Dez trilhões de eu

Conversa com tuas células.  Para tudo. Fecha os olhos. Fala com elas. Teu corpo são muitos corpos, muitas pequenas vidas associadas.  Agora mesmo, uma infinidade de processos estão em marcha movidos por uma inteligência maior que a da tua mente. Teu corpo, tua testemunha do tempo, teu mapa da caminhada, tua memória emocional espalhada da unha do pé à ponta do fio mais comprido do cabelo. Conversa com ele. Para tudo. Fecha os olhos. Escuta tua corrente sanguínea.  Sente o ar massageando internamente teus pulmões. Existe carícia mais deliciosa? Perceba: recebes carinhos oxigenados todo o tempo e jogas fora. Encosta uma mão na outra. Simples assim. Sente teu próprio calor: é isto que tu és, um ser quente, um ser que aquece. No calor das tuas mãos, o segredo do futuro dos homens. Que arma conheces mais poderosa que um abraço do corpo? Onde um ser humano se coloca mais inteiro, mais indefeso, senão na concha tépida dos teus braços?  Desliza tuas mãos pelos teus braços em reverência e sente o poder que tens de amar-te. Para tudo. Os emails a responder, o relatório na tela do computador, o celular que bipa mensagens sem fim. Espalma tuas mãos sobre teus olhos e percebe deles o cansaço, a necessidade de refúgio. Toca teus lábios. Existe superfície mais macia em todo o planeta? Faz dos teus lábios tua cama por alguns segundos do dia: nada se perderá. Teu colega na baia ao lado te achará louco, não importa, oferece um beijo dos teus lábios às tuas mãos. Torna-te teu próprio provedor do carinho vital que precisas. É tão fácil. É tão disponível. Para tudo. Tuas células, dez trilhões, estão em plena ebulição de vida. Criando, recriando, reformando, alimentando a vida. Ama cada uma, cada átomo que te compõe e que, bilhões de anos atrás, fez parte de uma estrela. Fala baixinho para teu corpo: eu te amo. Ele é um milagre silencioso. Ele te escuta.
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