28.3.11

Paulete

Este final de semana fui atropelada por Paulete: um travesti. Era pra ser Paulinho, candidato à vaga de folguista, substituto temporário para minha empregada, onze anos de referência trabalhando em casa de família no Maranhão. Eu sou moderna, psicanalisada. Posso encarar um empregado gay de nome Paulinho.  Não era. Parei o carro na rua do metrô onde fiquei de buscar Paulinho e Paulete entrou na minha vida. Meio assustada. Paulinho era quase uma menina, não fossem os braços musculosos e as maçãs do rosto muito agressivas, os pés e as mãos grandes e brutas. A voz pequena e frágil saia destoante daquele corpo rígido de índio maranhense. Unhas feitas, cabelos  chanel com reflexos aloirados, roupas coladas e uma sandalinha amarela cheia de delicadeza. Eu atarracada ao volante, pisando no acelerador e tentando desviar daquele medo que zanzava na minha frente. Não dava pra recusar Paulete, largá-la ali no meio da rua e dizer: não dou conta. Fui levando o carro devagar em direção à minha casa, tentando me recompor do impacto. Pensei nos meus três filhos de seis anos, no velho pai mineiro que por acaso estava em minha casa, no meu irmão que vinha chegando também de Minas com a esposa, e fui me debatendo ao lado de Paulete contra meu intenso e desconhecido preconceito. Tudo bem que travestis existam, mas não no quadrado sagrado do meu lar.  Paulete sentada no banco do carona do meu carro com sua bolsinha no colo era uma excrescência. E eu sequer conseguia ser honesta comigo e com ela, dar meia volta e devolvê-la ao metrô.  Engrossar-lhe o caldo da rejeição. Levei Paulete para casa como um piloto do Enola Gay carregando a bomba atômica. De tanto atordoamento, entrei em modo automático e fui desfiando para ela a cartilha que rezo para toda nova empregada.  Como se assim pudesse transformar Paulete, travesti maranhense, em apenas mais uma. E ela ali, bicho do mato, me olhando meio oblíqua, se esforçando para fazer parte do quadro, querendo ficar. Decidi deixar que o meu mundo resolvesse Paulete.  Meti a chave no portão de casa e abri. Um final de semana se estendeu feito tapete vermelho à sua frente. Ela foi entrando com a gana de quem sabe pelejar pela aceitação.  Não deixou um grão de poeira intacto. Insatisfeita com o piso, os vidros, as paredes, as louças, a comida, as roupas, avançou para o jardim. Simpática, educada, dedicada, carinhosa, eficiente, Paulete foi me deixando cada vez mais nua com meu incômodo vazio, minha dificuldade de lidar com o diferente, meus padrões duros e refratários. Quando ela se foi, meu velho pai que havia se debatido durante um longo dia contra aquela figura estranha  virou-se pra mim e disse: legal esse tal de Paulete. Eu fiquei aqui pensando que  a vida é generosa comigo: não me deixa acomodar no conforto das minhas certezas prontas.  Vou aos poucos me acostumando com ela, o medo e o preconceito ainda existem num cantinho da alma, feito sujeira entranhada entre ajulejos, que Paulete não irá poupar.
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13 comentários:

  1. Super texto !! Adorei, queridona ! Parabéns !!! E aos poucos vamos encarando essas situações com menos preconceito...
    bjoooo

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  2. Era intencional me fazer marejar os olhos?

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  3. Adorei. Principalmente porque deixou uma simples, mas verdadeira pergunta no ar: quando é que vamos limpar essa "sujeira" que existe em cada um de nós?

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  4. Puta merda, ser amigo é isso. Paulete entra pela porta da casa dela, insatisfeita com tudo, colocando no lugar um monte de coisas... e quando sai, deixando um monte de coisas limpas, no lugar devido e até mesmo o conceito no lugar certo, a Nanna, toda mineira, toda poetisa, entra em nossa vida, em nossa casa e tira tudo do lugar, deixando a gente com o choro na garganta, o olhar marejado e o coração meio que dilacerado. Nas graças a Deus, a própria Nanna, ou melhor Safo, nos mostra que existe esperanças e que poderemos também jogar fora um monte de lixo, permitindo que Pauletes outras possam, insatisfeitas, adentrarem nossas casas, jardins, vidas e, antes de sairem, deixarem tudo no lugar certo!

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  5. nanna,
    já me utilizei de alguns de seus textos para falar com amigos.
    aquele que fala das armadilhas para encontrar com amigos antigos é uma delicia de ler.
    enviei para alguns, como um convite para almoço, café, enfim, um pretexto para a gente falar das nossas distâncias.
    tenho tentado encontrar com essas pessoas que me fazem bem de algum jeito.
    este sobre a paulete é muito legal. seus amigos que postaram no blog tem razão. é de marejar os olhos.
    era isso.
    beijo,
    lina

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  6. Glenda Gonçalves CardosoApr 1, 2011 07:18 AM

    Tia o vovô acabou de sair da minha casa e me relatou a história de Paulete, do seu jeito e ponto de visata é claro! Mas para minha surpresa não havia um ar preconceituoso e sim de surpresa. Talvez por sua própria incredulidade em seus sentimentos diante deste episódio inusitado. Fiquei emocionada ao ler seu texto e perceber como escondemos em algum lugar que julgamos inatingível nossas certezas presunçosas que nos tornam tão preconceituosos. amei a forma leve que você tratou o assunto. Minha adimiração pela escritora Nanna é cada dia maior e pela Tia, ah... nem se fala!
    Continue nos presentendo com estes textos que possuem tanta verdade e transparecem sua alma. Beijo

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  7. Hoje reli Paulete,precisava de inspiração, companhia, que bom não me sentir sozinha nesse mundo tão entrannhado de ideias preconcebidas. Já li várias apologias em relação à homofobia, mas pegá-la pelo chifre, tenter domár-lhe a estranheza e, depois assumi-la, é algo não apenas inusitado, mas também fruto de uma alma sublimee muito HUMANA. Divida sempre conosco essas verdades, pois desde então, sempre que ouço algum ego inflado discursando sobre o que desconhece ou esconde embaixo do tapete digo: Vai ler Paulete, e depois vem falar comigo. Beijo, tia !!!

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  8. não resisti, li mais um... meu deus, estou viciada nos seus textos! a vida é generosa com vc e com os leitores do seu blogue, que colocam diante da sua incrível capacidade de simbolizar em palavras poéticas os acontecimentos mais simples, que dirá de coisas como este inusitado acontecimento!
    fico com o comentário do chico, acima, também estou com as lágrimas já escorrendo! e já compartilhei esse com os amigos!

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