Pular para o conteúdo principal

Vota em Mim

Japoneses recolhem seu lixo na Copa
Não somos otários. Somos espertos. Eleição é uma jogada e o povinho é burro e tirano em sua burrice. E nós queremos o poder. E o povinho não pode ser contrariado. Por isso a gente dá sempre o que ele quer, nunca mais, nunca menos. Se o povinho quer funk a gente não vai fazer concerto de música clássica.  Se o povinho quer futebol, a gente não contraria, a gente arma o circo. Não é que sejamos uns filhos da puta, é que não somos otários, entende? Conhecemos o povinho. E vou te dizer, compadre, o povinho é foda. Eles querem comprar eletrodoméstico, querem ter celular caro, tênis de marca. Eles não querem estudar. Vamos falar a verdade, só estamos eu você aqui, estudar é chato, estudar é um troço a longo prazo, e o povinho quer agora, já. E se eu não der o que o povinho quer, vem outro e dá e ganha o povinho. E nós, do meu partido, não somos otários. Otário dá dura no povinho em ano de eleição. Manda andar de ônibus, economizar água, não jogar lixo na rua, trabalhar em dia de jogo. Otário total. O povinho chia. O povinho fica puto. E vai correndo atrás de outro que balance uma nota de cem, um Iphone 18S, uma Ferrari, consumo agora, já, morfina na veia. Você vê? O povinho me colocou, eu e o meu partido nessa arapuca. Pra mudar eu preciso estar no poder e pra estar no poder eu preciso continuar fazendo o mesmo. Discurso, compadre, o povinho só fala. Elite, classe C, tanto faz. O cara quer mudar sem abrir mão de nada. E você quer que o otário aqui dê uma de herói e fale umas verdades pro povinho no horário eleitoral gratuito? Há! O povinho não quer pai em ano de eleição, ele quer mãe, ele quer teta. E a culpa agora é minha? Meio século de esbórnia, de putaria, de beijar a mão de coronel pra ganhar um lugar melhor na Casa Grande e agora a porra da culpa é minha? Sabe o que eu acho? Eu acho que a gente é farinha do mesmo saco, e no fundo a gente se entende, se reconhece. Eu e você, cara. Você também vê o seu lado, procura um jeitinho de se dar bem hoje, aqui agora. Uma bolinha de papel amassada e jogada na rua? Você cata, compadre? Você procura uma lixeira pra jogar? Não é problema seu, certo? E você não é otário de ficar catando lixo dos outros. Se entupir a porra do bueiro é culpa do povinho, do governo, não sua. Nós somos vítimas, nós dois. Então olha o meu lado que eu olho o seu, da sua empresa, da sua família, da sua igreja. Uma mão lava a outra, por isso todo mundo tem a mão limpa nesse país. Então, quando eu estiver falando lá na TV ou em cima do palanque, me entenda, me redima, e vota em mim.
*
*
*

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Amar não basta

Amar não basta. Gravo a mensagem no whatsapp e envio para a amiga. É uma faca no estômago, eu sei. Tantas pessoas se separam se amando. Eu mesma já fui embora arrastando o coração pelos cabelos umas duas vezes. Doloroso demais. Cruel demais. Mas acontece de as possibilidades se esgotarem, de fato. Acontece de precisarmos estar sós naquele trecho da estrada. Acontecem estradas diferentes com interseções que nunca mais se repetem.  Acontece de a dor ficar insuportável. E então a morte se impõe, mas nem sempre a aceitamos de pronto. Acontece de, primeiro, tentarmos blefar o adeus. Vivenciar o fim com a certeza de que o navio não deixou o porto. Ir sem ir. Começa o vai e vem sofrido: separa e uiva de dor, volta e uiva de prazer. Nada como voltar do fim: uma bomba de serotonina. Mas a volta não é inteira, não é a que planejávamos, e logo a falta se apresenta, e a dor retoma o palco e ensaia um novo adeus. Amar não basta, amiga. É preciso amar-se junto. Senão o outro vira eterna ameaça de …

Estranha Paz

Ah, esta paz de me sentir só que dá até medo. Estou sentada no restaurante, indecentemente só. Não pertenço a nenhum quadro. Nenhuma moldura me contém. Não sou sua mãe, sua esposa, sua amante, sua amiga. Sou folha seca na ventania lindamente desgovernada. Que medo de enlouquecer e sair vagando pela rua. Largar o carro. Ir andando até uma rodoviária. Comprar uma passagem para o nada. Virar pessoa desaparecida, forasteira, perder as referências, escafeder, sumir do mapa. Todos viajaram. Faz uns dias que estou só. Devolvida à minha pureza sem demandas. Sem idade, sem rugas, sem pressa, sem expectativas. Este prazer na solidão que me assusta. Só eu no restaurante atrás de uma caneca de chope. Um cara no piano tocando jazz. E não falta nada. Meu Deus, preciso confessar e é terrível: não falta absolutamente nada.  * * *

O fim da geração jeitinho

É difícil criticar um quadro estando dentro dele. Mas, vamos lá: eu pertenço à geração jeitinho. A uma das muitas gerações jeitinho. Fui paulatinamente estragada por um excesso aprendido de condescendência. Tenho amigos médicos, dentistas, motoristas de ônibus, publicitários, atores... nascidos e criados na cultura do jeitinho. Crescidos na catequese implacável do jeito correto de fazer as coisas, mas ouvindo, lá no fundo, o canto da sereia do jeitinho. Em caso de deslize extremo, complexo, ele estaria lá, sempre à mão e eu sempre soube: o jeitinho. Pra tudo existe um: eu me tranquilizava. O “não” é um troço elástico, manipulável. Depende de quem eu sou, quem eu conheço, da minha patente, de quanto eu tenho, do meu cargo. Sou da geração que endossa privilégios, focada em me tornar um dos privilegiados e não em acabar com eles. Tentando um emprego público para me acomodar, não para servir ao público. Olhando o serviço público com a lente distorcida do privilégio. O salário caiu na con…