Às compras?

Preciso comprar umas coisas. Umas coisas essenciais na minha vida como um outro celular. Sim, este que tenho está arranhado no visor, uma lástima. Sempre que vou atender e olho para o arranhão no visor, percebo o quanto sou infeliz e o quanto preciso comprar alguma coisa do tipo um celular talvez ou qualquer outra coisa. Abro um site borbulhante de produtos e fico ali escolhendo uma droga que me anestesie por um dia ou dois. A chatérrima voz da sanidade me incomoda com suas reflexões ponderadas que informam quanto é minúsculo o arranhão no meu celular. Espanto estas vozes-moscas com a mão. Tiro meu cartão de crédito da carteira, como se fosse uma seringa cheia, e sinto nas células o frisson antes da picada. Alguns toques no teclado e lá se vão meus dados atrás da droga. Estico bem o braço e afundo a agulha do consumismo até o osso. Submirjo no delírio da compensação. Agora posso voltar ao trabalho e ficar lá mais tempo do que quero, aceitando mais do que posso, afinal, em uma semana, terei um novo celular ultramoderno. Que não será suficiente para alguém que queria a lua, o amor, um novo livro de poesia, uma volta com o cachorro, mil dedos de prosa, o abraço apertado de não sei quem, ou apenas um silêncio. Mas não importa: a evolução dos celulares será infinita.
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Comentários

  1. Amei ler mais um pouco do que você escreve. Sempre barbaramente irônica e feliz. Bj, Guga.

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  2. Falando nisso, comprei um novo. Fui obrigado, ele recebia e fazia chamadas, mas não tocava a campainha. Uma pena, era quase novo. Tinha só uns dez anos. Achei que devia lhe contar. bj

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  3. Menina, vamos montar um associação das pequenas loucuras de uma mulher, que se transformam em juros, cheque especial, raiva, comida , e o cacete a quatro, tudo por conta de "eu mereço, vai..."

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