No que havia

Estou confortável dentro de mim. Pelo menos por agora não há faltas ou sobras me tirando o sono. A dança multicolorida das chamas da fogueira não seduz mais minha borboleta. Era a morte? A glória? Não busco mais tanto. Quero fazer as coisas no aqui e agora com a inteireza do meu presente. Sou esta, não aquela que eu devia ser. Dirijo um carro cheio de crianças rumo à escola, inteira como quando escrevo um poema. Faço coisas pequenas, anônimas, e acho que Deus está me olhando, então me esmero. Ofereço o meu melhor ao outro: o presidente da multinacional, o porteiro do prédio. E o exercício do meu melhor me revigora. E não é papo furado mais. Não é exibicionismo, fome de reconhecimento, tapinha nas costas. Não é blefe. É o amor liberto das mesquinharias do ego me preenchendo em cada fresta. Fiz as pazes com o ser humano. Gosto de pessoas desconhecidas que atravessam a faixa de pedestres na frente do meu carro. Incompletas, tortas, atarantadas, cada uma, uma peleja. Estão tentando.  Me reconheço nelas, descasquei o verniz do meu intelecto que vive de projeções. Na crueza da minha madeira também estou tentando. Só. E estou confortável assim. Flagrei minha vaidade devorando minha luz e disse basta. E deitei em mim mesma. No que havia. E ganhei de presente um universo de pequenezas que brilham. O cotidiano das pessoas comuns: montanha russa única de cada um. A imensidão de uma vida a mais nas costas do planeta. Talvez a única coisa que realmente tenho. E, pasmem! é bom. 
*
*
*

Comentários

  1. Que texto bom! Vou compartilhar!

    ResponderExcluir
  2. Safo... você está resgatando o Fogo Sagrado de Héstia... só pode!!! bjoooooo

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Que bom. Andei muito Athenas até aqui. Que venha Héstia!

      Excluir

Postar um comentário

Não tem conta Google? Assine, clique em ANÔNIMO e em PUBLICAR. É fácil! Bjooo.

Postagens mais visitadas deste blog

Ilusão

A flor e o Susto

Gritando na Porta