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Nem Malditos, Nem Assalariados

Amiga, sejamos o possível agora e não mais a enganosa proposta de ser. Há quanto tempo a meta fria vem nos distraindo dos arrepios viáveis do existir? A meta, carregamos eu e você, feito mala de palhaço. Meta para nós é sólido feito um poema. Rasga a análise da consultoria, a pesquisa do Ibope, as diretrizes do sucesso no esquema pós-pós-pós-moderno.  São como água benta e banho de luz: só funcionam para quem crê. Olha os artistas adaptados, olha os filmes sem alma, olha as peças de teatro burocráticas, olha os atores e diretores e autores funcionários públicos. Não pagam direito as contas, nem cravam as unhas nas costas da história. Nem malditos, nem assalariados. Olha este meio do caminho de merda. Vê nosso esforço ridículo para fazer a arte que agrada ao ministro, ao gerente de marketing, à dona de casa, à classe C. Vê os projetos pasteurizados e mentirosos que inventamos e onde tentamos esconder, feito parasita, um tiquinho do nosso jeito de amar a vida. Vê como não existe água sequer para os primeiros brotos da semente. E morrem. E rastejam demais até morrer.  Porque não viemos atender esquemas de sucesso. Não viemos emprestar verniz às marcas das empresas. Não viemos colaborar com a sustentabilidade e o desenvolvimento humano. Viemos como soldados defender com nossa vida a última fronteira do espontâneo. O inexplicável e injustificável espontâneo, que morre nas mãos cheias de razão do sistema. E não pensamos no público (Como foi custoso entender.). Se falamos ao público, é simplesmente por ser impossível não tocar o outro quando gozamos de verdade. Impossível não comovê-lo, não transformá-lo. E este é o supremo poder da arte da qual somos cavalos. Se te limita e pesa e amargura, nem seja mais artista. Seja apenas a mãe da sua filha, sentada entre mães na aula de natação. A arte, faça levianamente no tempo que sobrar, como andar pra frente, como algo sem repercussão mas naturalmente seu. Sabe aquele impossível risoto que você tira do nada num sábado de manhã para o almoço? A arte possível. Come e deixa o estômago sorrir um pouco. Que amanhã, querida, tudo acaba.  Uns terão sido escolhidos, outros não. Mas muito poucos terão gozado sobre o corpo sempre disponível da arte. E eu desejo a você hoje, agora, já, estes gritos, despropositados e surdos, de prazer.
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Comentários

  1. Hoje, conversava com o meu marido, sobre o meu desejo de mandar à puta que os pariu os editais, as comissões julgadoras, os outros artistas julgadores, os movimentos políticos, o teatro político, e fazer algo que eu goste de estar fazendo...
    Hoje... e me deparo com esse texto. A amiga sou eu também!
    Obrigada!
    Acho que quero ser (apenas?) mãe da minha filha e fazer arte levianamente, no tempo que sobrar, como andar pra frente... eu quero isso! sim, quero!

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    1. Muito disto descobri na sua casa. Obrigada também.

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  2. A unanimidade é burra (N.R.). A virtude nunca esteve nos extremos (D.P). Jesus Cristo deixou uma obra inigualável e incompreendida pela grande maioria. Não se desespere. Quem quer sucesso imediato, que trabalhe para a mediocridade, quem quer fazer história, vai penar no presente para brilhar no futuro: o que talvez não seja consolo.

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    1. Sempre querido companheiro de viagem, pela primeira vez estou em paz com o que amo fazer. Não é pouco. Não é não.

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  3. Parafraseando Ricardo Reis (F. Pessoa):
    "Para ser grande, sê inteiro.
    Nada teu exagera ou exclui.
    Sê todo em cada coisa.
    Põe quanto és no mínimo que fazes.
    Assim em cada lago a lua toda brilha, porque alta vive."
    Há muitos já se falam que o povo apenas precisa de "Pão e Circo", pois então, que sejamos os melhores Padeiros e Palhaços que podemos ser agora!! Bjss

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    1. Ai este Fernando Pessoa, ser de outro mundo,tenho voltado tanto a ele em busca de orientação. Obrigada Tori.

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