Dois tiros

O tiro acertou-lhe em cheio o coração, disseram. E ela caiu de costas no chão: apaixonada. Respirou fundo e, com dificuldade, se levantou. O sangue escorrendo sobre o seio esquerdo e o mamilo eriçado. Tentou caminhar com as pernas trêmulas para longe do homem. Quem sabe se, numa felicidade imprevista, tivesse o coração equivocadamente nascido do outro lado? Ele apontou de novo e atirou. Uma única palavra de carinho, banal, despretensiosa, cruzou o espaço como um bólido e se arrebentou contra a omoplata dela acertando o músculo cardíaco por trás. Caiu de novo, hemorrágica. O homem virou-se de costas, distraído pelo destino e sumiu. Ela foi entregando o corpo dentro do lago quente, vermelho, outra Ofélia. Disseram que seu sangue tornou rubra toda a paisagem feito por de sol. E que seu coração cicatrizou acolhendo as duas balas como mensageiras. E ainda pulsa. Descompassado mas inteiro. Disseram e eu acredito.
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Para a amiga que faz, do amor, escola. 
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