O fim da geração jeitinho

By Sell Dingo
É difícil criticar um quadro estando dentro dele. Mas, vamos lá: eu pertenço à geração jeitinho. A uma das muitas gerações jeitinho. Fui paulatinamente estragada por um excesso aprendido de condescendência. Tenho amigos médicos, dentistas, motoristas de ônibus, publicitários, atores... nascidos e criados na cultura do jeitinho. Crescidos na catequese implacável do jeito correto de fazer as coisas, mas ouvindo, lá no fundo, o canto da sereia do jeitinho. Em caso de deslize extremo, complexo, ele estaria lá, sempre à mão e eu sempre soube: o jeitinho. Pra tudo existe um: eu me tranquilizava. O “não” é um troço elástico, manipulável. Depende de quem eu sou, quem eu conheço, da minha patente, de quanto eu tenho, do meu cargo. Sou da geração que endossa privilégios, focada em me tornar um dos privilegiados e não em acabar com eles. Tentando um emprego público para me acomodar, não para servir ao público. Olhando o serviço público com a lente distorcida do privilégio. O salário caiu na conta? O público que se exploda. E, no fundo, acho esses japoneses uns chatos... Com este excesso de correção... Esses certinhos. Eu tenho jogo de cintura, malemolência, gingado, sei driblar no bom e no mau sentido, passar pela lateral. É difícil criticar um quadro estando dentro dele. Mas, quero tentar: eu apodreci um pouco na condescendência e me tornei conivente de uns contraventores grandes. Eles dão jeitinho roubando bilhões, matando gente. Eles acham normal e dizem: somos iguais, só as proporções são diferentes, somos da geração jeitinho amigo, já era! Mas, parece que vêm uns caras novos com ideias novas por ai. Dizendo que o crime não compensa, mesmo se você for juiz ou presidente da república. Dizendo que honestidade, e não o jeitinho, é o melhor negócio pra todo mundo e faz um país crescer, atrair investimentos, gerar riqueza. Parece que estão começando algo grande. Nós, da geração jeitinho, olhamos desconfiados pra eles. Somos treinados desde pequenos para desconfiar. Perdemos um tempo precioso nisto. E somos muitos. Mas estamos de passagem. Dizem que eles irão, aos poucos, nos substituindo. E eu olho pros meus filhos pequenos com uma ponta de esperança e fico feliz demais de acabar. 
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Queridos seguidores, estou demorando mais a postar porque está faltando eu pra tantas demandas, entre elas, divulgar os livros. A cada quinze ou vinte dias estarei aqui. Obrigada por estarem comigo.
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Comentários

  1. Queria ter aquelas palminhas aqui pra aplaudir seu texto. Que texto ótimo! Venha quando der, bom demais ler o que vc escreve.é

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    1. Erima, tenho tentado vir mais mas a vida está louca. Obrigada!

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  2. Delicia de se ler... verdades a se constatar! Tempos novos estão por chegar. Que seja muito em breve. Haveremos de presenciar todas as mudanças!

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    1. Isso! O importante é apostar na luz. Obrigada por vir.

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