Pular para o conteúdo principal

E a sua mãe também

Eu transei sem camisinha, sim! Eu, a sua mãe, a sua irmã e as suas primas. Nós todas já cometemos este deslize, SEU BABACA. E havia um homem envolvido, a gente não transa sozinha. Muitas vezes um cara estudado, diplomado, como você, que não tinha ou simplesmente não quis usar camisinha. E eu devia ter me lembrado de que, apesar de toda maquiagem, eu vivo num paiseco sul americano religioso e machista de filhinhos homens da virgem! Nossa Senhora. Eu devia ter tido força e autoestima e ter mandado aquele homem à merda. Eu devia ter usado camisinha. Eu devia ter me informado antes de transar pra saber que ia me foder sozinha. Eu não tinha ideia, seu grande e diplomado BABACA, que se eu ficasse grávida, eu estaria total e absoluta e cruelmente sozinha. E eu tenho só dezenove anos. E eu sou pobre. Quando vi que tinha ficado grávida, fui atrás do macho reprodutor pedir ajuda. Ele fez o que 5,5 milhões de machos que não constam na certidão de nascimento dos seus filhos fazem no seu país: pulou fora. Fiquei sozinha com meus dezenove anos pensando na desgraça que seria minha vida, que já não é bolinho, se ainda tivesse que arcar com aquela criança. Nesta hora, não tive apoio senão de algumas amigas que me explicaram como abortar tomando Citotec. Na minha escola não passou nenhuma assistente social convidando a conhecer um núcleo de apoio às adolescentes grávidas. Não, BABACA, eu não vou ser hipócrita. Eu sabia que engravidar seria uma roubada e não me cuidei. Eu fiz uma cagada. Você nunca fez? Você nunca transou sem camisinha? Você nunca estacionou num local proibido? Você nunca bebeu e dirigiu colocando vidas em risco? Ah, você quer falar de acabar com uma vida? Pois eu ia acabar com duas. Nascer na merda neste país, eu sei o que é, seu grande BABACA, você não sabe: é uma vida de merda. E eu não queria ter aquele filho pra dividir a merda comigo.  Esqueça aquela mãe da propaganda de margarina que você assiste sentado no sofá da sua confortável casa de classe média. Eu não tinha a mínima condição financeira ou psicológica de ser mãe, eu entrei em pânico, eu precisava resolver a parada antes que a família, a sociedade, a igreja, caíssem de porrada em cima de mim. E tomei o Citotec. Eu também não sabia que aquilo podia me matar e não tinha a grana que as meninas do seu nível social têm pra fazer o aborto naquelas clínicas bacanas onde a família brasileira há séculos paga pra apagarem as cagadas dos seus filhos. E fui parar num Pronto Socorro no seu plantão. Fui confiando em você, na pessoa que você é. Naquela época nem sabia que o ilustre BABACA tinha feito um juramento. Vou colocar dois trechos aqui para que você se lembre: 

“Mesmo após a morte do doente respeitarei os segredos que me tiver confiado. Não permitirei que considerações de religião, nacionalidade, raça, partido político, ou posição social se interponham entre o meu dever e o meu Doente.”.

E você chamou a polícia?? Meu Deus, o que está acontecendo com os seres humanos? Olha pra mim, seu BABACA, olha nos meus olhos: eu nunca matei um mosquito. Não, eu não sou uma criminosa. Posso ter errado, posso ser folgada, despreparada, desorientada, fraca, sem amor próprio, imatura, burra... E posso apenas não querer ser mãe. Mas você acha que tem o direito de me transformar em criminosa? Você vem me apedrejar e atirar a primeira pedra de um processo que pode me levar pra cadeia? Você legitima um sistema que me faz pagar sozinha pelo aborto de um feto feito a dois? E você acha que entende alguma coisa de respeitar uma vida? Por que, vamos combinar? eu não sou só a menina que chegou com sangue escorrendo pelas pernas no seu hospital. Eu tenho uma história. E não é a história de um bandido. E o que mais dói é que você não precisava fazer isto. Legalmente, você poderia ter ficado calado. Você quis, como muitos outros na sua profissão que entregam meninas como eu sem aprofundar um centímetro na compreensão do nosso drama. Você fez isso achando que Deus ia te aplaudir e melhorar suas acomodações no paraíso. Nem aquela parte de Jesus e Maria Madalena você leu?  Pois agora é tarde. No momento em que precisava de cuidados, ainda dentro do Pronto Socorro, ainda passando bem mal, fui presa por policiais que me chamaram de otária. Tive que pagar mil reais pra sair da jaula. E agora serei julgada e cumprirei pena de no mínimo três anos de prisão. Mas não é porque fiz um aborto. Muita gente fez, faz e fará aborto neste país, gente que senta na sua mesa, que você admira e cumprimenta cheio de sorrisos. Mas porque existem BABACAS que fazem leis no Brasil e BABACAS que arrancam o clitóris de meninas na África, e BABACAS que obrigam meninas de doze anos a se casarem com velhos nos países islâmicos, e BABACAS que estupram mulheres que usam roupas provocantes em todo mundo, e BABACAS que enfiam o pinto onde quiserem sabendo que sairão sempre ilesos e seguirão incógnitos, respeitados e admirados pelo senhor.
*

