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Não Magoado

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O não magoado é o novo sim.
Tenho tentado dizer um não medicinal, um não maduro...
Não consigo.

Sai só um não magoado que não se sustenta.
Um não raivoso com faca na mão.
Não rejeitado, doido pra ser sim.

Quero dizer um não pesado de autoestima mas sem ódio, não definitivo.
Manifestação natural do fim de um embate interno.
Não flor que finalmente desabrocha.

Mas o que consigo é o não decorado,
Calçado de racionalidades mas emocionalmente frouxo.
Não volátil. Graveto no caminho da tromba dágua.

Quem não suporta o não do universo não aprende a dizê-lo.
Quero pousar o não amorosamente entre os meus seios.
Sem rasgar a pele e sem ferir o coração.

* Para Chica e Nany. Escudeiras. * *

Alada

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Eu espero o voo... o próximo voo Nasci com asas invisíveis
E o solo, no início, me incomodou

Na crescida aprendi o ninho
Onde cultivo amores-imperfeitos
Mas o chão não é minha casa

Moro onde os pés não têm apoio
Onde as mãos alcançam o nada
Moro no vento, naquele azul mais profundo, na solidão do vácuo

Nasci com asas invisíveis
E esta estranheza nas costas já me pesou muito
E já morei em gaiolas tentando ser gente,  ser o outro de alguém

Hoje estou casada com o céu
E espero o voo... o próximo voo
Até um dia ir alto demais

E morrer nos braços do infinito.

* * *

Tributo ao Amor Impossível

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Em que local mágico ficam guardados os amores impossíveis? No bolso da camisa azul do homem poderoso e sem tempo? Na caixa marchetada sobre o guarda-roupa da velhinha que amargou? Na bolsinha de fuxicos daquela menina que chora no ponto de ônibus? Atrás dos olhos castanhos de medo da mulher que não se lançou no abismo? Em cartas amareladas escondidas no fundo de gavetas em cidades diferentes? Onde o monumento dos amores que seguiram se amando distantes apartados por um oceano de “nãos”? Onde o jardim dos amores que brotam em pedras secas e vivem eternamente animados por raros raios de sol? Onde o pedestal do amor que chegou na hora errada: tarde ou cedo demais? Amor dos que disseram adeus e se foram sangrando eternidade adentro? Dos que não deram conta? Em que altar consagraremos os amores doídos que viveram no silêncio? Onde posso registrar meu tributo afetuoso ao seu amor sensível, amável mas impossível? * * Para um homem e uma mulher amados. *

Caçadora

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Venenosa a solidão que blefa
Solidão travestida de amor
Solidão que inventa marido, namorada
Onde o abandono se repete

Cara a solidão que usa o outro
Como tampão de hemorragia
Solidão surda que não escuta o “não”

Nefasta a solidão dos que se precisam acompanhados
Solidão que manipula falas e inventa olhares
E rouba carinhos invisíveis

Estúpida a solidão que não se abraça, não se assume
Solidão que fabrica arapucas de pegar amor
Nunca autorizada sempre gigantesca

Ergo-me na sala dividida ao meio por um biombo
Por tanto tempo jurei um outro do lado de lá

Ergo-me com a coragem  dos exaustos e vou olhar...
Ninguém.

Desenhos de crianças espalhados pelas paredes, pelo chão
Meu outro inventado

O resto é solidão real, basal, inescapável

Recolho minhas garras e vou finalmente caçar a paz em mim.

O Bólido e a Borboleta

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A seta incisiva, na placa verde, aponta São Paulo. Tentei encontrar companhia para a viagem de sete horas de carro, não foi possível: o universo havia escrito no livro que era a vez de viajar só. A estrada, e suas pistas deitadas na minha frente, não me levará a São Paulo. Sequer existe um carro, meu corpo está fundido à máquina. Viajo numa metáfora do meu destino e acelero... 160 quilômetros por hora no tapete de asfalto. A música bem alto e só a voz masculina do Waze vez ou outra me alertando sobre radares. Existe algo premonitório ali, algo a caminho que não é São Paulo. Enquanto o carro voa, eu me encolho devagar e me acomodo dentro de uma caverna interna. Escorrego cada vez mais sem lastros para dentro de mim, para o devir. Vou me desapegando da realidade e seu cheiro de passado. Já não me reconheço no que era. Uma borboleta cruza a rodovia atarantada e explode tola contra o meu parabrisa. Diáfana presença no curso do bólido que me leva a mim. E não tem chance contra a força do …

Amém

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Eu fui catequista. Tinha meus 12 anos. Ensinava a crianças menores o catecismo que eu mesma não conhecia muito bem. Ia sozinha à igreja, melhor quando ela estava vazia. O padre, os fiéis, a liturgia da missa, me incomodavam. Na igreja silenciosa sim, encontrava Deus. Sigo dispensando atravessadores e intérpretes entre mim e o divino. Pertenço a civilizações humanas arcaicas onde Deus estava em tudo o tempo todo. Deus era a água, a árvore, a pedra, o bicho. Então nasci misturada com Deus e não preciso de rituais para falar com ele, nem pontes. Deus é esta imensidão inexplicável aqui e agora, é o amor como guia, é minha união total com tudo que há. Dispensa rituais de conexão, cabines telefônicas de falar com Deus. Não marca comigo num local e horário da semana: está vinte e quatro horas online. Mas entendo os que se ajoelham no templo, os que juntam as palmas das mãos e rezam, os que cantam e dançam olhando para o céu, os que precisam de um pai na terra, menos metafísico, mais carne e…

O Céu dos Outros

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Dia chuvoso. Na cidade pequena, da igreja pequena, saem famílias, casais, crianças, jovens... É como se olhasse para um outro tempo. Não vivo mais nesse tempo. Não tenho mais esta relação com  Deus, família, casamento. Estou do outro lado da rua observando o sorriso desta gente que eu poderia chamar de conservadores. Não vou fazê-lo. Se usasse para medi-los a minha régua de hoje poderia ser seduzida a transformá-los em caretas, anacrônicos, superados, reacionários, antiquados... e seria até capaz de odiá-los com o tempo. Fixo minha atenção no sorriso da menina de saia e cabelos compridos. Ela me vê e sorri mais largo ainda: aquela aceitação ilimitada dos que ainda não se conhecem. Não trisco a mão na minha régua. Quero seguir amando todos eles com seus limites que para mim não fazem mais sentido. Porque estão felizes do outro lado da rua que talvez na verdade seja um abismo mas por cima do qual o sorriso da menina atravessa. Ela não sabe que sou cercada de pessoas muito diferentes: m…