu, você e o Cunha de noite

Amigo, não vou facilitar as coisas pra você assim como não foi fácil pra mim escolher um lado. Então, se não quer provocar suas crenças, pare de ler já. Estou disposta a desestabilizar nossa amizade. Estou disposta a tudo. Para começar, vamos tirar os rótulos do coldre e colocar no chão. Nenhum de nós dois é vil. Isto você sabe: é o que mantem íntegro o nosso vínculo. Fizemos escolhas e teremos que justificá-las no futuro, ou podemos esquecê-las, o que tem sido mais comum neste país. Eu gosto de você porque sei que você dirá: escolhi a justiça, a correção, a mudança, a luz. E eu acredito. Mas não gosto de você quando parece que não posso escolher o mesmo sem estar do seu lado. Nesta hora te acho apenas infantil. Não diria isto a um inimigo. Não perderia este tempo. Isto supera a política: no dia a dia sua mãe, seu namorado, sua filha, estarão certos mesmo estando do outro lado e você não estará errado. A morte da maturidade acontece quando o fluxo se interrompe entre os dois lados certos da história. Morre um pouco cada lado na solidez fria do apego. No dia 17 de abril de 2016 fomos brasileiros de lados opostos do muro. Você olhou pra mim incrédulo e me chamou de inocente, alienada, romântica. Você gosta de mim, não deu conta de me chamar de escrota, ou me jogar na cova comum dos desonestos como fez com outros que até ontem admirava. E agora, talvez, este gostar se perca em definitivo. Por que acredito que os monstros que te assombram no palco imundo da política brasileira dormem abraçados à sua cintura à noite. Aconchegados. Têm guarida na sua crença de que tudo vale em nome do que você acredita. Não foi assim que este governo se fez? Eu te vi aplaudindo manobras do seu herói para ganhar a guerra que você acha ser a conquista do bem. Acorda: não se conquista o bem com manobras egoístas do meu herói. Eu te vi fechar os olhos à homofobia em nome da vitória sobre o mal. Lembra: muitos alemães se calaram no começo, inclusive judeus, por acharem que não seriam o alvo do Führer. Eu te vi ser intolerante com o diferente. Oi?? Não só gays, negros e mulheres merecem a tolerância. Não basta ser um conceito correto e talvez ainda seja pra você um sentimento difícil de suportar ou mesmo idiota e inútil porque te obriga a refrear seu ódio, sua sede de extravasar esta insatisfação que entendo e é justificada. Mas vejo você, que foi vítima de tantas intolerâncias, defendendo e incensando a sua, e criticando estratagemas do inimigo e aplaudindo os do seu time, sem entender que é mais do mesmo. E você tem razão: eu não escolhi o lado dos justos, dos impolutos, dos honestos, não tenho como fazer esta escolha. E só posso te esclarecer minha opção de uma forma que doerá mais, mas talvez ainda seja uma semente. Entendo o mal como parte inerente do jogo, não tenho a ilusão de eliminá-lo, mas fiz uma lista do mal com o qual consigo lidar. Posso suportar um mau governo e, no meio de uma turba indiscriminada de ladrões, entendi que preciso negociar com alguns deles. Não desaparecerão feito neblina, e estão sempre se reeditando num sistema adoecido que precisa ser reformado. Mas não consigo acolher a manipulação explícita, o escárnio premiado, o preconceito escarrado, a violência vazia, a esperteza fominha, a chantagem cordial, a psicopatia sorridente. Nada é novo:  há muito tempo negociamos com monstros para seguir em frente, você, eu, nossos heróis, nossos líderes. Fechamos os olhos às pequenas maldades, aos pequenos delitos, e manobramos dentro da vaga apertada da mediocridade. Os fins justificando os meios. E chegamos até a acreditar que dava pra ir levando assim enquanto a economia ia bem. A única diferença é que agora está explícito. E eu te desejo sorte com os monstros que você escolheu para nós. Neles há uma centena de sinais dos tempos que vão além deste nosso desejo comum de justiça. E eu sei que o jogo não acaba aqui e que você estará atento. Por isso, amigo, te escrevo, me escrevo, para que de noite, na cama, possamos olhar com firmeza nos olhos deste crápula e assumir: sim, ainda que por um momento e com um fim, eu te escolhi. Você é mau e é meu. Ai, não seremos tão legais, nós dois, mais ainda seremos amigos.
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10.4.16

Não queira me mudar!

