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Gol da Alemanha

A amiga vai embora com a família. Outro país. Este aqui não deu. Cansou de arrancar patriotismo do intestino grosso. Foi consumida pela mortal simbiose entre os estúpidos e os canalhas que faz do Brasil este negócio inviável, este lodo eterno, esta modorra. Não suporta mais. E depois, tem filho pequeno, agoniza na probabilidade cada vez maior de que um bandido escolha seu carro no engarrafamento com a criança presa ao cadeirão. Pensou em colocar película nos vidros, quem sabe até blindar o auto, mas a hipótese a deprimiu. Não aguentou se preparar com tanta certeza para a porrada, mais e mais e mais uma vez no cotidiano pesado, escasso e violento da cidade.  Vai embora para um país de verdade, destes onde se pode andar pelas ruas com o vidro do carro aberto. Exausta e descrente após constantes e covardes ataques dos homens que gerenciam a nação. Canalhas de terno brincando de poder. Homenzinhos e mulherezinhas sem compromisso com a própria história, muito menos com a nossa. Exausta e descrente da estupidez de populares de todas as castas. Desastre social que muitas décadas de educação de qualidade não chegariam para consertar. Gente ignorante que desconhece seu próprio passado.  Cansou de ter pena deles: os miseráveis de espírito, adeptos do jeitinho, da forcinha, da vantagenzinha por debaixo do pano, mas horrorizados com o governante corrupto. Pobres e ricos tão tristemente parecidos. País da “farinha pouca, meu pirão primeiro”. Pais desamado, cheio de filhos velhos em busca de tetas. E a amiga tem como ir. Tentar viver com dignidade. Aqui o artigo virou luxo: dignidade. Tínhamos alguma, mas agora precisamos nos manter no emprego a qualquer custo. E custa caro ser brasileiro. A amiga fez as contas: somou as rugas de cansaço e tristeza da testa e da boca, com as olheiras e os fios de cabelo perdidos, e está dizendo adeus. E eu não quero ser hipócrita e dizer que fico pelo bem da nação.  Fico feito zumbi que vaga numa terra devastada sem caminho, com os olhos espichados para o aeroporto, sem animo de pintar a cara e ir pras ruas, amortecida, anestesiada, e com uma presença amada a menos.
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