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Vem morrer, vem!

Venha morrer na próxima chuva! Venha que o país é este! Não vá para o Japão, lá tem governantes sérios, tem funcionários públicos de primeira, você não vai conseguir nem se molhar no próximo Tsunami. Venha para o Brasil. Nós temos tragédias que não saem de cartaz. Escolha a sua encosta, a sua favela no morro e venha, está tudo como sempre esteve e estará. Nós não corremos o risco de um competente, um comprometido, um cara ou muitos caras com autoestima quererem resolver alguma coisa, nós nos garantimos, nós convocamos todos os bundas-moles disponíveis, eles estão à frente da coisa pública e a coisa tá feia e é para sempre: venha morrer na próxima chuva! Venha morrer queimado com seus filhos na nossa favela de papelão. Você não conseguiu morrer no ano passado? Milagrosamente seus filhos saíram vivos do barraco em chamas? Não se desespere meu querido! Você pode voltar!! A favela está lá te esperando!!! Levante sua casinha combustível, de preferência debaixo do viaduto, venha morrer queimado, sim morreram muitos no ano passado, mas este ano será diferente, vamos morrer de forma diferente, vamos inovar: queimados e esmagados pela estrutura do viaduto que vai cair. Ano passado não caiu, fomos pouco agressivos. Este ano estamos ainda mais bunda-moles e vai cair, confie no seu governante! Garanta sua vaga nos escombros! Turismo de aventura é coisa de gente fresca. Venha fazer turismo de soterramento! Todo ano, na época das chuvas, estamos lá esperando você no Rio de Janeiro com nossas ambulâncias, nossos bombeiros, nossos acampamentos improvisados, nossas campanhas de arrecadação de roupas e alimentos. Nós somos bons em correr atrás do prejuízo, não tem pra ninguém, brasileiro é o atleta do prejuízo. A gente tem prejuízo com as chuvas, com a corrupção, com a violência, com o incêndio na casa de shows e corre atrás! Somos superatletas da desgraça! Correr na frente é batido, é clichê! A gente corre atrás empurrando com a barriga e não alcança. É ge-ni-al! Resolver é coisa de gente frouxa, estes ortoajustados da Suécia. A gente quer é pagar muito imposto pra ver sangue escorrendo na lama, pra ver os familiares morrendo sufocados na fumaça!  A gente quer é encher o rabo dos políticos de grana pra garantir nossa vaga no necrotério. Vaga na escola? Vaga na UTI? Não seja tão previsível, meu querido! Inove! Pague para ter sua própria bandeja de metal quando estiver lá estirado e duro e frio e absolutamente morto. Porque aqui, neste país maravilhoso, você tem escolha, meu amigo. Então escolha sua tragédia e venha morrer com a gente! E mais: sua foto três por quatro pode aparecer no telejornal no horário nobre e, se sua morte for bem escabrosa, podem até entrevistar a sua esposa e perguntar como ela se sente! Olha que sensibilidade a nossa! E nem precisa de inscrição. É só entrar, colocar a roupa de palhaço e ficar parado esperando. Não é o máximo? É azul! É verde! É amarelo! É nós!!
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