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Mulher de Vida Fácil

Heather
Faz umas duas semanas que começou a acontecer comigo. Primeiro um comichão, um arrepio, um sorrisinho de canto de boca, uma vontade inocente de continuar na cama mais quinze minutos rolando feito gato. Excitações passageiras, nada preocupante, pensei. Mas hoje, definitivamente, a coisa desandou. Fui tomada por um prazer imperativo de ser uma mulher a toa. Deixei as crianças na escola, tomei café na padaria com meu marido, andamos pelo parque e na volta sentei-me sob uma árvore e meditei.  Não havia pilhas de trabalho à minha espera e o dia lá fora estava lindo. Sentei-me diante do computador e a caixa de emails recebeu umas dez mensagens, que são o bastante para uma mulher a toa ser feliz. Nada era urgente. Nada trazia a reboque outra mulher atropelada me empurrando as costas.  Estabilizei-me num estado de graça, numa mulher básica, ligada ao dia a dia doméstico, que ganha pouco, que depende, que veste um vestido florido para ir ao supermercado.  Era como se enfim viesse a resposta à pergunta feita pela menina despenteada, de joelhos sujos e ralados buscando aos sete anos a feminilidade no vazio do espelho.  Um longo caminho se iluminou da menina até mim trazendo no acostamento fotos das mulheres que fui, das tentativas de mulheres que fui, quebra-cabeça incessantemente remontado. Tanto foi preciso erguer e demolir para que a mulher de vida fácil mergulhasse em seu vestido de flores e pudesse deslizar sem culpa por toda uma semana em que não ganhou um tostão, não foi grande em nada, e apenas cumpriu tarefas repetitivas e cotidianas. Perdi o pavor de não merecer viver e desliguei em mim a busca compulsiva do reconhecimento.  Porque me reconheci. Mesmo que o mundo seja perigoso e cruel, mesmo que as contas morem em pilhas, mesmo que o homem rosne, mesmo que fique escuro, mesmo que a meta aumente, mesmo que eu não possa... sou doce, sou lenta, sou de parar pra ver ipê em flor, sou de tomar banho de creme, sou de sentar no chão com os filhos, sou de ter muito bicho, sou de não dar conta muitas vezes.  Mulher a toa, posso parar sem culpa, sem desassossego, e lavar os pés inchados da guerreira que me carregou por tantos anos,  e aconchegar no peito a atiradora assustada que me protegeu,  e pentear mil vezes os cabelos da menina, e enchê-los de flores. Hoje se revelou o pacto submerso de todas elas para me trazerem aqui. Tudo foi construído, cada detalhe da realidade surpreendente que me cerca, tudo foi escolhido na prateleira do tempo.  E a riqueza da vida enfim nos abraçou. E só sendo a toa e de vida muito fácil para poder sonhar acordada, numa segunda às quatro da tarde, com uma enorme lagoa de água tépida e transparente, onde boiam flores perfumadas caídas de jasmineiros brancos e rosas,  e onde dançam nuas minha mãe, minhas irmãs, as sobrinhas, as amigas, todas estas criaturas amadas que me cercam, sorrindo, os cabelos soltos,  a pele delicada, a alma leve, jogando água umas nas outras,  consteladas no éden, deliciosamente mundanas e alheias à toda e qualquer aspereza humana. 
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Comentários

  1. Nanna, que texto lindo! Bj Davi - BH

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    1. Oi amor! E você? Quando vai virar um sujeitinho a toa? rsrs. Saudade!

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  2. Mulherzinha à toa que se preze tem q ter empregada, cozinheira, babá, hahahaha
    e marido rico ou não?? bjo doce

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    1. Que nada, a física quântica explica que estas coisas você cria (ou não). E dá pra ser muito rico e muito escravo e dá pra ser a toa sem empregada e dá pra saber muito e ser cego. Prenda a respiração e mergulhe mais fundo. A superfície é tão enganosa quanto a realidade.

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  3. Uma verdadeira joia esse texto, preciso tirar o peso do meu dorso também.
    Beijo!

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    1. Obrigada Adri, que bom que serviu para te aliviar. Beijo.

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  4. quem sabe na minha próxima escolha de texto para dizer ao público, eu seja capaz de escolher esse...

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    1. Amada, sumida, saudades de você aqui.

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  5. ...a essa hora da manhã me seneti rodopiando em um lindo lago....
    Obrigada Nanna!
    Bjs
    Lili

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