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Brasil meu

Brasil, meu Brasil amado... País entristecido, vivendo o tempo da casca. Embaixo, a ferida lenta cicatriza. Em cima, a casca velha dos velhos de espírito ainda apegada à pele.  Nada a esperar da casca, a não ser que ela, finalmente, caia. Esperneia, fadada a morrer.  Carrega em si a estrutura dispensável do remendo e a memória de tantas porradas. Não é solução, é processo inevitável de superação dos traumas. Brasil, meu Brasil amado... Repugna-me olhar a casca dos nossos descaminhos, das topadas que demos, dos guias canibais a quem entregamos nossos filhos, mas sei que é processo. Ela cairá. E, se ficar uma cicatriz, vamos carregá-la como um monumento à nossa grandeza interior. Por que não somos feridas eternas. Somos brasileiros.
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Final Feliz

Esta noite sonhei-me nua em uma cama abraçada a um homem nu como duas raízes aéreas que avançam debruçadas uma sobre a outra. Não era sexo. Conversávamos. Eu observava pequenas imperfeições na sua pele. Ele me contava as pelejas do dia enquanto me estreitava em seu carinho. Encaixados feito Yin e Yang, eu e o homem éramos flor boiando serena na superfície de um lago. Acordei só, mas acompanhada deste abraço. E entendi nele muito mais do que o homem ideal fora de mim. Acordei sem a necessidade de encontrar um homem que me dê suporte, paz e aconchego. Acordei livre desta busca insana e inútil. Dentro de mim meu masculino abraçava meu feminino: forte e terno como só ele saberá ser. Não se culpavam mais, não se cobravam, não carregavam mágoas e dívidas. Conversavam sobre o dia banal. Pérola preciosa que o inconsciente me deu e não será desperdiçada. Já não espero na murada do castelo. Sou o castelo, o príncipe, a princesa e o final feliz.  * Para Nany

No Buraco

Nós fazemos arte no buraco. Escuro. No escuro da falta de grana, da falta de importância. No país escuro onde senhores Cartolas precisam lavar carro no posto de gasolina para não morrerem de fome. Nós somos seres estranhos do buraco. Fascinados por uma luzinha que vem lá de cima, cada vez mais distante do chão que afunda. Miragem luminosa chamada patrocínio daquela grande empresa que te pergunta se a sua peça tem ator famoso. No país escuro onde uma bunda bem cuidada te faz famoso. No escuro do raciocínio mercadológico onde tudo existe para vender e vender e vender mais e dar lucro. Onde o furor mercadológico transformou a arte numa puta chamada entretenimento que anda com seringas e mais seringas de morfina na bolsa oferecendo aos homens uns momentos de torpor e alienação dentro do curral.  Onde pensar é chato e ter é obrigatório. Onde almas vêm com preço e muitas estão, francamente, em liquidação. Nós fazemos arte no buraco dentro deste buraco. Quase invisíveis. Descartáveis como t…

Eu Rio

Da minha família mineira herdei este humor que é mais forte que a morte. Não há tragédia, não há ódio, não há tirania nem dor que eles não joguem por terra com a espada do humor em punho. Vamos rir no enterro uns dos outros, está combinado. O riso, misturado com amor, vai destruindo, desqualificando a maldade, a imaturidade, a pequenez dos homens. Sou uma criatura afortunada. Recebi, na mala do nascimento, esta metralhadora de plantar afeto, dissolver rancores, preconceitos e mágoas. Aponto sem dó para um mundo árido de disputas e culpas e atiro. Atiro sem descanso minha graça. O riso brota liquido no meio das seriedades secas, hipertrofiadas, dissolvendo venenos cotidianos. E, às vezes me falta, quando me percebo densa e aferrada a desamores incontornáveis. Então corro para minha família mineira, me abasteço. Rio com eles quase todas as horas acordadas do dia. Como se recebesse cócegas na alma. Choro de rir e me curo. Somos afortunados. Que venha a infelicidade e seus tratores. Não …

Um Novo Dia

Na virada de meio século, a alma me convida a ser humilde e me apresenta outro quarto para limpar. Entulhado de vaidades, reis tirânicos, súditos hipócritas acovardados. Todos sou eu. Na virada dos cinquenta é bom já ter aprendido a decifrar a linguagem da alma. Ela fala enquanto lambe as feridas e as cicatriza. Na imaturidade, eu amaldiçoava o outro, aos cinquenta aprendi, me procuro nele. A alma fala comigo através das escolhas que faço. As mais injustificáveis são as mais cheias de significado. Lá onde não faz sentido estar, lá está todo o sentido. Na virada de um século, quando acho que vou ganhar diploma de gente, a alma me abre outro quartinho cheio de entulhos. Alma obstinada, não quer deixar nada pendurado para uma encarnação futura. Não me poupa. Não me autoriza a descansar sobre o travesseiro morno de uma alienação. Nem mesmo aos cinquenta. Encho o balde de água, me armo com caixas de papelão vazias, sacos pretos de lixo, diante da porta aberta do quartinho. Lá dentro o ego…

Para o meu fantasma

Adeus e obrigada. Foi bom girar nos seus braços nesta valsa inesperada. Obrigada pela Duquesa, pela Gata Borralheira, pelo pai e pelas crianças minhas que você nem sabe que me deu. Obrigada pelo espelho onde pude pentear a minha vaidade, pelo lugar de destaque na sua corte que pude chamar de pouco. Foi doloroso ver meu tirano no seu, mas foi como um parto. Dor valiosa de onde nasci novamente. Obrigada por tudo que você nem sabe que foi. Por ter ido tão fundo em mim sem nunca ter deixado a superfície das suas vontades. Por ter me notado. Por ter chamado meu nome. Por ter evitado o meu mergulho e me devolvido a mim. Coloco este agradecimento e este adeus numa garrafa e lanço no rio de nome universo. Incógnita, me despeço. Remeto este adeus agradecido à sua alma que há de me escutar numa dimensão distante. Adeus e obrigada pelas provocações de menino, por acordar o meu menino, por dançar comigo esta dança breve, desatenta, mas necessária. Verdadeiramente, obrigada, segue seu caminho. Ab…

O amado e odiado outro

Teu nome é porta. Mas te chamam outro. Se sabemos olhar-te bem lá no fundo, te chamaremos porta. Tu nos trazes em gesto e verbo as dores que escondemos. Vemos no teu corpo, nossas feridas. No teu mal, o nosso mal. E isto te faz divino e mestre dos que te sabem ler. Quando pisas, maltratas ou ignoras, és professor dos que buscam a mensagem e demônio dos que escolhem não se ver. Tela de projetar mágoas. És o que fere, o que não alimenta, o impossível, o maléfico. Instalas-te feito bode nas salas dos alienados de si destruindo tudo. E viras assunto eterno com os amigos das vítimas. Ocupas delas toda a cama, todo carro, toda mesa, toda história, todo coração. E te chamam outro. Mas eu te chamo porta. E mais te amo e te odeio quanto mais cartas me trazes do universo. És tão monstro quanto o tamanho que me é dado crescer depois de ti. És o inferno e eu te chamo mestre. Se me maltratas, ensina-me a cuidar-me. Se me abandonas, faz me enxergar meu colo. Chamam-te parente, amigo, namorado, ama…