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Escuta, Zé Ninguém

Escuta, Zé Ninguém, vamos deixar combinado: não te diremos nunca a verdade. Vamos te enganar todos os dias da sua vida, para o seu bem. Por que você, Zé Ninguém, não sabe mesmo lidar com a verdade. Faltam na sua mala as ferramentas básicas para lapidar a verdade e transformá-la em diamante. Então, a verdade pra você, Zé Ninguém, é só uma pedra no sapato. E nós aprendemos a lidar contigo. Regra primeira e intocável: minta. Diga ao Zé Ninguém o que ele quer ouvir. Diga que existe o mal e o bem e ele está do lado certo. Diga o confortável. Nuances incomodam. Exigem pensar. Dê ao Zé Ninguém uma bola e dois times, diga que basta ganhar e deixem-no extravasar suas muitas frustrações neste jogo. Ele berra, chuta o torcedor adversário, cospe, picha a ciclovia... Enquanto isso, se distrai e nós andamos. Segunda regra: não seja autêntico. Invista numa bela fachada e finja por algum tempo em frente às câmeras, no palanque, diga o que ele quer ouvir, nunca o que ele precisa. Não é assim, Zé Ninguém? Você então vai pra casa, saciado emocionalmente. A casa pendurada num morro que irá desabar mais cedo ou mais tarde. Mas você só quer a saciedade daquele dia. Falar de abnegação, de concessão, do inevitável sacrifício que o momento exige, que a transformação profunda e real exige? Nós não seremos estúpidos de fazê-lo. Melhor seguir te comprando com espelhinhos e outros cacos brilhantes onde você se olha tanto e não se vê. Por que você prefere o engano da saída fácil, o Salvador da vez e, principalmente, que eu não te diga a verdade. E aprendi. Aprendemos. Sussurramos aos nossos pares no escuro: precisamos enganar o Zé Ninguém, para seu próprio bem, para conduzi-lo ao curral mais limpo, mais moderno, mais rentável. O curral dos bons. E não gostamos realmente de você, Zé Ninguém. Como gostar de um hipócrita que negocia conosco tantos e seguidos simulacros?  Um analfabeto político, raso, movido por filosofias pueris, totalmente alheio às engrenagens perversas que realmente movem sua vida? Você, Zé, é só nosso alienado útil. Menos que um bicho de estimação, porque, pode acreditar, nós amamos nosso cachorro. E sabe por que estamos escrevendo isto aqui, Zé Ninguém? Porque você não vai ler. Estamos tão à vontade montados nas suas costas que nos damos ao luxo de nos expor publicamente. Sabe aquelas frases longas que você escreve em cartazes que ergue nas ruas? Você se esquecerá delas quando te dermos mais uma ampola de anestesia. Então toma, Zé Ninguém. Não é a verdade incômoda, é mais uma dose potente de morfina. Injeta direto no pescoço, numa veia bem grossa.  Te daremos mais uns anos de conforto no caos, de paz na gaveta da Matrix. E perdoa a distração de termos deixado cair a cortina por uns tempos te jogando a maldita realidade na cara . Vamos te compensar, fica tranquilo, e vamos até trocar a cortina por outra mais bonita. 
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Inspirado no livro “Escuta, Zé Ninguém” de Wilhelm Reich.
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