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Mostrando postagens de Junho, 2018

Só Luz

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Primeiro olhamos o mal Ele está fora Ele é o outro Ele quer pular o muro E nos armamos E dói
Depois abraçamos o mal Ele está dentro da casa Ele está do lado Ele é humano como nós E nos perdoamos E dói menos
Então somos o mal Ele está dentro do coração Ele é só o avesso do amor Ele não é o outro O outro não existe E não há emoção
Só luz.


Para Nely.

Amor Próprio

Me engajar feito kamikaze na peleja de resgatar a autoestima de ser brasileiro.

Buscar mulheres e homens bons e suas atitudes diárias de nobreza.

Incensá-los, promovê-los, publicá-los nas redes sociais.



Me atirar na correnteza de destroços do tsunami amoral e arrancar de lá uma criança.

Pelo menos uma criança.

Colocá-la sobre uma montanha de brasileiros bons, admiráveis.

Não deixar a paisagem viciada de violência e abuso ser natural para os seus olhos.



Me dedicar com obstinação a contrapor nas mídias de massa as cenas do nosso extermínio dos valores.

Não permitir que elas se banalizem.



Me virar do avesso a caça de uma indignação sobrevivente.

Ficar de pé na lama. Negar seu abraço podre.

Negar a imagem no espelho do vil, do esperto, do baixo.

Buscar mulheres e homens altos que seguem cada vez mais emudecidos e convidá-los a cantar.



Me atirar contra a corrente. Como um idiota ou um herói. Atrás de cada brasileiro de valor.

Apontá-lo no meio da multidão, abraçá-lo, arrebentar as mãos nu…

O Gosto Doce de Uma Qualquer Esperança

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Cansada de minha densidade habitual busco conforto na existência nefasta de um pernilongo. Não vou falar da crise brasileira, da apatia geral, do avanço da violência... Chega, meu Deus, cadê o pernilongo? Ali está, suicida, criatura inútil, pousado no teto branco. Desconheço a finalidade deste sanguessuga voador na ópera da existência. Está lá inerte, a mercê da minha raquete torra moscas. Cadê minha raquete torra moscas? Ali está ela, plenamente carregada, ferramenta banal da minha porção cruel e assassina que se regozija na eletrocução de tênues vampiros voadores. Empunho o instrumento letal e volto o olhar de novo para o teto onde o bicho misteriosamente não mais existe. Pernilongos são assim: fantasmagóricos, adeptos do desaparecer. Pior: eles leem a nossa mente. Basta que você se levante atrás de um recurso para exterminá-los e eles, que estiveram repousados naquele mesmo lugar por toda uma eternidade, somem feito um gás. Agora me resta a quase sempre infrutífera tarefa de buscá…