Inquebrável

Minha autoestima é conquistada, pelejada, esculpida em alabastro, anos a fio. Minha autoestima não é fake, não é meu orgulho travestido, não é make-up do meu ego. Bate. Provoca. Minha autoestima não vai se retirar. Mesmo quando corre na espinha o calafrio imemorial do abandono, não solto mais minha mão. Não entro no jogo do desamor. Retorno a mim, ao meu farol intenso, onde trabalhei duro limpando engrenagens, lâmpadas, recuperando peças quebradas. Não me perco mais nas suas tempestades. Vejo seu Netuno colérico, surtado, surdo, esparramado sobre o palco. Cachorro ferido, impossível de ser tocado pelo amor. Repudiando com dentadas todo gesto de carinho. Retiro-me desta plateia. Saio sem alarde pelos fundos. Deixo seu espetáculo para aqueles que gozam nas suas porradas. E há muitos. Você sabe. Vivem à sua volta lambendo seu chicote e alimentando seu Deus criança que tudo quer e tudo pode.  Desfilam de torso nu para exibir os vergões avermelhados como prova de que desfrutam um lugar ao seu lado. Tatuagens de uma resiliência estéril que não revida e alimenta o cordão do medo. Você mostra os dentes, eu baixo a cabeça e me calo. Não é receio ou reverência, estou apenas olhando para o meu coração, me conectando a ele. E deixo sua sala rumo ao meu jardim. Gesto singelo duramente conquistado. Lá uma mulher me espera firme, serena, sob um feixe de sol morno, com um abraço longo e medicinal. O caminho que me leva até ela, a obra mais cara da minha vida. E volto para você mais tarde, braços abertos, empoderada pelo amor, gigante, inquebrável.
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