Pular para o conteúdo principal

Solidão e chicotadas

Eu não ia me casar. Aos trinta e poucos anos vivia a angústia de não me ver casada e ter de aceitar isto. Aquela triste sucessão de homens inviáveis era o sinal inequívoco: eu não ia me casar e ter filhos. E não era uma entrega simples abraçar este destino. Mulheres, em geral, querem ter marido e filhos mais do que querem ter um amor. Um grande amor que não se converterá em marido e filhos carrega o peso do sacrifício. Parece uma programação de fábrica: case, tenha filhos. E eu nem sabia se aquilo era mesmo uma necessidade da alma ou um cacoete social. Queria ou precisava? Mas, de repente, estava tarde demais e não havia nenhuma perspectiva: só os inviáveis de sempre. E combinava comigo: a escritora solitária, seu cachorro, sua taça de prosecco. Eu já era um tipo fora da curva e ninguém ia se incomodar se eu aprontasse mais esta: não casar, não ter filhos. Mas era penoso. Pior que a sensação de fracasso era aquele apego à imagem das outras: as mulheres casadas, amadas, mães, realizadas. Tias solteironas não podem ser felizes, berrava uma crença dentro do meu baú. Elas não foram escolhidas. E isto não tem cura, a crença alfinetava. A areia escorrendo rápida na ampulheta e sugando para o buraco a esposa e a mãe que eu não ia ser. E não era nada disso. Era só a escola do amor e suas inevitáveis provas. A escola do amor onde adequação não é disciplina obrigatória e qualquer resposta vale se for amorosa. Na mão de cada inviável que não me escolhia, uma mensagem que eu não queria ler. Então veio de lá um anjo bom e sussurrou com firmeza no meu ouvido: és uma mulher linda e amável e tens feito o teu melhor no mundo. Não mereces de ti mesma outra coisa que não o acolhimento e o perdão. Seja o que for, venha o que vier, tu já és um milagre. Baixa teu chicote e teu olhar de cobrança. Aceita teu possível e te abraça. Não transforma o casamento e a maternidade em mais um pretexto para teu automassacre. Não planta mais no canteiro estéril do desamor. Escolhe-te.
Abracei-me solteirona e sem filhos, pronta para outros casamentos e maternidades onde eu coubesse sem me violentar. Pronta para tirar o chicote da minha solidão.
Isto foi há uns quinze anos. Hoje faz treze que estou casada. Tenho três filhos. 
*
*
*

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Amar não basta

Amar não basta. Gravo a mensagem no whatsapp e envio para a amiga. É uma faca no estômago, eu sei. Tantas pessoas se separam se amando. Eu mesma já fui embora arrastando o coração pelos cabelos umas duas vezes. Doloroso demais. Cruel demais. Mas acontece de as possibilidades se esgotarem, de fato. Acontece de precisarmos estar sós naquele trecho da estrada. Acontecem estradas diferentes com interseções que nunca mais se repetem.  Acontece de a dor ficar insuportável. E então a morte se impõe, mas nem sempre a aceitamos de pronto. Acontece de, primeiro, tentarmos blefar o adeus. Vivenciar o fim com a certeza de que o navio não deixou o porto. Ir sem ir. Começa o vai e vem sofrido: separa e uiva de dor, volta e uiva de prazer. Nada como voltar do fim: uma bomba de serotonina. Mas a volta não é inteira, não é a que planejávamos, e logo a falta se apresenta, e a dor retoma o palco e ensaia um novo adeus. Amar não basta, amiga. É preciso amar-se junto. Senão o outro vira eterna ameaça de …

Estranha Paz

Ah, esta paz de me sentir só que dá até medo. Estou sentada no restaurante, indecentemente só. Não pertenço a nenhum quadro. Nenhuma moldura me contém. Não sou sua mãe, sua esposa, sua amante, sua amiga. Sou folha seca na ventania lindamente desgovernada. Que medo de enlouquecer e sair vagando pela rua. Largar o carro. Ir andando até uma rodoviária. Comprar uma passagem para o nada. Virar pessoa desaparecida, forasteira, perder as referências, escafeder, sumir do mapa. Todos viajaram. Faz uns dias que estou só. Devolvida à minha pureza sem demandas. Sem idade, sem rugas, sem pressa, sem expectativas. Este prazer na solidão que me assusta. Só eu no restaurante atrás de uma caneca de chope. Um cara no piano tocando jazz. E não falta nada. Meu Deus, preciso confessar e é terrível: não falta absolutamente nada.  * * *

O fim da geração jeitinho

É difícil criticar um quadro estando dentro dele. Mas, vamos lá: eu pertenço à geração jeitinho. A uma das muitas gerações jeitinho. Fui paulatinamente estragada por um excesso aprendido de condescendência. Tenho amigos médicos, dentistas, motoristas de ônibus, publicitários, atores... nascidos e criados na cultura do jeitinho. Crescidos na catequese implacável do jeito correto de fazer as coisas, mas ouvindo, lá no fundo, o canto da sereia do jeitinho. Em caso de deslize extremo, complexo, ele estaria lá, sempre à mão e eu sempre soube: o jeitinho. Pra tudo existe um: eu me tranquilizava. O “não” é um troço elástico, manipulável. Depende de quem eu sou, quem eu conheço, da minha patente, de quanto eu tenho, do meu cargo. Sou da geração que endossa privilégios, focada em me tornar um dos privilegiados e não em acabar com eles. Tentando um emprego público para me acomodar, não para servir ao público. Olhando o serviço público com a lente distorcida do privilégio. O salário caiu na con…