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A Seca Dentro

Maria não entende esse negócio da água acabar. Segue ensaboando os pratinhos com a torneira aberta. Se fecha é porque a patroa entrou na cozinha. Não entende. Obedece, só. Não é maldade. Maria não consegue alinhavar a coiserada que a patroa fala. Estes assuntos não cabem na cabeça dela, então finge que enfia por uma orelha e deixa escapulir pela outra. Lá no bairro onde mora, estão racionando água faz tempo. Um dia com e dois sem. Maria não entende a lógica ou o tamanho disso: só obedece. Usa a água quando tem, e quando não tem, não usa. Alguém determinou assim, ela cumpre. Percebe tanta gente numa reclamação sem fim. Não reclama, não se importa. Já carregou tanto latão de água no Norte. Quilômetros. É a vida. Aqui as pessoas são mal acostumadas. A patroa vira as costas: ela abre a torneira. Quem só obedece, carece de desobedecer. Não é maldade. Maria nasceu num país onde pensar não tem valia. É ir levando a vida no imediato. Por isso, escola é tão desimportante. Pensar é chato, o povo não quer pensar, o povo quer é comprar celular novo. Este, o país onde Maria nasceu. Agora vem a patroa com esta ladainha sobre uma tal de escassez? Palavrinha feia. Melhor não pensar nela, ir tocando. Se os que mandam no país, no estado, fazem assim, uns até doutores, vão exigir o que da Maria? Lhe poupem! Não lhe encham o saco. E ela abre a vazão no máximo. Só falta agora não poder molhar as mãos bem molhadas. Quando o mar virar sertão, a patroa há de botar o latão na cabeça e andar uns quilômetros até um caminhão pipa. Ela sim vai ter que lidar com a tal escassez. Podem até ficar encalhadas, mas finalmente as duas estão no mesmo barco.
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Para Vera, pernambucana arretada, que trabalha na minha casa, não é Maria, e felizmente pensa e cuida e peleja junto comigo.
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