Asa de Borboleta

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Hoje dei banho em minha mãe. Num longo e delicado ritual de limpeza, fomos nos despedindo de quem éramos. A água que escorria pelo piso de granilite trouxe minha criança refletida. Ela sorriu docemente e escorreu para dentro do ralo.  Corri os olhos sem medo pelo corpo de minha mãe. Exposto. Uma nudez absoluta que antes nunca: nem orgulho, nem vaidade, nem razão, nem raiva cobriam mais o que ela era, minha mãe tornou-se asa translúcida de borboleta. Fragilidade forçada, obrigatória, totalmente destoante dela. Minha mãe de ferro, minha mãe trator, cadê? Momento doloroso de constatar que ela se foi levando minhas tetas de leite quente, minhas mágoas de menina, e, quem sabe, um trauma pegajoso ainda por resolver. Tenho nas mãos o corpo frágil e sofrido de alguém em quem minha mãe esteve, nada mais é possível senão cuidar, deslizar o sabonete com carinho sobre as costas arqueadas, deixá-la me guiar no como fazer e até onde ir nesta viagem. Meus olhos guardam pequenas fotos do momento: os dedos tortos apoiados na parede de azulejos, as pernas muito magras cheias de veinhas escuras... e a pele macia no dorso, detalhe suave, insuspeito, daquela que foi minha mãe. Enrolo a mulher nua na toalha, seco suas pernas e seus pés, dou busca em cada gota perdida no continente deste corpo totalmente entregue. Intimidade absurda que me comove. Foi meu muro, meu abismo, minha esfinge, meu purgatório, foi meu mingau de fubá, meu chá de tansagem, minhas rosquinhas douradas, a mão na testa das minhas febres. Hoje é só uma companheira na odisseia do feminino. Fez sua parte e nada me deve, nada tem a explicar.  Vou ajudá-la a estender na cama o cansaço de uma longa e acidentada trajetória em que teve muitos filhos, dentre eles uma menina que fui eu.   E despejarei sobre seu corpo centenas de pétalas de rosa num tributo. 
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Comentários

  1. Tão forte e ao mesmo tempo tão leve...
    Lindo, lindo; como as pétalas.
    Beijo!

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  2. Pura poesia...Lindo!
    Abraço!

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  3. Não sei se o meu "curtir" seria bem interpretado, porque acho que este lindíssimo texto, sincero, doído e real não deve ser "curtido", porque não há motivo vistas as circunstâncias. Mas ele deve ser lido. Deve ser interpretado e mais do que tudo, absorvido. Assim como eu fiz. Bela homenagem...

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    1. Amado, beija a sua mãe e a sua vó por mim.

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  4. Que profundo! O contrastante duelo do mais profundo apego e da evanescente facilidade da perda. A fragilidade da vida e a força da influência do vínculo mãe e filha vislumbrada na frágil transparência das asas da borboleta! Odiamos nossas mães enquanto lagartas e as Amamos infinitamente como borboletas! Safo, este texto segue como um dos meus favoritos! Bjs

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    1. Nem tinha percebido a dialética borboleta-lagarta que você me trouxe. E é mesmo. Obrigada Tori.

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