Pular para o conteúdo principal

Não queira me mudar!

Não queira me mudar. Disse o homem com firmeza. Sou quem sou. Também acho uma estupidez erguer qualquer relacionamento na expectativa de mudar o outro. O homem tem meia razão, embora eu não quisesse mudá-lo. Querer mudar o outro, para mim, está entre a absoluta falta de humildade e a total perda de tempo. Mudar o outro acontece, mas não como um propósito. Sei que serei um espelho e o homem talvez mude por vontade própria porque é natural das relações verdadeiras, transformar as pessoas. A mim, basta existir com integridade, com verdade, sem muitas querências em relação ao planeta insondável do outro.  Tive a chance de ser terapeuta e desisti. Não sou tão altruísta a ponto de me dedicar a mudar quem quer que seja. Mas tive vontade de dizer ao homem: vai mudar, criatura! Qual o problema? Pra que tanto apego ao que se é ou parece ser? Escolhemos pessoas espelho quando alguém em nós quer mudar. Escolhemos pessoas foscas quando queremos a paz da inércia. Pessoas espelhos devolvem a nós tudo que é reflexo e não relação. Isto é seu, isto é meu, aquilo é nosso.  Sem medo de nos machucar, pois não é seu objetivo. Apenas preservam o hábito saudável de não se misturar às nossas loucuras. E eu não quero mudar o homem, mas sei que serei seu espelho então... pode ser que mude. Não dependo disso e não espero mais nada mesmo quando quero muito. Aprendizado de mosca que um dia girou em torno de uma lâmpada.  Eu gasto meu tempo cuidando do meu jardim e ofereço mudas de flores aos interessados, mas respeito quem azulejou todo o chão. Não preciso que o homem goste de jardim. Ao homem darei o que ele puder levar sem cobrança. Sem cheque caução. E não creio que ele entenda. Se debate agarrado ao seu valioso eu que é o que é: pobre líquido congelado. Receoso de derreter-se no contato humano e seguir menos certo de si, mais fluido e mais feliz. 
*
*
*

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Amar não basta

Amar não basta. Gravo a mensagem no whatsapp e envio para a amiga. É uma faca no estômago, eu sei. Tantas pessoas se separam se amando. Eu mesma já fui embora arrastando o coração pelos cabelos umas duas vezes. Doloroso demais. Cruel demais. Mas acontece de as possibilidades se esgotarem, de fato. Acontece de precisarmos estar sós naquele trecho da estrada. Acontecem estradas diferentes com interseções que nunca mais se repetem.  Acontece de a dor ficar insuportável. E então a morte se impõe, mas nem sempre a aceitamos de pronto. Acontece de, primeiro, tentarmos blefar o adeus. Vivenciar o fim com a certeza de que o navio não deixou o porto. Ir sem ir. Começa o vai e vem sofrido: separa e uiva de dor, volta e uiva de prazer. Nada como voltar do fim: uma bomba de serotonina. Mas a volta não é inteira, não é a que planejávamos, e logo a falta se apresenta, e a dor retoma o palco e ensaia um novo adeus. Amar não basta, amiga. É preciso amar-se junto. Senão o outro vira eterna ameaça de …

Estranha Paz

Ah, esta paz de me sentir só que dá até medo. Estou sentada no restaurante, indecentemente só. Não pertenço a nenhum quadro. Nenhuma moldura me contém. Não sou sua mãe, sua esposa, sua amante, sua amiga. Sou folha seca na ventania lindamente desgovernada. Que medo de enlouquecer e sair vagando pela rua. Largar o carro. Ir andando até uma rodoviária. Comprar uma passagem para o nada. Virar pessoa desaparecida, forasteira, perder as referências, escafeder, sumir do mapa. Todos viajaram. Faz uns dias que estou só. Devolvida à minha pureza sem demandas. Sem idade, sem rugas, sem pressa, sem expectativas. Este prazer na solidão que me assusta. Só eu no restaurante atrás de uma caneca de chope. Um cara no piano tocando jazz. E não falta nada. Meu Deus, preciso confessar e é terrível: não falta absolutamente nada.  * * *

O fim da geração jeitinho

É difícil criticar um quadro estando dentro dele. Mas, vamos lá: eu pertenço à geração jeitinho. A uma das muitas gerações jeitinho. Fui paulatinamente estragada por um excesso aprendido de condescendência. Tenho amigos médicos, dentistas, motoristas de ônibus, publicitários, atores... nascidos e criados na cultura do jeitinho. Crescidos na catequese implacável do jeito correto de fazer as coisas, mas ouvindo, lá no fundo, o canto da sereia do jeitinho. Em caso de deslize extremo, complexo, ele estaria lá, sempre à mão e eu sempre soube: o jeitinho. Pra tudo existe um: eu me tranquilizava. O “não” é um troço elástico, manipulável. Depende de quem eu sou, quem eu conheço, da minha patente, de quanto eu tenho, do meu cargo. Sou da geração que endossa privilégios, focada em me tornar um dos privilegiados e não em acabar com eles. Tentando um emprego público para me acomodar, não para servir ao público. Olhando o serviço público com a lente distorcida do privilégio. O salário caiu na con…