A amaldiçoada

Gustave Doré
Sem um pingo de hesitação ela escolheu, entre milhões de machos no descampado, aquele que iria para sempre apontar-lhe as feiuras. Um tipo desvalorizante, avarento de elogios. Princesa amaldiçoada estava, sem saber, cumprindo os desígnios de uma fada má que não haviam convidado para o seu batizado. O macho dela havia de ser assim: pequenininho. E a segurança dele dependeria de que ela nunca, em hipótese nenhuma, se enfiasse num salto. Não vamos nos precipitar em concluir que ele era mal. Não era. Ele era o escolhido, garimpado, esculpido no inconsciente, o eleito capaz de executar à exaustão a complexa tarefa de apequená-la. Porque ela pelejaria por ser aceita, reconhecida e amada. Estava tudo escrito. Desdobrar-se-ia em tarefas domésticas, trabalhos free lancers, cuidaria dos filhos, sempre no limite da exaustão e, à noite, esperaria seu tapinha nas costas, sua sardinha. Mas tudo que ouviria, semimorta e pálida, derrubada sobre o travesseiro frio, seria algum comentário cruel sobre o fato dela andar muito descuidada de si e sem vaidade. No dia seguinte, se atiraria a novos sacrifícios, Joana D’arc montada em seu cavalo, nunca à sombra, sempre à frente do exército tomando porrada.  Pra de noite se lançar espontaneamente na fogueira das críticas do marido.  Ela com uma espada atravessada do peito às costas, rasgando as costelas, e ele falando do guardanapo que ela mais uma vez esquecera-se de trazer do supermercado. Um dia, abraçada ao pano de chão encardido na área de serviço, foi tomada por um estado delirante e restituída à data fatídica do seu batismo. Correu até a bruxa que jazia com as mãos crispadas sobre a criança, prestes a amaldiçoá-la. Puxou a megera pelo braço e encarou-a. O que viu, foi ela mesma num espelho: amarga, magoada e intolerante criança que escolheu vingar-se do abandono molestando a si própria através da eternidade. Era ela a bruxa e o macho e a vítima a expor em vitrines de luxo suas feridas. Aprisionada entre a miséria delirante e a grandeza delirante. Incapaz de apenas crescer e ser menor, menos importante em sua dor, mais comum na sua felicidade.  Então ela acordou deitada no azulejo frio com a área de serviço ao seu redor que não era mais um calabouço, com as querelas domésticas cotidianas que não eram mais um martírio, com o marido de olhos arregalados que não era mais um algoz. Meteu a mão entre as pernas e puxou um zíper que correu do ventre à nuca abrindo todo seu abdome. E desvestiu a dor de si. E largou a velha carcaça jogada no meio da área de serviço sem se importar nem um pouco com o que ele diria. O macho olhou estupefato a casca morta diante de si e dobrou-se sobre o próprio abdômen em busca de um zíper. E o desamor fez silêncio.

Comentários

  1. Muito profundo e tocante pra mim este texto, me fez lembrar de um sonho que tive: "onde eu tinha de puxar muita água do chão, água limpa, mas muita água... tanto que o rodo afundava nela e não dava conta do volume e o "escolhido" cobrava-me a secagem do local antes de que os convidados chegassem!" Louco, né? Entendo que a água seja esse sentimento descrito em seu texto, mágoa, disfarçada e engolida, mas as coisas são como são, quem as sente somos nós, quando nos despimos de certos padrões autoimpostos de sentir as situações, elas mudam, porque nós realmente mudamos, ousando olhar para nosso centro e abrir o zíper do estigma que permitimos que nos vestissem.

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