Não queira me mudar. Disse o homem com firmeza. Sou quem sou. Também acho uma estupidez erguer qualquer relacionamento na expectativa de mudar o outro. O homem tem meia razão, embora eu não quisesse mudá-lo. Querer mudar o outro, para mim, está entre a absoluta falta de humildade e a total perda de tempo. Mudar o outro acontece, mas não como um propósito. Sei que serei um espelho e o homem talvez mude por vontade própria porque é natural das relações verdadeiras, transformar as pessoas. A mim, basta existir com integridade, com verdade, sem muitas querências em relação ao planeta insondável do outro.  Tive a chance de ser terapeuta e desisti. Não sou tão altruísta a ponto de me dedicar a mudar quem quer que seja. Mas tive vontade de dizer ao homem: vai mudar, criatura! Qual o problema? Pra que tanto apego ao que se é ou parece ser? Escolhemos pessoas espelho quando alguém em nós quer mudar. Escolhemos pessoas foscas quando queremos a paz da inércia. Pessoas espelhos devolvem a nós tudo que é reflexo e não relação. Isto é seu, isto é meu, aquilo é nosso.  Sem medo de nos machucar, pois não é seu objetivo. Apenas preservam o hábito saudável de não se misturar às nossas loucuras. E eu não quero mudar o homem, mas sei que serei seu espelho então... pode ser que mude. Não dependo disso e não espero mais nada mesmo quando quero muito. Aprendizado de mosca que um dia girou em torno de uma lâmpada.  Eu gasto meu tempo cuidando do meu jardim e ofereço mudas de flores aos interessados, mas respeito quem azulejou todo o chão. Não preciso que o homem goste de jardim. Ao homem darei o que ele puder levar sem cobrança. Sem cheque caução. E não creio que ele entenda. Se debate agarrado ao seu valioso eu que é o que é: pobre líquido congelado. Receoso de derreter-se no contato humano e seguir menos certo de si, mais fluido e mais feliz. 
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29.3.16

Celina e Malala

Estou lendo com minha filha de onze anos a história de Malala: menina paquistanesa que levou um tiro na cabeça por insistir que as mulheres tivessem o direito de ir à escola. No começo do livro ela está com a mesma idade de Celina. Vejo o rosto de minha filha endurecer enquanto os olhos deslizam pelas páginas. O lobo mau deixou de ser uma figura pictórica na imaginação: o nome dele é ser humano. Crueldades acontecem no mundo real. Somos nós que as promovemos. Pior, não nos achamos maus como o lobo, atiramos na cabeça de uma criança em nome de Deus. Respiro aliviada de que Celina não tenha nascido no vale do Swat sob a dominação do Talibã. É educada para ser livre, exigir respeito, ser tratada de forma igualitária. Nada no ser mulher a inferioriza ou autoriza contra si qualquer violência. Pode andar vestida como quiser. Pode brincar com meninos. Pode ler. Pode dizer não. Mas agora sabe que há outras Celinas no mundo escravizadas e violentadas pela estupidez dos homens. Meninas que têm o órgão sexual mutilado com laminas frias ou totalmente costurado sem anestesia ou assepsia, que vivem encarceradas em casa, que são entregues ainda crianças para serem esposas de homens velhos em troca de camelos ou como pagamento de dívidas. E não são poucas.  Alimentam estatísticas assombrosas a ponto de a ONU considerar a violência contra mulheres uma das violações de direitos humanos mais presentes no mundo. Celina se vai pensativa após a leitura e volta com o livro todas as noites. Vou de mãos dadas com ela pelo caminho doloroso de outras meninas a quem minha filha está ligada pelo invisível fio da compaixão. Explico que Malala não foi morta pelo Lobo Mau: como nos melhores contos de fada, ela sobreviveu e foi a mais jovem pessoa no mundo a ser coroada com o prêmio Nobel da Paz, feito que princesa alguma passou perto. E nem precisou casar! Celina não sorri. Sabida, entende que Malala tem a ver com ela, e não poderá mais esquecê-la. Daqui pra frente estará ao lado de Malala, cada vez que uma mulher desconhecida, em qualquer parte do mundo, for tocada sem respeito ou ternura.
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21.3.16

