Morra de fome

Catherine Deneuve
Enquete do dia: o que sua vítima comeu hoje? A minha traçou um bom prato de tragédia alheia. Pegou a desgraça de um parente e passou o dia ruminando. Desgraça de parente é um pouco nossa: sempre sobra um espaço na longa régua da cruz pra gente enfiar as costas. Minha vítima já foi bem mais gulosa. Não dividia a cruz com ninguém. Tinha orgulho de arrastá-la sozinha, calvário acima, caindo várias vezes de joelhos no chão até ver o sangue escorrendo pelas pernas. Jesus? Um tímido perto da sua performance. Minha vítima comia pratadas e pratadas de sofrimento, arrotando gemidos com cara circunspecta e caçando, com o rabo do olho, algum espelho. Obesa de porradas. Salivando diante dos carrascos. Devoradora de desmerecimentos. Insaciável. Emagreceu com a idade. Hoje só come quando me distraio. Sei que não está morta nem se mudou para outro corpo. Vejo seu vulto molambento zanzando pela periferia de mim, a cata de algum comentário cruel que tenham me atirado. Ou sentada no espelho, hipnotizada pelo envelhecimento do meu corpo. Rugas, banhas, peles despencadas são petisco fino: a abastecem de lamúrias e propósito e sente-se deliciosamente viva.  Debruça-se trágica sobre si mesma, sempre empossada da injustiça do mundo que não a reconhece, valoriza, recompensa. Quanta peleja, quantos sacrifícios! Ela crispa os dedos para os céus e faz cobranças infinitas. Joga na cara de Deus seu desamor por ela. Magnífico manjar da autocomiseração. E eu, às vezes me distraio, e me pego hipnotizada pelo seu teatro, quase dando a mão a ela e fazendo coro contra a maldade do universo. Ai vem uma amiga ou duas e me dão umas quinze chacoalhadas, me tacam um balde d’água na cara, me arrastam pra fora da sala de espetáculos. Minha vítima, sem plateia, volta para o breu. Não está morta ainda. Espreita. Sigo vigilante, cercada de mulheres anjos. Ela que morra de fome.
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Para as mulheres que caminham comigo e me resgatam.
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