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História emprestada - Nosso amado porão

Eu gosto do porão. O meu, o dos outros. Eu sinto um prazer indescritível quando desço as escadas e o vento vem gelado lá de baixo tocando seus dedos nas minhas pernas. Vou submergindo devagar e deixando na superfície a enfadonha realidade e seus limites. Bruxa antiga, não funciono bem sob os raios solares. O cotidiano da maioria só me comove quando reflete os gemidos e as cores rubras do porão. Desço as escadas todos os dias, religiosamente. Vou encontrar meus fantasmas, reconhecê-los, dançar com eles muitas valsas, segurando seus cotos sem mão. Volto para a superfície abastecida dos horrores do meu passado. Meus fantasmas os entregam a mim como pedras preciosas sabendo que logo voltarei para buscar mais.  Dores de muitas cores, mágoas que brilham, violências fluorescentes, eu as tenho. E as procuro nos outros, as recebo, as acolho, entendo o que elas dizem, traduzo muitas vezes, para os perplexos, sua fala.  Conheço todas as entradas e saídas do porão e ajudo os Minotauros com seus mapas. Alguns querem só deixar o porão e tocar sua vida possível, não passar tanto tempo lá. Gostam mais da vida possível que do passado assombroso ou do futuro idealizado. Eu gosto do porão. Suas charadas, suas passagens mágicas, seus personagens tortos contando histórias torcidas. Digo que vou descer ao porão em busca de saídas. Digo qualquer coisa para não me desfazer dos passeios no porão. Vou sobrevivendo com dificuldade na superfície dos seres comuns, sem profundezas vulcânicas nem paraísos infinitos.  Coisas a fazer, contas a pagar, pessoas capengando, projetos eternos, misérias. E quando a paisagem me lembra de que sou só mais uma vida humana na correnteza, enfio os calcanhares na terra, abro meu próprio abismo e volto para os monstros amados do porão. 
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Comentários

  1. Hoje fui rebelde, que delícia! Abri o computador – é claro, trabalhar aos finais de semana faz parte... – e resolvi só ler aqueles e-mails que geralmente arrasto para a pasta do “quando der tempo”. Que esperem os outros! Comecei pelos da Senhorita Safo e descobri que não lia desde Junho.... sim, deste ano ao menos...

    Ler seus textos foi um bálsamo para minha dor de tantas urgências, e um estímulo para deixar a rebelde sair para arejar de vez em quando.

    Agora volto aos e-mails “sérios” e importantíssimos, um pouco mais animada por ter lido algo que realmente faz sentido.

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