Honestamente, amigos

Eu aprendi esfolando os joelhos nas calçadas que para crescer é preciso olhar firmemente para o escuro. No começo o que vemos são nossos próprios fantasmas, com o tempo a vista se acostuma e podemos enxergar a nossa verdadeira alma. Ela não é branca, impoluta, ela não é correta, ela não é boa: porque ela abraçou cada cena da nossa história, até aquela onde furtamos um livro numa livraria chique. Não é poesia: eu já roubei um livro quando jovem. Não tinha grana para comprar e era um livro, o que torna o roubo meio romântico, mas não acho que deveria ter feito. Posso suportar o fato de que errei e não autorizo ninguém a me agredir por isso. Então, quero falar brevemente sobre nosso momento político, porque sempre fui um ser político e participei ativamente deste jogo, inclusive como publicitária. Sim, existia um jogo de poder e o jogamos: uns em nome da ganância, uns em nome de um ideal, uns em nome de uma extrema vaidade. E se erramos, e se provarem que erramos, devemos pagar. Julgar um erro pode ter um viés imensamente subjetivo, para isto combinamos regras e escrevemos num livro chamado Constituição. Você discorda delas? Problema seu. Tire a bunda da comodidade de estar certo e vá brigar para que a Constituição mude. Estou colocando meus heróis na fogueira, não preciso de heróis. Ao mesmo tempo estou acolhendo seus erros e procurando entender suas razões, não preciso de culpados.  Quero ir até o fundo e não vou me agarrar a nenhuma ilusão, por mais que doa, porque quero sair do poço, definitivamente. E denunciarei sua insensatez, sua intolerância, seu ódio, seu fanatismo, sua grosseria, sua imaturidade, com o amor de uma menina que um dia roubou um livro e que eu abracei e ajudei a crescer. Sem sair do seu lado. E isto, hoje, é um ato brutalmente político. 
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17.3.16

INSUPORTÁVEL

Tenho procurado suportar pessoas no Facebook. Preciso delas para não perder a noção do mundo. Outro dia, sem querer, uma postagem minha ficou pública. Era sobre política. Não deu cinco minutos e alguém estava me desancando pelo que escrevi. Levei um choque. De onde saiu aquela criatura? Através de que fresta desguardada ela havia se metido no meu reino maravilhoso e perfeito das certezas do Facebook? Como aquele idiota, sem classe, sem nível, sem noção havia conseguido a chave do meu bunker? Onde vivo cercada de amigos que, vá lá, estão mais à esquerda, mais à direita, mas caminham dentro dos limites suportáveis da minha visão de mundo. De onde brotou aquela excrescência xiita? Aquilo não podia haver na realidade. A simples existência daquele idiota colocou um tremor desestabilizante no meu espaço virtual. Fiquei perplexa como se estivesse caminhando pela Paulista e tomasse um murro por estar usando uma camiseta de arco-íris. Rapidamente mudei o status da postagem para amigos. Amigos, amigos, amigos! E voltei a ficar a salvo.  Apaguei os comentários do pústula e deixei tudo limpinho e não ameaçador.  Voltei à minha paz. Mas este não é o mundo: grita uma consciência insuportável debaixo das minhas costelas. Isto é só a minha ilha. O mundo pra valer está inundado por intolerantes agressivos de todas as classes e cores. Políticos intolerantes com gays. Gays intolerantes com políticos. Negros intolerantes com latinos. Latinos intolerantes com negros. E o pior, berra a desgraçada consciência: não há como salvar só a minha ilha. Vamos afundar juntos, eu e o pústula, abraçados, com as unhas cravadas nas costas um do outro. Ah, se eu pudesse eliminá-lo! Mas não posso. Não é gente, é uma crença viva, ambulante. E crenças não morrem a bala. Crenças, às vezes, se desmancham com a compaixão, o diálogo, o amor. E eu sequer consegui suportá-lo.
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19.2.16

