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As Gostosas e a Perpetuação da Espécie

By Tom Kelley
Meu marido gerou polêmica em um grupo de discussão ao se referir a uma ex-colega de faculdade como gostosa. Algumas mulheres reagiram: porque citar os atributos físicos da outra quando o macho incauto poderia tê-la lembrado pela inteligência que também lhe era peculiar. A história me lançou no túnel do tempo aos meus vinte e poucos anos num dia em que fui gostosa. Uma amiga, inconformada com minha resistência em lidar com a sensualidade, me obrigou a usar um vestido de malha bem colado e salto alto. Olhei-me no espelho e não estava nem um pouco inteligente: eu estava gostosa. E até ali, no reflexo emoldurado dentro do meu quarto, foi muito bom de ver. Mas a amiga, que sempre deitou e rolou nas curvas do seu corpo, queria que eu saísse assim na rua. Ah, para, ah não, nem, de jeito nenhum! Fui. Empurrada pelo meu cacoete de superação, engoli o medo, e sai pela porta da casa. E, de repente, nasci dentro dos olhos de dezenas de machos que até então solenemente me ignoravam. Machos cotidianos, como o frentista do posto, e desconhecidos, como o moleque do cursinho: simplesmente me olhavam. Não necessariamente para o meu rosto ou para o meu cérebro super evoluído. Não eram mais pessoas, eram machos. Não me tocaram, não foram grosseiros, no máximo arriscaram interjeições, gracejos. Eu lá no fundo do meu feminino me sentindo mal, vagabunda, puta, desqualificada, indecente, achando que seria bem feito se eu fosse estuprada logo ali na esquina porque estava dizendo irresponsavelmente às feras: "me comam". E quase em momento nenhum, do trajeto da casa ao trabalho, pude me permitir o prazer de ser desejada. Não levantei a cabeça, em hipótese alguma sorri, e andei rápido como se tentasse correr daquela fêmea curvilínea, calipígia, de belas coxas que saltara em mim desastradamente liberta de sua masmorra. Doei o vestido e voltei aos meus figurinos retos e largos e devolvi minha gostosa para o claustro distante do primitivo. Mas a inteligência que ficou me disse que os machos percebem primeiro a gostosura de uma fêmea e que esta é uma mensagem poderosa inscrita pela natureza nas curvas do seu corpo. E sim, está escrito: "me coma".  Mas não é putaria. É só a estratégia encontrada para a perpetuação da espécie. Machos não nascem programados para comer mulheres inteligentes, não sentem um súbito tesão quando a gente dispara aquela teoria do Foucault, e olham primeiro para o belo decote e depois para a Divina Comédia de Dante que você tem na mão.  E como sou do tipo inteligente, fui ler em algum lugar que até as curvas do corpo da mulher vão se perdendo com o tempo para informar ao macho humano que aquela ali não é mais fértil. Porque o desejo também está a serviço de usar bem e usar bastante a sua carga de espermatozoides e gerar descendentes. "Me coma", dizem as fêmeas da natureza aos seus machos através dos mais variados sinais e eles pulam sobre elas na floresta, em geral com pouquíssima cerimônia. Perpetuação da espécie. Mas é óbvio que não somos mais este tipo de bicho e o macho humano precisa se segurar. Evoluímos. Nós mulheres mais do que os homens que ainda têm estes comportamentos meio Neandertais de chamar uma ex-colega de gostosa, certo? Eles querem comer todo mundo e acham que podem me comer só porque eu saí mostrando as pernas. E ousam me dizer aos gritos do alto de um prédio que estou gostosa. Como se eu fosse uma cachorra balançando a perereca inchada e vermelha rua a fora. Cachorros! Retorno ao presente, à história do meu marido, agora armada da compreensão de que carrego muitos monstros abraçados à minha sensualidade, monstros históricos, mulheres vítimas, bolinadas, estupradas por machos maus. E se não fossem eles, eu poderia lidar com o fato de que um decote diz “me coma” e usá-lo assim mesmo, sem deixar de ser tudo mais que sou. E um macho poderia até exclamar diante da minha gostosura: gostosa! como uma constatação e não como uma facada. E neste instante eu poderia escolher ser comida ali mesmo, feito uma cadela, ou seguir caminhando para o meu digníssimo trabalho. E me pareceu mais inteligente. 
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(Para o meu marido que me encanta com seu jeito politicamente incorreto por natureza.).
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