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Celina e Malala

Estou lendo com minha filha de onze anos a história de Malala: menina paquistanesa que levou um tiro na cabeça por insistir que as mulheres tivessem o direito de ir à escola. No começo do livro ela está com a mesma idade de Celina. Vejo o rosto de minha filha endurecer enquanto os olhos deslizam pelas páginas. O lobo mau deixou de ser uma figura pictórica na imaginação: o nome dele é ser humano. Crueldades acontecem no mundo real. Somos nós que as promovemos. Pior, não nos achamos maus como o lobo, atiramos na cabeça de uma criança em nome de Deus. Respiro aliviada de que Celina não tenha nascido no vale do Swat sob a dominação do Talibã. É educada para ser livre, exigir respeito, ser tratada de forma igualitária. Nada no ser mulher a inferioriza ou autoriza contra si qualquer violência. Pode andar vestida como quiser. Pode brincar com meninos. Pode ler. Pode dizer não. Mas agora sabe que há outras Celinas no mundo escravizadas e violentadas pela estupidez dos homens. Meninas que têm o órgão sexual mutilado com laminas frias ou totalmente costurado sem anestesia ou assepsia, que vivem encarceradas em casa, que são entregues ainda crianças para serem esposas de homens velhos em troca de camelos ou como pagamento de dívidas. E não são poucas.  Alimentam estatísticas assombrosas a ponto de a ONU considerar a violência contra mulheres uma das violações de direitos humanos mais presentes no mundo. Celina se vai pensativa após a leitura e volta com o livro todas as noites. Vou de mãos dadas com ela pelo caminho doloroso de outras meninas a quem minha filha está ligada pelo invisível fio da compaixão. Explico que Malala não foi morta pelo Lobo Mau: como nos melhores contos de fada, ela sobreviveu e foi a mais jovem pessoa no mundo a ser coroada com o prêmio Nobel da Paz, feito que princesa alguma passou perto. E nem precisou casar! Celina não sorri. Sabida, entende que Malala tem a ver com ela, e não poderá mais esquecê-la. Daqui pra frente estará ao lado de Malala, cada vez que uma mulher desconhecida, em qualquer parte do mundo, for tocada sem respeito ou ternura.
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Comentários

  1. Respostas
    1. Obrigada por vir Érima e viva elas.

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  2. Lindo texto ! Apesar de todo sofrimento a Malala é um exemplo para todas as meninas e mulheres. Viva a Celina que agora caminha junto com ela.

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    Respostas
    1. Marisa quem escreveu o comentário

      Excluir
    2. Olá querida. Viva nossas meninas!

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  3. Celina enfim, vai se defrontrando com o nosso mundo, mas compreendendo que o seu será muito melhor.
    Maravilhoso texto....e Celina que pode te-lo ao seu lado.
    Bjos
    Vera

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