Meu Monstro

Meu monstro não vai mais brincar com o seu. Ele, às vezes, até quer fazer o joguinho do taca bosta um no outro com seu monstro. Ele olha saudoso para as próprias feridas obsessivamente descascadas e diz não. E volta pra dentro de casa. Por que aqui dentro ele tem pai, mãe e irmãos que o abraçam. Eles o aceitam, não querem mais eliminá-lo. Entenderam sua função, suas razões, negociaram com ele. Por isso, meu monstro topa não ir brincar de quebra-quebra com o seu. Não, ele não ficou bonzinho e ainda é capaz de coisas terríveis. Ele ainda quer alimentar o fluxo neurótico das relações. Mas prefere o meu abraço às suas porradas. Já não corre na minha frente, feito cachorro medroso mordendo todo mundo. Estremece, balança, mas fica. Não deixou de ser a minha sombra, mas me ensinou que na sombra também posso descansar. Infelizmente seu monstro não irá brincar só. Há tantos outros prontos para revidar o seu golpe, amargar a sua ingratidão, vitimar-se sob a sua total falta de sensibilidade. Pode lançar sua bolinha de pingue-pongue para o lado de lá da rede: alguém vai rebater. E vocês dois irão, certamente, se consumir num êxtase sadomasoquista. Nós não. Estaremos sentados à beira de um abismo onde, de vez em quando, um vagalume pisca: eu maravilhada pela grandiosidade da escuridão e meu monstro com a cabeça no meu colo.
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3.2.16

Já Vai??

Ter vida pessoal é feio. Filhos, marido, esposa, consulta médica? Feio, feio, feio. Envergonhado, às 19h30, o homem diz ao chefe que precisa ir. Tem um motivo de força maior e não é jantar. Afinal, comer é para os fracos. Ele tem algum compromisso considerado justificado no mundo corporativo como: uma cirurgia para tirar um tumor do próprio cérebro. Ah, tá! Pode ir. Mas o pobre se desculpa olhando o mar de caras mastigadas decoradas com olheiras que são seus colegas de área. Mostruário de abnegados, rendidos, pasteurizados pela marca que paga o salário no fim do mês. Todos infectados pelo vírus da infelicidade compulsória, afinal, para se ter emprego hoje em dia é preciso não se ter estômago. Tchau! - Diz o homem com impertinência - Estou indo ver minha filha antes que durma! Estou indo abraçar minha mãe no seu aniversário! Estou indo para minha aula de Yoga! Tchau! Perplexidade. Som de asas de uma mosca que se debate contra o vidro. Cabeças surgem atrás de monitores de computador e  lançam olhares incrédulos, raivosos. Ele é agora um vagabundo desestabilizador da anestesia alheia.  Já vai?- Mastiga o chefe da tribo dolorosa economizando os dentes. Seu “já vai” está encharcado de insinuações de como ele é leviano em deixar sem fazer aquele monte de demandas que se retroalimentam de forma infinita e transbordam continuamente em sua caixa de emails. Já! – Sorri e sai andando. Tarde da noite, o chefe irá contar a história ao responsável pelo RH que, ainda mais tarde em sua sala, irá amolar o fio da foice para o dia seguinte. E a cabeça do homem rolará: viva e sorrindo.
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Para meus muitos amigos que, ao contrário de mim, têm um emprego.
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22.1.16

