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Sangue entre os dentes

O ser humano é um bicho. Dentro, carrega um bicho. Inventou-se legal. Divulgou-se um bom bicho. Não é. Bicho distorcido pela civilização, guarda em si uma agressividade desconectada, sublimada quando dá, aplicada quando transborda. E transborda muito. Haja civilização para segurar o bicho humano. Alguns andaram mais para longe da própria fera. Muitos não. Seguem protagonizando espetáculos de horror e violência mais chocantes que o bando de lobos no Animal Planet que estraçalha uma raposa e uiva em comemoração com as bocas sujas de sangue. Não podemos estraçalhar o síndico do prédio e dançar no salão de festas com a boca suja de sangue. Não pegaria bem. Acabou aquela farra de arrebentar a cabeça do humano da tribo vizinha com uma clava. Comê-lo então numa grande festa dos vencedores? Esconjuro! Isso foi há muito tempo, a gente não faz mais isto. Ou, na verdade, faz sim. A gente segue matando um montão de gente por causa de tênis, religião, opção sexual, sexo, cor, grana... Pra saciar nossas muitas fomes de bicho civilizado. Inventamos umas formas mais assépticas de matar: um míssil que pode ser lançado à distância de mil e quinhentos quilômetros do alvo. Matar com pedrada é decididamente pouco evoluído. Matar com joystick é joia. A gente nem precisa mais sujar a boca de sangue. O que talvez não seja tão bom. Deixamos de viver o prazer implícito na agressividade e precisamos nos contentar em ver as fotos dos mortos na internet o que não deixa o bicho humano realmente saciado.  Mas é o preço pela civilização: abrir mão de prazeres primitivos, sublimar, contar até três, evoluir. O problema é o prazerzinho mórbido que a gente segue carregando. Sabe aquela fila de carros passando bem devagar pelo acidente na estrada? Espichando os olhos sobre a tragédia? A doce sedução da morte violenta? Sabe a delícia de esmigalhar o crânio daquele canalha que você odeia com setenta e duas pauladas? Enfiar os dentes na jugular daquela hiena que lá vai ultrapassando todo mundo pelo acostamento? Ah, não sabe? Nem se fuçar bem no fundo da sua civilização? Pois eu sei. Eu sou um bicho. Apesar desta alma legal, compassiva, generosa, amorosa que segue montada nele. Sou o bicho e também sou ela, a Amazona. E temo pelo futuro da civilização. Porque talvez este bicho não sirva. E talvez esta alma não baste.
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