Pensar é Uma Merda

Pensar é uma merda. Eu nasci com esse vício. Tenho o pensador hipertrofiado. Resisto em pensar rasinho e tem horas que a gente precisa ser mais poça e menos oceano. Porque consciência desgasta, cansa. Descubro que seres pensantes ficam mais chatos com o passar do tempo. Incomodados.  Constantemente incomodada, às vezes não me conformo só em pensar e atuo. Vou lá e pego o maço de cigarros amassado que o deficiente social jogou pela janela do carro e jogo de novo dentro do carro dele. Marco presença no Procon.  Nem me gasto mais em aporrinhações do telemarketing estúpido das empresas ou nas pseudo-assistências técnicas feitas para distrair o consumidor. Não funciona direito? Puxo a faca, meto a boca, parto pra cima, devolvo. Faço “shhhhhhhhhhh” no cinema e interrompo o matraquear feliz de casais que transformam o espaço público em extensão de sua sala de estar. Tenho alergia a mau atendimento: gente sem humor, com cara de cu, que ganha mal e não dorme direito, passe longe ou tome chumbo. Reclamo alto no meio da loja e interrompo a inércia da atendente grossa que repassa sua infelicidade.  Chamo o gerente da livraria moderna e descolada e mostro sua empregada anacronicamente desperdiçando água na calçada. Discordo no meio do consenso. Rodriguianamente, desconfio das unanimidades, ponho ventilador na farofa da maioria satisfeita com perguntas desconcertantes. Cutuco o que estava quieto em mim e no outro e desarrumo o status quo. E provoco fúrias que podem me prejudicar.   Sofro as represálias do mundo que detesta ser acordado de sua toada hipnótica e irreflexiva. E descubro que é caro ser livre. Mais barato, acatar, ou pelo menos, calar, se disfarçar de acomodado. E então penso porque pensar tanto, porque não deixar rolar, deixar ir, me calar mais, seguir em paz com a manada pisando nos meus calcanhares.  Honestamente eu queria, muitas vezes cansada e chorando feito uma bezerra desmamada em cima do teclado deste computador, eu queria. Mas não tenho mais o controle que desliga esta cabeça, nem a linha e a agulha de costurar olhos e boca e, entre meus dois ouvidos, um cérebro boiando em consciência não deixa as palavras passarem impunemente de um lado a outro. É uma merda, repito, estou irremediavelmente condenada ao choque. Mas, não fosse isto, nunca teria escrito uma linha aqui.
*
*
*

Comentários

  1. Nanna querida,
    Se consolar saber que vc não é a única... Bjs

    ResponderExcluir
  2. Nanna, toda vez que leio um texto seu sinto a mesma necessidade de agradecer pela sintese que levaria muito tempo para alcançar sozinho. Vc nao é o cara, vc é o mestre, obrigadoo!! HG

    ResponderExcluir
  3. "Cada um sai a dor e a delícia de ser o que é"

    ResponderExcluir
  4. humm, dois textos sobre a mesma coisa num curto espaço de tempo! tá em crise??? (rs)
    mas esse desmente o outro né!? nesse vc se entrega! assume que não deixa passar nada, que ainda acredita, por algum motivo, que tem que se manifestar!!!
    ...eu não acredito mais, eu não acho mais isso um mérito, juro! eu me sinto mal depois que xingo a atendente mal humorada... não quero mais agredir, quero ser exemplo! mas não consigo! ainda não consigo!
    hoje vi dois trombadões arrancando bolsas e celulares de um casalzinho nerdi que andava pela rua com uniformes de escola, no horário do almoço, eles foram agredidos bem na minha frente e eu fiquei olhando... aí eles saíram andando e o casalzinho continuou seu percurso, como se nada tivesse acontecido... e eu me senti um lixo por não ser capaz de fazer qq coisa... não acho essa agressão diferente da que eu sofro quando ligo para um SAC qq pra reclamar de uma coisa qq... na verdade, me sinto mais agredida pelo gerente do meu banco que é grosso e ineficiente do que pelo assaltante que leva o meu dinheiro, o assaltante tem a desculpa de ser uma vítima social, já o gerente, é uma besta mesmo... mas não me sinto mais motivada a gritar, xingar, reclamar... fico pensando em como ser exemplar, em como não me render à violência de que sou vítima, em como não me tornar também uma agressora, em como chocar os agressores com um golpe de afeto, absolutamente inesperado e incoerente com a violência sofrida!

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Não tem conta Google? Assine, clique em ANÔNIMO e em PUBLICAR. É fácil! Bjooo.

Postagens mais visitadas deste blog

Amar não basta

Para o meu fantasma

Estranha Paz