Desfibrilador Portátil

Sentada numa agência dos Correios com uma senha na mão só me resta, na demora da espera, olhar o rosto daquela senhora que aguarda de pé apoiada no balcão. A cara feia da senhora apoiada no balcão. Nela vejo todo o horror de uma vida chata e desgastante. A expressão do desgosto mora ali, naquele rosto. E não foi sempre assim. Ela já foi criança, já foi adolescente. Naquele tempo, mesmo distraída, apoiada num balcão, trazia uma expressão mais leve. Giro meus olhos 180 graus dentro do globo ocular para mim mesma. E me percebo também possuidora de uma expressão dura, tensa. É o meu natural de hoje. Pobre dos desconhecidos na sala dos Correios que cruzarem o olhar acidentalmente com a minha cara.  Perdida em pensamentos quase sempre opressivos, abandonei meu rosto neste esgar infeliz. O outro me olha e confirma sua decepção com o mundo. Minha cara feia alimenta a dele, alimenta a cara do funcionário dos Correios que me atende, alimenta o transeunte que cruza comigo na rua numa corrente viciada de desgosto. E os rostos vão se concretando na expressão infeliz, fidelizando rugas, envenenando a paisagem. Lembro-me de um outro dia, era mais jovem, atravessava uma ponte no meio do delírio urbano de uma grande cidade, e começava a exercitar a expressão alheia e dolorosa. Um homem veio na direção contrária, absoluto desconhecido, se enfiou na minha frente feito uma mosca feliz e soprou baixinho no meu rosto: sorria! Um sorriso largo explodiu na minha cara, incontrolável. Como a corrente elétrica de um desfibrilador cardíaco que traz de volta um moribundo. Contaminei diversas pessoas naquele dia com meu sorriso numa ação fundamental de higienização do cotidiano. Disse amém de novo à aula daquele desconhecido, levantei-me na sala dos Correios e fui até a mulher sorrir para ela. É minha obrigação como ser humano. 
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2.1.16

Ilha Brasil

Estou em Brasília. Cidade plana, cidade exata, cidade sonho de pessoas que queriam fazer história. Cidade linda. Cidade limpa. Outro planeta. Brasília não é Brasil. Raros mendigos incomodam a paisagem perfeita, fotográfica. Não há cães abandonados, não há lixo esparramado. Nem sei onde andam as lixeiras de Brasília. O arquiteto pensou em tudo. Show imagético de ordem e progresso fincado no peito do país. Brasília é o Brasil que queríamos, que sonhávamos, que tentamos. Cidade contraditória, recebe em seu corpo escultural parasitas políticos de todos os cantos do país. Tipos não educados, criados para sugar. Eternos coronéis ou desfavorecidos que enfim conseguiram entrar na festa do dinheiro público. Gente pobre de espírito que se enfia num terno caro e se acha digna por conta da etiqueta do vestuário, da tabuleta na porta, da marca na bunda do carro. Jecas Tatus cívicos deslizando pelo cenário futurista. Comprando o luxo e a megalomania que o cenário inspira sem enxergar a modernidade do pensamento por trás do concreto.

Assim escreveu Lúcio Costa ao apresentar seu projeto de cidade, duvidando que fosse o escolhido, sem sequer possuir um escritório, inspirado pelo gesto singelo de quem assinala um lugar ou dele toma posse: o próprio sinal da cruz.
“Ela deve ser concebida não como simples organismo capaz de preencher satisfatoriamente e sem esforço as funções vitais próprias de uma cidade moderna qualquer, não apenas como urbs, mas como civitas, possuidora dos atributos inerentes a uma capital. E, para tanto, a condição primeira é achar-se o urbanista imbuído de uma certa dignidade e nobreza de intenção, porquanto dessa atitude fundamental decorrem a ordenação e o senso de conveniência e medida capazes de conferir ao conjunto projetado o desejável caráter monumental. Monumental não no sentido de ostentação, mas no sentido da expressão palpável, por assim dizer, consciente, daquilo que vale e significa. Cidade planejada para o trabalho ordenado e eficiente, mas ao mesmo tempo cidade viva e aprazível, própria ao devaneio e à especulação intelectual, capaz de tornar-se, com o tempo, além de centro de governo e administração, num foco de cultura dos mais lúcidos e sensíveis do país.”

Eu olho Brasília linda da janela do hotel, Brasília de Lúcio Costa e Niemeyer, e peço que os homens e mulheres do poder acordem para a mensagem que ela guarda, e não façam de Brasília uma ilha, mas levem Brasília para o Brasil.
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