Meu Monstro

Meu monstro não vai mais brincar com o seu. Ele, às vezes, até quer fazer o joguinho do taca bosta um no outro com seu monstro. Ele olha saudoso para as próprias feridas obsessivamente descascadas e diz não. E volta pra dentro de casa. Por que aqui dentro ele tem pai, mãe e irmãos que o abraçam. Eles o aceitam, não querem mais eliminá-lo. Entenderam sua função, suas razões, negociaram com ele. Por isso, meu monstro topa não ir brincar de quebra-quebra com o seu. Não, ele não ficou bonzinho e ainda é capaz de coisas terríveis. Ele ainda quer alimentar o fluxo neurótico das relações. Mas prefere o meu abraço às suas porradas. Já não corre na minha frente, feito cachorro medroso mordendo todo mundo. Estremece, balança, mas fica. Não deixou de ser a minha sombra, mas me ensinou que na sombra também posso descansar. Infelizmente seu monstro não irá brincar só. Há tantos outros prontos para revidar o seu golpe, amargar a sua ingratidão, vitimar-se sob a sua total falta de sensibilidade. Pode lançar sua bolinha de pingue-pongue para o lado de lá da rede: alguém vai rebater. E vocês dois irão, certamente, se consumir num êxtase sadomasoquista. Nós não. Estaremos sentados à beira de um abismo onde, de vez em quando, um vagalume pisca: eu maravilhada pela grandiosidade da escuridão e meu monstro com a cabeça no meu colo.
*
*
*

Comentários

  1. Foda... Você é muito boa. Não me canso de dizer isso. Tão tocada com a profundidade desse texto, nossa!

    ResponderExcluir
  2. Sa, eu sinto de verdade que estes textos não são só meus. Eu tbem me assusto com eles, às vezes. Rsrsrs. Obrigada por vir. Saudade!

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Não tem conta Google? Assine, clique em ANÔNIMO e em PUBLICAR. É fácil! Bjooo.

Postagens mais visitadas deste blog

Amar não basta

Para o meu fantasma

Estranha Paz