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O bicho que mora em mim

Um dia, andando no parque, achei um filhote de cachorro. Fêmea. Eu era jovem, morava sozinha, tinha um emprego promissor. Tentei dar o bicho pra alguém. Não consegui. Botei então numa caixa e levei pra agência de propaganda onde trabalhava como medida paliativa e desesperada. Ela zanzou entre pernas, passeou pelas baias, e até sobre o teclado de um amigo diretor de arte numa farra que durou uns dias. Mas logo foi preciso deixá-la em casa sozinha: a pequena cachorra de veludo preto. O coração é sagaz, espalha armadilhas nos caminhos e precisamos estar atentos. Eu tinha um ótimo emprego, um carro zero, viajava para o exterior nas férias: tudo em ordem, tudo sob controle. Até o pequeno bicho preto aparecer. Não pude conviver com a ideia de deixá-lo só o dia inteiro. Impus-me a maratona de encarar uma distância considerável e almoçar em casa todos os dias. Para ver Nina, para coçar sua barriga, para vê-la sorrir com os olhos. Não me apercebi que a alma já lançava, sorrateira, suas ramas para dentro da minha casa, do meu carro, por sobre a minha pele. O coração é sagaz, espreita brechas nas formidáveis estruturas de concreto e consumo que nos servem de bunker. Fui desgostando mais e mais do emprego e me tornando menos e menos tolerante aos desprazeres e concessões que antes me pareciam simples ossos do ofício. O vai e vem no horário do almoço me exauria e me deixava mais irritada com os atropelos e violências corporativas cotidianas. As horas no trabalho começaram a se arrastar e os minutos com Nina foram ficando curtos demais. Um dia, deixei perplexo o dono da agência quando pedi demissão. Não estava indo ganhar mais em outro lugar, na verdade nem sabia direito como ia fazer dali em diante para pagar as contas. Mas Nina não podia mais ficar só. Minha vida estava tomada pelo afeto. Os dias ganharam longos passeios com a cachorra preta correndo solta à minha frente pelas calçadas. Eu restituída a mim mesma seguindo livre atrás dela. Meu farol móvel, errático, imprevisível. Junto dela fui me resgatando de outros tantos abandonos. E era na verdade minha alma transmudada, que as nove musas do Olimpo, mães zelosas dos poetas,  fizeram surgir aquele dia no parque, e se chamou Nina, amado e saudoso bicho preto. 
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Comentários

  1. Anônimo2/8/14 19:03

    Meu Deus!... que coisa mais linda, Nanna... que saudades desse bichinho pretinho, que ficava deitada no sofá de sua sala, com a TV ligada, quando vc saia, para ela não se sentir só. E pensar que esse trequinho pequenino transformou tantas vidas, inclusive a minha, que tenho em casa um bicho marrom, que tb não me deixa sair por longo tempo, não porque ela precisa de mim, mas porque eu sou carente dela, de seus olhos e de tudo o que somente nela e na irmã, ambas caninas, consigo encontrar. Nina, corra solta, leve, faceira, dance a sua dança de bailarina pretinha, encantando todos no céu dos cachorro, que deve ser muito mais alegre que o céu dos humanos.
    CN

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