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Malditos intelectuais donos de boteco

Intelectual não devia ser dono de boteco. Gente pós-graduada em filosofia, psicanálise... Gente que conversa fazendo citação. Deviam proibir. Que vá dar aula. Você sentou-se num daqueles cantos inexpugnáveis do arranjo infinito de mesas emendadas pelos amigos e, para evitar tumulto, segurou ao décimo chope aquela vontade de esvaziar a bexiga. Está no limite. Depois de uns quinze “com licença” e de se esgueirar entre encostos de cadeiras e a parede espremendo ainda mais o líquido incômodo em seu abdome, você consegue enfim se lançar desesperadamente rumo à porta do banheiro. Chegando lá, dois hieróglifos de uma ancestral civilização que ocupou a península escandinava no século II antes de Cristo pretendem traduzir de forma inteligente e sofisticada as palavras “feminino” e “masculino”. Podem ser também dois quadros abstratos de um artista minimalista, um deles com um traço reto e outro com uma forma arredondada, baseados claramente em algum estudo antropológico das tendências artísticas de machos e fêmeas da espécie humana publicado numa revista científica de nome impronunciável... Tragédia! Horror!! Você está literalmente segurando com o dedo um furo na barragem de Itaipu. Você está suando frio. Você está no limiar da sua capacidade de raciocínio e provavelmente bêbada, afinal de contas, está num boteco e não na Universidade de Paris. Paralisada diante de duas portas trancadas pela sua própria ignorância.  Esta era eu numa destas sextas feiras à noite em que buscamos afogar terminantemente nossa capacidade de pensar em alguma substância alcoólica. Imbuída de uma enorme fé na capacidade de compreensão e perdão dos demais embriagados do local, meti a mão em qualquer porta e entrei. Um homem me olhou com cara de piedade, sorriu amarelo e mastigou enquanto saia: sou engenheiro. Viva a cartolinha e a luva! Viva o Elvis e a Marilyn! Abaixo os intelectuais donos de boteco!
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Comentários

  1. Amei! Se é para separar por gênero, que seja as claras!

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    Respostas
    1. É isso Érima. Já estamos bem confusos. KKKK

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