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Mostrando postagens de Janeiro, 2013

Luciana e Rubem

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Deus me dê sensualidade. Que nada tem a ver com beleza. Que nada tem a ver com juventude. Que nada tem a ver com silhueta. Que tem a ver com saber-se.  Lembro-me de Luciana: uma jovem senhora quando eu era uma menina magrela recém-chegada da adolescência. Estudávamos teatro juntas. O exercício era atravessar a sala caminhando com sensualidade. Lembro-me de Luciana, que nunca foi a mais bela, que era mãe de dois, que não tinha namorado, atravessando a sala, sensualmente. De camiseta surrada e calça de malha.  Lembro-me de Luciana escorregando como dedos pela epiderme do chão de tábuas corridas, como língua pelos desníveis do abdome do piso, como uma mensagem perturbadora pelos sulcos úmidos dos nossos cérebros. Lembro-me de Luciana, em seu momento manga madura hipnotizante. Cheguei à idade de Luciana. Já quis menos rugas, menos flacidez, menos grisalho, menos gordura. Quero mais. Quero o poder de Luciana de estimular as glândulas salivares dos outros com meus ombros nus enquanto camin…

Trêmula

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No fundo dos olhos baços, semiabertos, lampejam faíscas de minha mãe. O fim não é acontecimento, é processo. Seguro sua mão frouxa com as unhas que minha irmã pintou de vermelho. Os dedos inertes, pintados de vermelho, não me socorrem. O corpo de minha mãe é só um tecido largado sobre ossos. Às vezes, um sorriso de lucidez, no mais, o olhar ausente para coisas que nunca saberei e o balbuciar de frases quase mudas. Num ritual lento, doloroso, vai se desligando de nós. Meu irmão está prostrado diante do fio de voz carregado de falas incompreensíveis e do olhar que nos atravessa. Inaceitável ausência da pessoa amada dentro de si mesma. Maldade de um coração que insiste contra um cérebro que praticamente se foi. Enquanto rezo para que ela também se vá, ajudo meus irmãos na obstinação de tratá-la e cuidá-la e colocar-lhe remédios na boca que nem sempre engole. Mãe dureza, mãe trator, mãe autossuficiência, mãe porrada, como engolir esta impotência que o universo lhe pede agora? Debruço-me …