Pular para o conteúdo principal

Esperando

Estou aqui sentada esperando Safo, mas ela não vem. Resolvi provocá-la com palavras iscas e tentar arrancá-la do profundo onde mora e de onde sai quando cisma, feito baleia que salta maravilhosamente assustadora na frente do nosso barco.  Mas ela não vem. Então sinto-me só e pálida, dona de frases vulgares e uma preguiça mortal de escrever. Porque Safo é aquela parte visceral e espontânea que carregamos, eu e você, e não vem feito cachorrinho quando a gente chama. Pior se você chama alto, porque é mais fácil que ela venha no silêncio, e silêncio a gente desaprendeu. Cala-se a boca mas não cala-se a mente que abarrota nosso eu de coisas miseravelmente conhecidas e supostamente seguras. E Safo, penso, está cansada de minhas mesmas coisinhas de todo dia com as quais preencho obsessivamente meus espaços onde ela mora. Quando foi mesmo que saí do gráfico, chutei um balde, tomei um porre, fui sem avisar, não fui sem avisar, roubei um beijo, cometi uma gafe, andei na chuva, passei da conta, pedi desculpas, mandei à merda... Nada, vou me cercando de estruturas sólidas e sem poros. Vou cimentando tudo de certezas. E Safo cansou de procurar as bocas, cada vez mais raras, de vulcão que me inundam de lava, me destroem e depois me fazem ver nascerem nas costas, em cócegas deliciosas, brotos de plantas estranhas. Está lá boiando no meu magma interno, surda. Eu aqui, feito um autômato, cumprindo metas. Esperando que ela tenha pena e se atire sobre mim na forma de um ataque de riso... ou de choro, não importa. Mas talvez não seja nada disso. Safo não é punitiva. Talvez tenha apenas ido buscar no divino umas picaretas para me salvar. E já esteja chegando. Esta parte em mim, em nós, que de nós não desiste. Que nos ama. Sim, lá vem ela finalmente: rola pelo meu rosto e se espatifa no teclado.
*
*
*

Comentários

  1. que bom que ela bem chegando... temos um prazo que nos esmaga...rsrs

    ResponderExcluir
  2. Cara amiga, acabei de assistir um documentário sobre o Charles Bukowski - na TV Cultura, maravilhoso. O documentário termina com um poema dele, algo que diz - que existe um pássaro azul dentro dele, e ele não deixa sair... por que ele (o pássaro) talvez queira fuder ele, apesar disso, ele o Bukowski, não o deixa morrer..pois o mantém, mas ele sabe que ele existe... e está ali. Coincidentemente sua crônica me lembrou isso... taí um link sobre http://www.pensador.info/frase/NTMxNjE3/

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Não tem conta Google? Assine, clique em ANÔNIMO e em PUBLICAR. É fácil! Bjooo.

Postagens mais visitadas deste blog

Amar não basta

Amar não basta. Gravo a mensagem no whatsapp e envio para a amiga. É uma faca no estômago, eu sei. Tantas pessoas se separam se amando. Eu mesma já fui embora arrastando o coração pelos cabelos umas duas vezes. Doloroso demais. Cruel demais. Mas acontece de as possibilidades se esgotarem, de fato. Acontece de precisarmos estar sós naquele trecho da estrada. Acontecem estradas diferentes com interseções que nunca mais se repetem.  Acontece de a dor ficar insuportável. E então a morte se impõe, mas nem sempre a aceitamos de pronto. Acontece de, primeiro, tentarmos blefar o adeus. Vivenciar o fim com a certeza de que o navio não deixou o porto. Ir sem ir. Começa o vai e vem sofrido: separa e uiva de dor, volta e uiva de prazer. Nada como voltar do fim: uma bomba de serotonina. Mas a volta não é inteira, não é a que planejávamos, e logo a falta se apresenta, e a dor retoma o palco e ensaia um novo adeus. Amar não basta, amiga. É preciso amar-se junto. Senão o outro vira eterna ameaça de …

Estranha Paz

Ah, esta paz de me sentir só que dá até medo. Estou sentada no restaurante, indecentemente só. Não pertenço a nenhum quadro. Nenhuma moldura me contém. Não sou sua mãe, sua esposa, sua amante, sua amiga. Sou folha seca na ventania lindamente desgovernada. Que medo de enlouquecer e sair vagando pela rua. Largar o carro. Ir andando até uma rodoviária. Comprar uma passagem para o nada. Virar pessoa desaparecida, forasteira, perder as referências, escafeder, sumir do mapa. Todos viajaram. Faz uns dias que estou só. Devolvida à minha pureza sem demandas. Sem idade, sem rugas, sem pressa, sem expectativas. Este prazer na solidão que me assusta. Só eu no restaurante atrás de uma caneca de chope. Um cara no piano tocando jazz. E não falta nada. Meu Deus, preciso confessar e é terrível: não falta absolutamente nada.  * * *

O fim da geração jeitinho

É difícil criticar um quadro estando dentro dele. Mas, vamos lá: eu pertenço à geração jeitinho. A uma das muitas gerações jeitinho. Fui paulatinamente estragada por um excesso aprendido de condescendência. Tenho amigos médicos, dentistas, motoristas de ônibus, publicitários, atores... nascidos e criados na cultura do jeitinho. Crescidos na catequese implacável do jeito correto de fazer as coisas, mas ouvindo, lá no fundo, o canto da sereia do jeitinho. Em caso de deslize extremo, complexo, ele estaria lá, sempre à mão e eu sempre soube: o jeitinho. Pra tudo existe um: eu me tranquilizava. O “não” é um troço elástico, manipulável. Depende de quem eu sou, quem eu conheço, da minha patente, de quanto eu tenho, do meu cargo. Sou da geração que endossa privilégios, focada em me tornar um dos privilegiados e não em acabar com eles. Tentando um emprego público para me acomodar, não para servir ao público. Olhando o serviço público com a lente distorcida do privilégio. O salário caiu na con…