Luciana e Rubem

Deus me dê sensualidade. Que nada tem a ver com beleza. Que nada tem a ver com juventude. Que nada tem a ver com silhueta. Que tem a ver com saber-se.  Lembro-me de Luciana: uma jovem senhora quando eu era uma menina magrela recém-chegada da adolescência. Estudávamos teatro juntas. O exercício era atravessar a sala caminhando com sensualidade. Lembro-me de Luciana, que nunca foi a mais bela, que era mãe de dois, que não tinha namorado, atravessando a sala, sensualmente. De camiseta surrada e calça de malha.  Lembro-me de Luciana escorregando como dedos pela epiderme do chão de tábuas corridas, como língua pelos desníveis do abdome do piso, como uma mensagem perturbadora pelos sulcos úmidos dos nossos cérebros. Lembro-me de Luciana, em seu momento manga madura hipnotizante. Cheguei à idade de Luciana. Já quis menos rugas, menos flacidez, menos grisalho, menos gordura. Quero mais. Quero o poder de Luciana de estimular as glândulas salivares dos outros com meus ombros nus enquanto caminho. Andar pela rua sentindo minha pele roçando na roupa e carregar no sorriso  a mensagem perturbadora da amiga e da fruta para o passarinho: venha que estou madura. Isto aprendi no caminhar de Luciana: o sabor não está na assadeira do bolo, no seu redondo, no seu quadrado, está nos micro pedaços da erva cidreira curtida na sua carne.  Disso também me falou Rubem Alves, em seu livro: da sensualidade inerente à sabedoria da vida. Saber e sabor na mesma panela: esta a inteligência que interessa, a que se entrega aos doces e azedos das vivências. “Não desejo que você simplesmente entenda o que escrevo. Entender é um ato racional. O que eu desejo é que meu texto seja comido antropofagicamente. Quero que você sinta o meu gosto.” E lá vou eu correndo atrás de Rubem e de Luciana na intenção de comê-los mais um pouco e absorver-lhes a delícia do saber. Vou enfiar o dente neles e mastigar bem devagar. De barriga cheia, vestirei um vestido em que eu me sinta fruta doce no ponto. Talvez até me mostre um pouco num decote para que as aves rapidamente me saibam. E procurarei um prédio em construção para tentar derrubar ao solo, sorrindo extasiados, ardentes, uns dez operários.
*
Para Rubem Alves.
*
*

Comentários

  1. Olá querida !!!!
    Mais um texto lindo seu.
    Em relação ao último ainda o estou absorvendo.... Difícil...dividida entre você, eu, nossas mães e o conteúdo.... pegou fundo...
    Este me trouxe de volta... pelo menos um pouco...
    BEijo

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Tenho visto nas fotos de minha mãe que ela era mais feminina do que eu imaginava. Está tudo junto. Da dor pode nascer algo. Também estou voltando aos poucos. Beijooo.

      Excluir
  2. É tão verdadeiro e tão maravilhoso o texto! Trata-se do hormônio que aproxima ou rechaça as pessoas. Quando jovens, eu e minha irmã tínhamos uma amiga que mesmo sendo bonita conseguia afastar os rapazes. Sua insegurança transpassava qualquer vestido bonito.

    Como você disse, a fruta apetitosa nem precisa de vestido bonito, pode usar blusa surrada mesmo.
    Também devoro Rubem Alves.

    Bjo!!!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Já briguei muito com meu feminino. Tô correndo feito louca atrás dele. rsrs. Beijão, Adri.

      Excluir
  3. ... Ôôôô lá em casa!... rsrs!! Bj

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Amo essa bulinha cheia de agulhinha!

      Excluir
  4. Delícia de texto Nanna. É isso. Perdemos todas o nosso feminino, umas mais outras menos. Temos de entender que feminilidade não tem nada a ver com feminismo ou a briga por se encontrar nesse mundo machista. Adooooooro! beijo

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Não tem conta Google? Assine, clique em ANÔNIMO e em PUBLICAR. É fácil! Bjooo.

Postagens mais visitadas deste blog

Amar não basta

Para o meu fantasma

Estranha Paz