Boçal no Automático

Quase 50 anos e decidi ser radical. E não combina. Aos 50 todo mundo espera da gente um quantum de parcimônia. Sei lá, acho que foi o chaqualhão com a morte do meu pai, como um chute no pé da mesinha de centro da sala: o vasinho de cristal rodou, rodou e foi dar de cara no chão. Foda-se: nunca gostei daquele vasinho. Acordei querendo que gostem menos de mim, com tendências para vestir a máscara do inimigo. Uma vontade avassaladora de ser sincera. Sabendo que sinceridade é um troço que não cabe no modelinho século XXI. Somos falsos como um whisky paraguaio. Fazemos média o dia inteiro com o patrão, com o coleguinha de trabalho, com o público, com o porteiro do prédio, com o nosso grande amor. Aquele bosta que se acha o dono da verdade. A gente engole o sapo vestido de porco espinho pra não correr o risco de botar fim no casamento e ficar só. Vai que é pior. Nas empresas então, nunca fomos tão falsos. O chefe escroto, candidato a psicopata, grosseiro, chicoteador, sorri com o estandarte dos valores humanos da instituição em punho. O máximo que o sujeito conhece de humano é algum esquema fisiológico que viu numa aula de biologia do cursinho. Mas traz resultado, é da psicopatia, foca a meta e atropela as pessoas. Cercado de infelizes calados pela necessidade de emprego. Odiado, coletivamente, na surdina.  O amor que se lixe, virou palavra para vender sabonete. Ontem eu o perdoaria, o chefe escroto, eu o compreenderia, hoje já era: tornei-me uma cinquentona radical. E estes governos do meu país? Esta renovada mediocridade histórica. Esta baixa autoestima institucionalizada. Todo mundo rasgando o livro de sociologia que escreveu, a bandeira revolucionária que fez a mão, pra governar com os lobos. Porque sem os lobos, amigas ovelhas, você não governa. E com os lobos, você vira lobo, é homeostático. E somos todos massa de manobra: não estou falando da classe C anestesiada diante do jogo de futebol, da novela, estou falando de nós, intelectuais, acadêmicos, artistas, que nos achamos um ser diferenciado. Tudo que rola no jornal das oito no Brasil é obra nossa. Se procure um pouco nos bigodes do Sarney e você vai se achar. Concessões abomináveis que a Presidenta faz para permanecer no poder? Quantas você faz para manter seu status, seu salário, sua aliança no dedo? Qual o limite do corromper-se? O compromisso com a dignidade é um troço individual e não social. E é inarredável e contagioso. E às vezes pede que você seja radical, não coma a carne, não receba o dinheiro, não aceite o convite, não aproveite, não usufrua, não governe, não beba, não aperte a mão, fique só. Mas aaaaah que mulher chata. Quer saber, gente radical é chata. E condescendência pode muito bem ser o refúgio da covardia e da preguiça. E a propósito da paixão nacional pelo futebol, já que me tornei uma pessoa desagradável, queria dizer que não assistirei nenhum jogo da copa. E não será nada grandioso da minha parte porque futebol me interessa pouquíssimo. Mas recusarei ostensivamente os convites para ver os jogos como um micro ato rebelde diante do novo estupro dos já estuprados cotidianamente e já inertes e incapazes de sentir a dor da violência: os brasileiros. Porque o jogo todos nós já conhecíamos: iam roubar, todo mundo sabia, seria um absurdo, todo mundo sabia, é uma putaria, todo mundo tá sabendo, mas me passa a minha cerveja. Sim, estou chegando aos 50, faltam dois anos e meio, e estou me preparando para a velha inteira com ela mesma que pretendo ser. E tem a ver com o vasinho idiota que rolou da mesinha, e era só uma das centenas de coisas inúteis que carrego e reverencio em modo automático perpetuando minha boçalidade existencial cheia de condescendência. E tem a ver com a morte. Que depois de tantas oportunidades, ela não me surpreenda tão pequena. 
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Um pouco sobre o preço que pagamos. E nada contra quem ama o futebol.
http://papelpop.com/2014/06/voce-vai-adorar-tudo-que-esse-apresentador-da-hbo-falou-sobre-a-fifa/
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