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Atolados na Meta

Acabou a sutileza, acabou a delicadeza, acabou a doçura dos contatos nas empresas. Para quem quiser temos metas, metas e mais metas. Estamos economizando no bom dia para alcançar a meta. Dizer bom dia é desnecessário segundo os idiotas disfarçados de defensores da sustentabilidade. Qual é o seu mínimo para existir sem constrangimento? Perguntam os idiotas da sustentabilidade. E te dão um cadinho menos. Vão tirando sua dignidade aos poucos, afinal de contas temos que economizar em alguma coisa para bater a meta e a coisa que sobrou é você. Nada de papel higiênico fofinho.  Estamos caminhando para limpar a bunda com o dedo e lavar na pia que é mais ecológico, berram os urubus da sustentabilidade. Eles estão se lixando para as árvores, eles só não querem que você gaste cinquenta centavos a mais no rolo de papel higiênico.  Este é o crescimento sustentável, o que sustenta a ganância sem fundo do ser humano. Nada mais tem valor. Somos todos comodities. Qual o ser humano mais barato pra fazer este serviço? Este é o cara. O que custa menos. Dane-se o talento, dane-se o indivíduo, não há mais distância entre um artista plástico e uma batata. Para a maioria absoluta, apenas o que resolve, para a minoria absoluta, o melhor, o papel higiênico fofinho.  Um rolo não! Milhões de rolos de papel higiênico fofinho em formato de dólares num banco da Suíça. Só que isto – informem aos idiotas - é insustentável. Por que as empresas estão ficando lotadas de gente infeliz a cada salto mortal do gráfico rumo à meta. Gente exausta, opaca, confusa. E chega uma hora que este povo acorda e descobre que faz mais sentido sacrificar uma virgem ao Deus do Trovão do que sacrificar a dignidade humana ao insaciável Deus da Meta. E então se desconectam: vão embora ou ficam, mas desconectados. Batatas vingativas, elas fazem de conta que acreditam nos discursos idiotas dos idiotas do crescimento sustentável, mas estão de olho na borboleta que passou lá fora da janela. E o que era um grupo de seres humanos que se juntaram para se proteger e crescer, vira um covil de insatisfeitos eternos, que se esbarram, se pisam, se atropelam, sem sutileza, sem delicadeza, sem doçura nenhuma. De um modo estupidamente correto e cruelmente sustentável. Sabe Deus até quando. Atolados na meta.
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