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Desfibrilador Portátil

Sentada numa agência dos Correios com uma senha na mão só me resta, na demora da espera, olhar o rosto daquela senhora que aguarda de pé apoiada no balcão. A cara feia da senhora apoiada no balcão. Nela vejo todo o horror de uma vida chata e desgastante. A expressão do desgosto mora ali, naquele rosto. E não foi sempre assim. Ela já foi criança, já foi adolescente. Naquele tempo, mesmo distraída, apoiada num balcão, trazia uma expressão mais leve. Giro meus olhos 180 graus dentro do globo ocular para mim mesma. E me percebo também possuidora de uma expressão dura, tensa. É o meu natural de hoje. Pobre dos desconhecidos na sala dos Correios que cruzarem o olhar acidentalmente com a minha cara.  Perdida em pensamentos quase sempre opressivos, abandonei meu rosto neste esgar infeliz. O outro me olha e confirma sua decepção com o mundo. Minha cara feia alimenta a dele, alimenta a cara do funcionário dos Correios que me atende, alimenta o transeunte que cruza comigo na rua numa corrente viciada de desgosto. E os rostos vão se concretando na expressão infeliz, fidelizando rugas, envenenando a paisagem. Lembro-me de um outro dia, era mais jovem, atravessava uma ponte no meio do delírio urbano de uma grande cidade, e começava a exercitar a expressão alheia e dolorosa. Um homem veio na direção contrária, absoluto desconhecido, se enfiou na minha frente feito uma mosca feliz e soprou baixinho no meu rosto: sorria! Um sorriso largo explodiu na minha cara, incontrolável. Como a corrente elétrica de um desfibrilador cardíaco que traz de volta um moribundo. Contaminei diversas pessoas naquele dia com meu sorriso numa ação fundamental de higienização do cotidiano. Disse amém de novo à aula daquele desconhecido, levantei-me na sala dos Correios e fui até a mulher sorrir para ela. É minha obrigação como ser humano. 
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Comentários

  1. Oi Safo, um excelente 2016 para todos!
    .... principalmente como enfermeira amei mais este seu texto... realmente um sorriso bifásico de 100 à 200 Joules pode tirar qualquer um da uma FV (fibrilação ventricular) ou TV (taquicardia ventricular)!!!! rsrsrs!!!

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    1. Pois é, querida, acho que tá faltando este recurso altamente tecnológico em muito hospital por ai. Beijoca.

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  2. As escolas podían ter mais esse tipo de texto na literatura infantil que esta recheada de merda. Garota,Vc tem o legado de uma salvadora literária na lingua.

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    1. Obrigada Messias. Seu elogio fez diferença em dias cinzas.

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    2. Este comentário foi removido pelo autor.

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