O Bem Sem Glitter

O pior aconteceu: o ser humano aprendeu intelectualmente o valor do bem, do amor, é uma moeda, é uma máscara. Todo mundo ficou subitamente bom e legal. Todo mundo ficou sensível. Por que o ser humano já sacou: o sensível, o consciente, o iluminado, é o cara superior. Eu, por exemplo, sou superior pra caralho. Desculpem o palavrão, eu sei que alguns de vocês acham que me inferioriza usar palavrão, mas estou sendo honesta, transparente, e isto, colegas, também me faz superior. Permaneçam alguns minutos nas garras da minha intelectualidade e posso provar esta minha tese. E amanhã seremos todos autênticos e vamos falar muito palavrão e nos faremos novamente superiores. O discurso do bem é uma criação da mente. E minha mente faz milhares de flexões intelectuais por dia, ela é foda, eu tenho um cabeção Schwarzenegger. Sei todos os truques para parecer legal e uso, às vezes, um ou outro, e me percebo usando, e rio do meu blefe. Sou mais uma no meio da horda de gente legal. Aqui e ali brotam uns espontâneos. São legais mesmo, com pancadas esparsas de egoísmo, maldade, covardia. Não fazem grandes acrobacias para serem bons, não fazem curso, treinamento de bondade, não fazem discurso, são bons. Eu, destroçando os músculos do pescoço pra segurar meu cabeção, morro de inveja deles. Não existem ocupados em chicotear e adestrar sua sombra com banhos intermináveis de bondade intelectual. Vivem, os putos. Praticam bondade no escuro e sem alarde. Nem valorizam a bondade, não erguem templos. Isso pra eles é o natural. Do outro lado, a bondade industrializada e vendida no comércio varejista. Pior que discurso ensaiado, uma apropriação narcísica da bondade: eu acredito que sou bom pra ser foda. Um papo que está ficando exagerado e meloso. Ontem vi no palco de um evento corporativo um jovem CEO Global de uma multinacional que era bom. Naturalmente. Trabalha para a selva do lucro e do consumo.  Não é um monge. Não tem discurso de bondade. Limitou-se a existir verdadeiramente, mesmo estando diante de uma plateia de mil pessoas que ele deveria, estrategicamente, influenciar. E sentimos, eu e todo mundo lá embaixo: este é confiável, é de verdade, este é um cara bom. E eu não sei se ele está fazendo algo de grandioso pelo bem da humanidade. Sei, na verdade, que ele está envolvido num universo capitalista que meus amigos evoluídos do espírito abominam. Mas topar com aquele cara, me deu mais esperança nos seres humanos que toda a bibliografia do Dalai Lama. Entre o buraco negro dos escrotos detonadores do planeta e o planeta amor da consciência superior dos homens evoluídos, brilha o CEO Global como uma estrelinha possível. Imune aos refletores. Sem a redoma protetora das utopias. Fazendo o bem que ele pode no tiroteio cotidiano. Mais apagado que os demais. Mas pele de verdade: sem glitter.
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