O Imperdoável

Sou de uma geração em que o pai era mais cheio de sombras. Carregamos este pai nos ombros. Nos escombros. Criatura quase sempre invisível que pesa como o diabo. Egocentrado no seu prazer, no seu sossego. Avesso do rei dos contos de fada. Menino grande. A muitos de nós ele legou esta peleja com o masculino. Esta escola do perdão que não queremos frequentar. Pai amado e escorregadio, imune à nossa carência infantil. O cara que estava quase sempre fora. O cara que se foi. O cara que nunca veio. O pai ausente que estava lá. Sou de uma geração que precisa passar o pai a limpo, antes que seja tarde. Integrá-lo ao luminoso e recriá-lo para a próxima geração. Não é fácil. Andamos arrastando o pai não resolvido nas nossas relações amorosas, tentando decifrá-lo no espelho do outro, tentando amá-lo ou fazê-lo pagar. Nada resulta. O pai ensaboado escapa de novo entre as mãozinhas eternas de criança e foge para seu escuro particular. A mãe não faria isso. A mãe se entregaria aberta e inteira e abnegada. Nos deixaria rolar abraçados em nossa neurose sobre o seu corpo até desmanchá-lo. O pai se retira ou nos manda sair. Fecha-se no casulo masculino, silencioso, e se prepara para o próximo ato. Ele é de fazer. Merda, às vezes. Trabalha com dois tipos de limite: o excesso e nenhum. Repressão e perversão misturadas. Aprendeu assim, aprendeu a ser pai na porrada, não aprendeu, foi levando. E nós temos que nos haver com ele. Amar o amor possível dele. E não é fácil. Queremos cobrá-lo. Ele não tem como pagar. Acuado, se retira, volta pro escuro, e sentimos sua falta. Falta da essencial paternidade que ele deu conta com seus vagalumes. Eu tive um pai assim: imperdoável. Mas o amor desautorizou meus relatórios de culpas. E perdoou. Tudo. Então ele se lançou no abismo e caiu no céu. Hoje meu pai é só reflexo.
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Para Débora.
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Comentários

  1. Anônimo6/4/15 10:08

    Nossa... complicado voltar a pensar em tudo isso, quando, com a morte, com a partida de meu pai, já achava resolvido. Mais um tempo de porrada para me resolver. Mas vamos lá... nossa vida parece mesmo um ringue... daremos conta!

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    Respostas
    1. Ele não morre em nós. Mas se transforma.

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  2. Se agora ele é reflexo, então tornou-se Luz! A sombra é tão somente tudo aquilo que não ousamos trazer à luz... à luz de nossa própria consciência.
    Citando Deepak Chopra:
    "Quem não está na Luz, não pode afirmar que não tem sombras!"

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    1. Bonito. Muitas vezes escrevo sem pensar, não passa pelo racional, vem de uma outra sabedoria, não tinha visto este significado. Obrigada.

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  3. Nanna, sim, perdoemos, perdoemo-nos, hoje e sempre! Amém!

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