Ela é o cão

Diana é o cão. Está se lixando para a superioridade humana. Faz o que lhe dá na telha. Imune a adestramentos. Comandos de voz? Palhaçada. Diana é quase um Bull Terrier não fossem os genes daquela mãe vira-lata. Tem algum traço muito mas muito sutil de Border Collie. Nada ligado à capacidade de ir pastorear uma ovelha para seu dono. Aliás, as vontades do seu dono não estão entre as prioridades dela. Baixinha, atarracada, invocada, Diana é um torpedo constantemente apontado para a rua. Mal o portão oferece uma primeira fresta e o míssil preto e branco cruza por ela em velocidade estonteante, inibindo toda e qualquer capacidade de reação do bípede evoluído que atende pelo nome de Homo Sapiens. Já era. O bípede implume está agora obrigado a desistir de adentrar seu domicílio para se lançar ao encalço de Diana. Usar sua pouca agilidade animal e exibir-se para os vizinhos atrás do bólido de pernas curtas mas força muscular ímpar, capaz de protagonizar dribles e escapadas sobrenaturais. Após minutos exaustivos de baile, o bípede de cérebro altamente desenvolvido, no caso eu, começa a praguejar no meio da rua. Senta-se na calçada e enfia a cara entre as mãos, desolado. Diana toda empertigada, orelhas espetadas para as estrelas, flerta comigo de longe. Preocupa-se: quer ir mas não quer que eu sofra. Aproxima-se mais e mais, estaca, deita a cabecinha de lado abismada. Eu, quase não respiro, olho a cadela por entre os dedos das mãos enquanto o cérebro realiza cálculos fundamentais para o ataque: distância do objeto, impulso necessário, superfície de aderência. Diana estática, comovida pelo bicho humano largado na sarjeta. Respiro fundo para alimentar o derradeiro salto rumo ao seu pescoço. Fundo demais. Diana, premonitória, explode numa carreira preventiva para dentro do vazio da noite. Maldigo mil vezes minha fraqueza diante de filhotes fofinhos e enganadores e, aproveitando o rosto entre as mãos, choro feito besta.  
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