O Estupro - Parte III

Foto Edgar Neumann
(continuação do post anterior)

No fundo do escuro da inconsciência havia uma porta imensa aberta dando para uma sala iluminada. Encostada no batente, Cecília via a pequena Maria Cecília. Lá dentro, debaixo da ducha de água do chuveiro, estava ele. A porta sempre esquecida aberta. O corpo ensaboado, dançando no meio da fumaça branca. As mãos deslizando sobre a espuma do corpo. Displicentemente o pai ensinava à filha os caminhos do desejo.

A penetração foi lenta e cuidadosa. Quando acordou, Cecília tinha o homem deitado sobre si, imóvel. Sentiu enterrado entre as suas pernas, vivo, quente, pulsando, o sexo dele. Suas barrigas encostadas respiravam num só ritmo. Um diafragma empurrava o outro que relaxava sem luta. O homem inerte, mudo, largado sobre seu corpo, preso a ela por um pedaço quente de carne.  Maria Cecília descobriu que nada podia incomodá-la mais do que aquilo que não entendia. Preferia a violência convencional do estupro ao desconhecido, inesperado. O homem continuava imóvel a frustrar lhe as expectativas. A barba dele fez cócegas sobre seu ombro. Num ato reflexo, levou a mão em direção ao pescoço e descobriu que não estava mais amarrada. O peso do homem era seu único empecilho. Ao notar que estava acordada, ele segurou-lhe os pulsos, mas sutilmente, sem força, só para lembrar quem estava no controle. A venda em seus olhos, úmida de choro, continuava firme. Diante disso, todos os outros olhos espalhados pelo corpo haviam saltado para fora. Cheiros, relevos, até o som da respiração daquele homem eram milimetricamente estudados por ela. Sabia que não vê-lo significava a última esperança de permanecer viva, mas lá do fundo vinha um comichão de curiosidade, de inquietude, desejo primitivo de encarar nosso predador.


A inércia do homem começou a irritá-la. Queria ao menos que tudo acabasse logo. Não estava acostumada a esperar, não tinha paciência com a vida, sempre andou na frente do relógio. Maria Cecília fazia, nunca esperava. Se fosse a morte, então que fosse logo. Tentou desvencilhar-se com violência. Surpreendido ele deixou escapar uma de suas mãos e ela pôde arranhar seu rosto. Conseguiu recuperar lhe o pulso, mas  todo o resto do corpo lutava para sair debaixo dele. O homem respondeu à todo aquele debater-se com um único movimento, repetitivo e vigoroso para dentro do corpo dela. Tentar sair dali só levava Maria Cecília a colaborar com o vai e vem que foi se instalando autoritariamente entre as suas pernas. Se movimento quis, então teve. As mãos dele não eram mais sutis, pareciam querer pregá-la ao colchão. A penetração quieta mudou-se em enterradas fundas, o silêncio virou som gutural, respiração cortada. O humano virou bicho.

(Continua)

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