O coxo dança

Garrincha
Na integridade do meu coxo, vou buscando o meu existo. Na verdade do meu manco, distribuo fartos esbarrões em gente querida. Sinto a culpa avançar sobre as pernas em contrações musculares, como sempre, na intenção de devolvê-las retas à correta e aprovável colagem de cacos de mim. Barro com o braço. Defendo meu coxo e seu incômodo. Peço desculpas inúteis: não mudam o que sou. Busco entender o novo e estranho caminhar: meu coxo, meu reto.  Avanço sobre o temido, o evitado, o que não cabe, o que me revela. E vejo minas explodirem levando os que iam ao meu lado. Não arrefeço o passo, não me desvio. Não quero mais fazer ciranda com meus mortos. A propulsão da alma desconhecida me empurrando para frente como um tanque cruzando a floresta. Sem conversa, sem interpretações, sem pena das plantas no caminho. Levando no peito os cipós do "não" que não entendo. Determinada a atravessar. Ciente dos buracos com estacas que eu mesma cavei pelo terreno e cobri com folhas. E não sei mais onde. Sem me deter no magnetismo das armadilhas, sem me distrair com o mal, sendo o mal. Revendo meu coxo e descobrindo misturado nele, feito café e leite, meu maior. Sem retoque, sem volta. As pernas tortas desnudas, cambaleando, mas em marcha. As pernas coxas e feias mais amadas que a torturante imobilidade. Levada pelo sim indomável, o sim que não se entrega, o sim que não conversa mais com meus fantasmas. Na integridade do meu coxo, amo cada vez mais as minhas pernas. Hoje são pernas obstinadas de cruzar o medo. Amanhã dançarão na chuva num improvável Gene Kelly. 
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Comentários

  1. Anônimo6/6/15 20:01

    Meu Deus! Que texto genial! Que coisa mais brilhante, que movimento, que luz, que densidade!

    Vc é uma GRANDE escritora. Uma puta escritora. Uma escritora filhadaputaaa de maravilhosa. O Máximo. Sua altura alteza , sua altura de grande pessoa a olhar o mundo com a abrangencia que só os muito altos tem olhar de ver.

    E vc está dentro do andar.
    Andarilha de si, de mim.

    Jamais coxa , sempre prumo, fio, rota determinada.

    Eu te admiro, te amo, tenho orgulho de ser sua amiga.

    Coxa e feliz da vida por aceitar os meus tropeços, depois de ler esse prêmio.
    Bjsssss

    Consuelo de Castro

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    Respostas
    1. Obrigada, Prima. Vindo de uma autora com o seu talento é um presente. Saudade muito grande de você.

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