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Amar não basta

Amar não basta. Gravo a mensagem no whatsapp e envio para a amiga. É uma faca no estômago, eu sei. Tantas pessoas se separam se amando. Eu mesma já fui embora arrastando o coração pelos cabelos umas duas vezes. Doloroso demais. Cruel demais. Mas acontece de as possibilidades se esgotarem, de fato. Acontece de precisarmos estar sós naquele trecho da estrada. Acontecem estradas diferentes com interseções que nunca mais se repetem.  Acontece de a dor ficar insuportável. E então a morte se impõe, mas nem sempre a aceitamos de pronto. Acontece de, primeiro, tentarmos blefar o adeus. Vivenciar o fim com a certeza de que o navio não deixou o porto. Ir sem ir. Começa o vai e vem sofrido: separa e uiva de dor, volta e uiva de prazer. Nada como voltar do fim: uma bomba de serotonina. Mas a volta não é inteira, não é a que planejávamos, e logo a falta se apresenta, e a dor retoma o palco e ensaia um novo adeus. Amar não basta, amiga. É preciso amar-se junto. Senão o outro vira eterna ameaça de …

Para o meu fantasma

Adeus e obrigada. Foi bom girar nos seus braços nesta valsa inesperada. Obrigada pela Duquesa, pela Gata Borralheira, pelo pai e pelas crianças minhas que você nem sabe que me deu. Obrigada pelo espelho onde pude pentear a minha vaidade, pelo lugar de destaque na sua corte que pude chamar de pouco. Foi doloroso ver meu tirano no seu, mas foi como um parto. Dor valiosa de onde nasci novamente. Obrigada por tudo que você nem sabe que foi. Por ter ido tão fundo em mim sem nunca ter deixado a superfície das suas vontades. Por ter me notado. Por ter chamado meu nome. Por ter evitado o meu mergulho e me devolvido a mim. Coloco este agradecimento e este adeus numa garrafa e lanço no rio de nome universo. Incógnita, me despeço. Remeto este adeus agradecido à sua alma que há de me escutar numa dimensão distante. Adeus e obrigada pelas provocações de menino, por acordar o meu menino, por dançar comigo esta dança breve, desatenta, mas necessária. Verdadeiramente, obrigada, segue seu caminho. Ab…

Estranha Paz

Ah, esta paz de me sentir só que dá até medo. Estou sentada no restaurante, indecentemente só. Não pertenço a nenhum quadro. Nenhuma moldura me contém. Não sou sua mãe, sua esposa, sua amante, sua amiga. Sou folha seca na ventania lindamente desgovernada. Que medo de enlouquecer e sair vagando pela rua. Largar o carro. Ir andando até uma rodoviária. Comprar uma passagem para o nada. Virar pessoa desaparecida, forasteira, perder as referências, escafeder, sumir do mapa. Todos viajaram. Faz uns dias que estou só. Devolvida à minha pureza sem demandas. Sem idade, sem rugas, sem pressa, sem expectativas. Este prazer na solidão que me assusta. Só eu no restaurante atrás de uma caneca de chope. Um cara no piano tocando jazz. E não falta nada. Meu Deus, preciso confessar e é terrível: não falta absolutamente nada.  * * *