Não Amola Lao

O tempo é uma coisa criada, apontou Lao Tse. Dizer não tenho tempo é dizer não quero. Um tapa na minha cara. Eu crio tempo para coisas estúpidas. Entre um corredor e outro do supermercado, me arrasto feito um caramujo manco comparando etiquetas minúsculas de preço, analisando demoradamente os sachês de tempero, dispersa entre latas de molho de tomate, e, invariavelmente, compro algo que não preciso. Desconectada de mim, perco o carrinho com as compras e quando, a custo, alcanço o estacionamento, não sei mais onde estacionei o carro. Então vago novamente feito barata alienada atrás da vaga enquanto meu tempo vasa para o ralo. Escolhi ser a mulher do supermercado que não sou e transito pelo estabelecimento sangrando o tempo essencial para a outra que quero ser. Economizei umas cinco moedas e perdi o paraíso. Em casa, crio o tempo de organizar gavetas. Há algo de admirável numa gaveta organizada, quase artístico. Das gavetas, pulo para os CDs, que coloco em ordem alfabética. Dos CDs, salto feito acrobata para o armário da área de serviço de onde desencavo milhares de itens supérfluos que podem ser jogados fora. Uau! E, sobre minha cabeça, o sol malvado passa correndo e mergulha no horizonte levando o dia. Meus filhos chegam da escola. Fim. Posso dizer a todos porque não fiz nada daquilo que realmente queria o dia todo, que me faria bem, que me preencheria: porque não tive tempo. Senhoras e senhores, o espetáculo morreu na cortina fechada porque o ator principal não teve tempo e o monociclo está largado na serragem nos fundos do circo porque o palhaço não teve tempo e a tela ficou em branco porque o pobre Picasso, infelizmente, não teve tempo. E lá vem o Lao me amolar. O tempo é uma coisa criada, uma escolha, querida, assuma suas escolhas e não encha o saco quando o tempo acabar e você só tiver memórias do supermercado, das gavetas arrumadas, do engarrafamento, do escritório, das reuniões com o cliente, das rotinas que você validou e instituiu sem duvidar. Porque tempo há e muito, crie o seu. O que falta é coragem, é compromisso consigo, é amor. O tempo é relativo,  já disse o gênio com sua língua pra fora. No mesmo tempo cabe tudo e não cabe nada. E minha alma ecoa junto com Lao: quando o desejo abraça o tempo, o relógio se atira do prédio e nasce a eternidade. E eu mando a alma calar a boca que sou apenas mais uma mulher sem tempo, como tantas que conheço, e somos a maioria, crentes absolutas na ditadura dos ponteiros, e o Lao que se dane pois no fim triunfaremos, martirizadas, sofridas, sobre as malditas gavetas que teimam em se desorganizar.
*
*
*

Comentários

  1. Amiga!... são nestas circunstancias que prefiro pensar no tempo sob a ótica da física quântica através da teoria da Não Localidade, onde o tempo é não linear no domínio não local... resumidamente falando, sou todas minhas ações (passado, presente, futuro) acontecendo neste instante! Olha que maravilha sem perda de tempo! ;) Bj

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Tori, eu também sou apaixonada pelo física quântica. Assisti "Quem Somos Nós" algumas vezes. Mas o cotidiano destrói minha física quântica. Rsrsrs.

      Excluir
  2. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  3. Nossa, que tapa na minha cara :)

    Beijo!

    ResponderExcluir
  4. Um momento de meu tempo que acho que é muito bom, produtivo, emotivo é quando leio o seu blog. Adoro, me faz pensar...
    Um abraço.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Não tem conta Google? Assine, clique em ANÔNIMO e em PUBLICAR. É fácil! Bjooo.

Postagens mais visitadas deste blog

Amar não basta

Para o meu fantasma

Estranha Paz