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Um Novo Dia

Na virada de meio século, a alma me convida a ser humilde e me apresenta outro quarto para limpar. Entulhado de vaidades, reis tirânicos, súditos hipócritas acovardados. Todos sou eu. Na virada dos cinquenta é bom já ter aprendido a decifrar a linguagem da alma. Ela fala enquanto lambe as feridas e as cicatriza. Na imaturidade, eu amaldiçoava o outro, aos cinquenta aprendi, me procuro nele. A alma fala comigo através das escolhas que faço. As mais injustificáveis são as mais cheias de significado. Lá onde não faz sentido estar, lá está todo o sentido. Na virada de um século, quando acho que vou ganhar diploma de gente, a alma me abre outro quartinho cheio de entulhos. Alma obstinada, não quer deixar nada pendurado para uma encarnação futura. Não me poupa. Não me autoriza a descansar sobre o travesseiro morno de uma alienação. Nem mesmo aos cinquenta. Encho o balde de água, me armo com caixas de papelão vazias, sacos pretos de lixo, diante da porta aberta do quartinho. Lá dentro o ego há de resistir, agarrado aos seus brinquedos. Esperneando. Como sempre. Avanço, amorosa, porta adentro. Não quero arrancar mais dele as muletas. Não quero impor a ele a violência do meu profundo, como sempre fiz. Devagar... a alma me sopra... amorosamente, diz. Deslizo os dedos sobre a capa tosca de poder que enfeita o meu ego e desamarro a fita que a prende ao seu pescoço. O pano roto e imundo cai feito chumbo e desveste a pele fina, insuficiente, que dói ao primeiro beijo de um raio de sol. Ainda não é felicidade, mas será. Depois virão outros tesouros do ego que, à luz do sol, se mostrarão como ingênuos pedaços de vidro colorido. Juntaremos todo o desnecessário e deixaremos ir com o rio. E então uma felicidade tímida se apresentará. Sem pretensões infladas, mas pacífica e inteira. Enquanto um horizonte púrpura me avisará do parto divino de um novo dia.
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